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Saúde única

Além da fronteira da fagilidade

Porque a Saúde Única é a nossa maior promessa de futuro

Matéria escrita por:

Paulo Abilio Varella Lisboa

2 de nov de 2026

Créditos: PAVL / Gemini Créditos: PAVL / Gemini

O Dia Mundial da Saúde Única (One Health), celebrado em 3 de novembro, não nos convida apenas a celebrar uma data no calendário; ele nos convoca a um despertar urgente. A premissa de que a saúde humana, a dos animais e a dos ecossistemas são indissociáveis deixou de ser uma tese acadêmica para se tornar a linha tênue entre a continuidade da vida civilizada e o colapso sistêmico. Contudo, comemorar esta data em pleno 2026 exige de nós uma postura sóbria: a de olhar nos olhos da crise global sem perder de vista a bússola da esperança.

 

O cenário global: entre o abismo dos riscos e o sopro da resiliência

Hoje, o planeta enfrenta uma polifonia de riscos interconectados. A aceleração das mudanças climáticas, a perda vertiginosa de biodiversidade, a expansão agrícola desordenada sobre zonas silvestres e o uso imprudente de antimicrobianos continuam a armar o cenário para novas emergências sanitárias e zoonóticas. As fronteiras entre a floresta e a cidade se dissolvem todos os dias, e com elas caem as barreiras que nos protegiam de patógenos desconhecidos.

Mas a resiliência do planeta e das comunidades humanas tem se mostrado formidável. Assistimos a vitórias recentes que provam que a inércia não é o único destino possível:

• A consolidação global de marcos intersetoriais: governos e organismos internacionais começam a integrar, de forma concreta, agências de saúde pública, meio ambiente e agricultura sob uma mesma governança, superando silos históricos.

• Avanços na vigilância genômica e inteligência cooperativa: o rastreamento em tempo real de variantes virais e o monitoramento ambiental de esgotos e ecossistemas permitiram antecipar surtos antes que se transformassem em catástrofes humanitárias.

• O despertar da sociedade civil: comunidades locais, povos originários e redes científicas têm pressionado por políticas públicas baseadas em evidências, mostrando que a verdadeira resiliência brota de baixo para cima.

 

A casa comum e o fim do antropocentrismo

Para compreender a profundidade da Saúde Única, precisamos desmontar a ilusão fundante da modernidade: o antropocentrismo. Por séculos, a humanidade agiu sob a falácia de que a Terra é um armazém infinito de recursos e de que o homem – colocado no topo de uma falsa hierarquia evolutiva – tem o direito de se sobrepor a todas as outras formas de vida.

Essa lente egocêntrica gerou uma violência sistêmica contra a natureza e os animais, tratados como meros insumos, objetos de consumo ou barreiras a serem vencidas. A proteção animal contra os abusos e a crueldade institucionalizada não é um apêndice sentimental da ecologia; é o núcleo ético de qualquer civilização que pretenda sobreviver. A violência exercida contra os animais e os ecossistemas invariavelmente retorna, sob a forma de pandemias, colapsos climáticos e desolação, para assombrar a própria humanidade.

A Terra é a nossa casa comum. E uma casa comum não comporta senhores e escravos, espécies superiores e inferiores. Ou aprendemos a habitar este espaço sob a égide da corresponsabilidade, ou pereceremos juntos em nossos próprios escombros de arrogância.

 

Vulnerabilidade, política e a luta por justiça epistêmica

Apesar dos avanços, a vulnerabilidade continua a ser distribuída de forma profundamente desigual. As crises climáticas e sanitárias não atingem a todos da mesma maneira; elas punem com mais força as populações marginalizadas, os territórios periféricos e os países do Sul Global, que menos contribuíram para a degradação ambiental.

Nesse tabuleiro, a política mundial muitas vezes claudica diante de interesses econômicos de curto prazo e de polarizações geopolíticas. É aqui que o trabalho diário de quem está na linha de frente ganha relevância existencial. Como apontam as muitas trajetórias da militância e atuação na saúde pública, na medicina veterinária e na defesa da vida, a práxis cotidiana exige coragem para enfrentar essas estruturas. A experiência acumulada na interface entre a ciência, a proteção animal e a saúde pública nos ensinam que a teoria só tem valor quando sangra junto com a realidade dos territórios.

Nesse processo, a justiça epistêmica torna-se inegociável. Não haverá Saúde Única enquanto valorizarmos apenas o conhecimento tecnocientífico hegemônico de gabinetes e silenciarmos os saberes tradicionais, o conhecimento empírico das comunidades locais, o ativismo de base e a sabedoria de quem protege a fauna e as florestas no suor do dia a dia. A dignidade para todos – seres humanos e não-humanos – exige uma tomada de decisão plural, descentralizada e profundamente ética.

 

Uma celebração de resistência e esperança

Comemorar a Saúde Única é, portanto, um ato de resistência lúcida. Não celebramos a perfeição do presente, mas a potência do que podemos construir quando depomos as armas do antropocentrismo.

A esperança realista nos diz que o estrago é imenso, mas a capacidade humana de transformação ética, empatia e cooperação é ainda maior. Quando entendemos que a cura de uma espécie está na preservação da outra, resgatar a dignidade para todos deixa de ser uma utopia romântica e passa a ser a única estratégia de sobrevivência viável para a nossa casa comum.