1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais promovido pelo CFMV
O avanço de bactérias resistentes aos antimicrobianos já representa um dos maiores desafios da saúde pública mundial e o debate sobre o uso responsável desses medicamentos também passa, cada vez mais, pela medicina veterinária. Para ampliar essa discussão e fortalecer estratégias de enfrentamento na prática clínica, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), por meio da Revista CFMV, promoverá no dia 12 de junho o 1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais.
O evento será realizado de forma on-line, das 8:30 às 17 horas, com transmissão pelo YouTube do CFMV (@CFMVoficial), e integra as ações comemorativas pelos 30 anos da Revista. As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas no site do CFMV.
A programação reunirá representantes do poder público, entidades da medicina veterinária e profissionais da área para discutir os impactos da resistência aos antimicrobianos (RAM) na clínica de pequenos animais, dentro da abordagem de Saúde Única, que integra saúde animal, humana e ambiental.
Entre os destaques do seminário está a palestra magna “Panorama atual da resistência aos antimicrobianos na clínica de pequenos animais nos centros de terapia intensiva”, ministrada pela médica-veterinária Camila Molina, da BVECCS, abordando os desafios enfrentados em ambientes críticos da medicina veterinária.
Outro momento central da programação será o painel intersetorial “Estratégias intersetoriais pela RAM: o papel da clínica de pequenos aAnimais no Plano de Ação Nacional contra a RAM (PAN-BR)”, que contará com representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Ministério da Saúde (MS), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Câmara Pet/Mapa, Associação Nacional dos Médicos-Veterinários (ANMV) e do CFMV.
O seminário também contemplará palestras técnicas voltadas à caracterização de bactérias resistentes aos antimicrobianos e discussões sobre os desafios da resistência antimicrobiana em áreas como gastroenterologia, nefrologia e dermatologia veterinária, especialidades diretamente impactadas pelo aumento de bactérias multirresistentes na rotina clínica.
Além de discutir aspectos técnicos e científicos, o evento busca fortalecer o debate sobre vigilância, prevenção, uso racional de antimicrobianos e atuação integrada entre diferentes setores, pontos considerados fundamentais para conter o avanço da resistência antimicrobiana.
A iniciativa reforça o papel estratégico da medicina veterinária na promoção da saúde pública, na saúde e bem-estar animal e no enfrentamento de desafios sanitários.
Entrevistamos as médicas-veterinárias Francisca Neide Costa (FC) – CRMV-MA: 539 –, Mitika Kuribayashi Hagiwara (MH) – CRMV-SP: 521 – e Luciana Sartori (LS) – CRMV-SP: 46.172.

Revista Clínica Veterinária (CV) – O que motivou a organização deste I Seminário e por que debater a resistência antimicrobiana (RAM) especificamente na clínica de pequenos animais?
(FC, MH e LS) – A principal motivação é a velocidade com que os organismos multirresistentes surgem na rotina de cães e gatos, mas também a urgência de preencher um vazio regulatório. No Brasil, até o momento, não há nenhum órgão público que assuma a responsabilidade por estabelecer políticas, normas ou fiscalização específicas para a RAM na clínica de pequenos animais. O setor está em uma espécie de ‘limbo’ institucional. Diante dessa ausência, o CFMV toma a frente para liderar essa discussão. Precisamos debater o tema urgentemente porque os pets utilizam antimicrobianos de importância crítica para a medicina humana e precisamos padronizar condutas antes que as opções terapêuticas se esgotem.
CV – Na prática diária do médico-veterinário de cães e gatos, quais são os maiores desafios para o uso consciente de antibióticos?
FC, MH e LS – Os desafios são diários, vão desde a pressão dos responsáveis pelos animais por uma melhora rápida até a prática da automedicação em casa. Além disso, a não utilização de uma ferramenta muito importante na prática clínica e que faz toda a diferença quando da prescrição de um antimicrobiano, como a realização de exames de cultura e antibiograma, muitas vezes por limitações financeiras do cliente, leva à prescrição desnecessária ou inadequada, o que aumenta a pressão seletiva sobre os microrganismos.
CV – Como os temas que serão abordados no seminário podem ajudar o clínico a tomar decisões terapêuticas mais seguras e eficazes?
FC, MH e LS – No seminário a ciência será traduzida em ferramentas práticas. Discutiremos protocolos baseados em evidências, critérios rigorosos para a escolha do antimicrobiano correto, dosagem e tempo de tratamento adequados. O objetivo é fazer com que o clínico saia do evento sabendo como proteger seu paciente e, ao mesmo tempo, preservar a eficácia dos fármacos.
CV – Qual é a importância do uso indiscriminado de antimicrobianos e da resistência a antibacterianos em animais domésticos e de produção?
FC, MH e LS – A RAM tornou-se na atualidade um verdadeiro desafio global para a Saúde Única. O uso indiscriminado de antimicrobianos na produção animal e no tratamento de doenças animais e humanas ao longo do tempo resultou na adaptação dos microrganismos com o surgimento de genes de resistência o que os torna capazes de subsistirem longamente no organismo hospedeiro e no meio ambiente, causando danos imensuráveis. É uma das maiores ameaças à Saude Pública Global tratada sob a abordagem de Saúde Única que conecta a saúde humana, a animal e a ambiental. O Ministério da Agricultura do Governo Brasileiro gerencia o PAN-BR Agro, um Plano de Ação focada na agropecuária que estabelece o uso responsável e prudente de medicamentos veterinários.
As ações contempladas no PAN-BR Agro não alcançam, inicialmente, a clínica de pequenos animais, por estarem focadas nos animais de produção, deixando de lado os animais de companhia. Apesar do alto interesse e da demanda, não existem ações coordenadas nem políticas públicas envolvendo esse segmento da medicina veterinária, o que se faz urgente e necessário, dada a estreita ligação entre os seres humanos e seus animais.
Na clínica de pequenos animais, a resistência aos antimicrobianos (RAM) em cães e gatos deixou de ser uma preocupação distante e vem se tornando um desafio crítico e diário na rotina dos veterinários. O cenário atual envolve sérios riscos terapêuticos e o reconhecimento de que os animais de estimação atuam como importantes reservatórios e transmissores de superbactérias e de outros microrganismos no ambiente domiciliar.
Os laboratórios de microbiologia veterinária no Brasil apontam uma alta prevalência de bactérias multirresistentes (MDR) em amostras clínicas de pets:
• Staphylococcus (especialmente S. pseudintermedius e S. aureus): São os patógenos mais isolados em infecções de pele (piodermites) e otites. As cepas resistentes à meticilina (MRSP e MRSA) são de tratamento extremamente complexo e limitam o uso de betalactâmicos.
• Escherichia coli e outras enterobactérias: Muito comuns em infecções do trato urinário (ITU) e gastrintestinais. Tem se observado um aumento alarmante de cepas produtoras de ESBL (Betalactamases de espectro estendido), que são resistentes às cefalosporinas de terceira geração.
• Pseudomonas aeruginosa: Comumente isolada em otites crônicas e profundas, apresentam resistência natural a diversos fármacos e alta capacidade de formar biofilmes, que bloqueiam a ação dos colírios e soluções otológicas convencionais.
CV – Pensando no conceito Saúde Única (One Health), qual é a real responsabilidade do clínico de pequenos animais no cenário global da resistência bacteriana?
FC, MH e LS – O médico-veterinário de pequenos animais atua diretamente na intersecção entre a saúde animal e humana, já que esses pets compartilham o mesmo ambiente e estreito contato físico com as famílias. Estudos genéticos comprovam que bactérias resistentes (e seus genes de resistência) transitam de forma bidirecional entre seres humanos e seus animais. Uma bactéria que ganha resistência no animal pode ser transmitida para o responsável e vice-versa. Nessas condições, os animais de companhia são considerados reservatórios silenciosos de genes de resistência ambiental. Controlar a RAM na clínica de pequenos animais é conter a disseminação de genes de resistência no ambiente doméstico, salvando vidas humanas e animais. O combate a RAM exige uma ação coordenada de todos os protagonistas envolvidos, incluindo os médicos-veterinários clínicos que atuam direta ou indiretamente na preservação de saúde dos animais de companhia. Dentre as ações que clínicos e responsáveis pelos animais de companhia devam aderir, podemos citar:
• Diagnóstico assertivo: Exigência de exames de cultura e teste de suscetibilidade aos antimicrobianos (TSA) antes de eleger terapias de longo prazo.
• Uso de antibióticos críticos: Restrição estrita de uso de antibióticos de “última escolha” da medicina humana (como carbapenêmicos ou vancomicina) na rotina veterinária, preservando-os para a saúde humana.
• A sábia postura e conduta profissional de reconhecer aqueles casos em que a própria natureza do processo mórbido segue seu curso natural, bastando dar suporte ao animal sem o uso desnecessário de antimicrobianos. Como exemplo, certos casos de diarréias agudas em que a súbita modificação da alimentação ou do ambiente intraluminal ocasionam o surgimento de disbiose momentânea e passageira, ou diarréias osmóticas.
• Foco em tratamentos tópicos: Substituição de tratamentos sistêmicos por terapias tópicas (shampoos, pomadas e soluções) em casos de infecções dermatológicas superficiais, reduzindo a pressão de seleção bacteriana no organismo como um todo.
CV – Quais as principais causas da aceleração da RAM nos animais de companhia?
FC, MH e LS – O avanço da resistência em clínicas veterinárias é impulsionado por fatores comportamentais e estruturais como:
• Uso empírico generalizado: A prescrição de antibióticos baseada apenas em “tentativa e erro”, sem a realização prévia de cultura e antibiograma, mascara o perfil de resistência local.
• Prescrição de fármacos humanos: É frequente a utilização de antimicrobianos da medicina humana em animais de companhia devido à falta de opções comerciais puramente veterinárias para certas moléculas ou por questões de custo.
• Erros de manejo por parte dos responsáveis: A interrupção precoce do tratamento (assim que o animal melhora os sintomas), a alteração de doses por conta própria ou a administração de restos de medicamentos guardados em casa.
CV – Quais os maiores riscos do uso de antimicrobianos em animais de companhia e de que forma a discussão no seminário a respeito da RAM com os órgãos envolvidos pode contribuir no uso racional desses fármacos?
FC, MH e LS – O uso de antimicrobianos em animais de companhia (como cães e gatos) cresceu significativamente nos últimos anos, trazendo para a clínica de pequenos animais um desafio global que antes era muito focado na pecuária e na produção de alimentos. O cenário atual é complexo e envolve riscos sanitários graves, potencializados por uma lacuna regulatória. Os riscos não se limitam à saúde do paciente, eles têm impacto direto na saúde pública e ambiental, consolidando-se como um problema central dentro da abordagem de Saúde Única (One Health). Destaco os principais riscos e como o debate estratégico nesse seminário poderá mudar esse panorama.
• Seleção de bactérias multirresistentes (Superbactérias): O uso indiscriminado, em subdoses ou por tempo inadequado, elimina as bactérias sensíveis e seleciona as resistentes. Cepas de Escherichia coli, Staphylococcus pseudintermedius (MRSP) e Enterococcus spp. resistentes a fármacos de última escolha já são realidades na rotina clínica.
• Proximidade e transmissão interespécies: Diferente dos animais de produção, os animais de companhia compartilham o mesmo teto, a cama e o convívio físico íntimo com os responsáveis. Isso gera uma via de mão dupla perfeita para a transmissão horizontal de genes de resistência e de bactérias resistentes entre pets e humanos.
• Uso de fármacos críticos da medicina humana: Devido à escassez de antimicrobianos exclusivamente veterinários desenvolvidos para pequenos animais, a rotina clínica frequentemente recorre a princípios ativos de importância crítica para a medicina humana (como cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações e fluoroquinolonas), reduzindo as opções terapêuticas para os humanos.
• Prescrição empírica e falta de diagnóstico: A cultura e o antibiograma ainda enfrentam resistência por parte dos responsáveis pelos animais (pelo custo) ou por pressa na rotina clínica. Tratar infecções “às cegas” aumenta a taxa de erro terapêutico e a pressão seletiva sobre a microbiota do animal.
CV – No seu entender, qual é a importância do Iº Seminário sobre RAM na clínica de pequenos animais?
FC, MH e LS – Pela primeira vez no Brasil, haverá um debate unificado e articulado entre médicos-veterinários, pesquisadores, o Sistema CFMV/CRMVs, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Anvisa, a Câmara de Animais de Estimação do MAPA e a Associação Nacional de Médicos-Veterinários. Acredito que esse debate com todas essas autoridades irá guiar o setor em quatro pilares:
• Preenchimento de um vazio normativo: Definir e pactuar qual órgão público assumirá a responsabilidade pelas políticas e fiscalização da RAM em pequenos animais.
• Definição de diretrizes oficiais: Criar guias nacionais de prescrição que organizem os antimicrobianos por linhas de escolha (uso comum vs. uso restrito).
• Controle de venda eficaz: Discutir mecanismos para rastrear e coibir a venda indiscriminada ou a automedicação por parte dos responsáveis pelos animais.
• Criação de redes de monitoramento: Integrar laboratórios privados e universitários para mapear o real perfil de resistência bacteriana no país.
Enquanto as diretrizes não se tornam políticas públicas obrigatórias, cabe ao médico-veterinário a defesa da Saúde Única na ponta do atendimento, priorizando o diagnóstico laboratorial e conscientizando os responsáveis pelos animais sobre os riscos do uso indiscriminado.
1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais
Data: 12 de junho de 2026
Horário: das 8h30 às 17h
Formato: on-line
Transmissão: YouTube do CFMV (@CFMVoficial)
Inscrições: https://www.sympla.com.br/evento-online/i-seminario-sobre-resistencia-aos-antimicrobianos-na-clinica-de-pequenos-animais-do-cfmv/3432584?algoliaID=632bd60f40ec4b00e3f799927075a53a