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Saúde única

Uma Só Saúde, One Health, Una Solo Salud

Barreira linguística ou divisão conceitual?

Matéria escrita por:

Paulo Abilio Varella Lisboa

30 de jul de 2026


Introdução

A pandemia de Covid-19 mostrou algo que muitos especialistas já sabiam: não é mais possível pensar a saúde humana separada da saúde animal e da saúde do meio ambiente (saúde ambiental, saúde vegetal e saúde dos oceanos) e é preciso pensar a saúde humana, animal e ambiental de forma integrada.

Termos como One Health, Uma Só Saúde, Saúde Única, Saúde Global, Global Health, Saúde Pública, Public Health, Saúde Coletiva, Collective Health, Saúde Planetária, Planetary Health, Medicina de Conservação, Conservation Medicine, entre tantos outros, são empregados e estão consagrados na terminologia científica.

Essa ideia de integração virou o centro das discussões em saúde global ou saúde planetária, principalmente com o conceito de One Health. Mas quando a gente traduz esse termo – “Uma Só Saúde” no português, “One Health” no inglês e “Una Solo Salud” no espanhol – será que são só palavras diferentes ou cada uma carrega um jeito próprio de enxergar o problema?

Este texto discute as diferenças entre os termos One Health, Uma Só Saúde e Una Solo Salud, entre outros, não como simples e literais traduções, mas como expressões que carregam visões culturais distintas. A conclusão aponta que, para publicações internacionais, o termo em inglês é o padrão-ouro, mas o bilinguismo estratégico pode fortalecer tanto a indexação quanto a comunicação local.

 

Análise linguística e cultural

O termo One Health ganhou força nos anos 2000, depois dos 12 Princípios de Manhattan (2004), puxado por organizações como FAO, OMS e OIE (hoje WOAH). A escolha do “one” em inglês passa a ideia de que não há separação possível – a saúde é una.

No Brasil, a tradução “Uma Só Saúde” foi adotada oficialmente por instituições como Fiocruz e Ministério da Saúde. A escolha das palavras não é inocente: “uma só” reforça que não existem “saúdes” separadas. O termo “Saúde Única” representa a ideia, onde “única” indica a integração, reforçando o conceito de que não há separação. O termo “Saúde Única” é bastante empregado e não há diferença linguística entre ele e “Uma Só Saúde”, sendo utilizado especialmente entre médicos-veterinários e sanitaristas, mostrando a influência da tradição brasileira nessa área.

Já “Una Solo Salud”, usado na América espanhola, tem um sentido parecido, mas com uma nuance: “solo” (somente) enfatiza que existe uma única saúde possível. Em países como Peru, Bolívia e México, onde a relação entre comunidades rurais, animais e natureza é muito direta, essa escolha faz todo sentido.

A questão principal é: essas diferenças não são só de tradução. Elas mostram como cada cultura enquadra a relação entre ser humano, animais e ambiente. O inglês aposta na interconexão sistêmica. O português e o espanhol, na indivisibilidade – na ideia de que a saúde é uma coisa só, ponto final.

 

Brasil versus Mundo

No cenário internacional, One Health é o termo dominante. Uma busca rápida no PubMed mostra mais de 12 mil artigos com esse descritor, contra menos de 200 usando “Uma Só Saúde”. O Brasil vive um dilema: a Fiocruz e a Academia Brasileira de Ciências adotam “Uma Só Saúde” em documentos oficiais, mas grande parte dos pesquisadores brasileiros publica em inglês usando “One Health” para ter visibilidade.

Isso cria uma escolha difícil para o pesquisador: publicar em português fortalece a identidade nacional e facilita a comunicação com gestores locais, mas reduz o alcance. Publicar só em inglês maximiza a audiência, mas desconecta o conhecimento do seu contexto. Países como Espanha e México enfrentam o mesmo dilema com “Una Solo Salud”, mas lá a OPAS tem feito um esforço mais coordenado para manter o termo em espanhol, o que não vemos com a mesma força no Brasil.

 

Discussão

Para periódicos de alto impacto, não tem jeito: One Health é o padrão. É o termo indexado no MeSH, o mais citado e reconhecido. Usar outra versão pode custar caro em termos de visibilidade e busca acadêmica.

A estratégia mais esperta para o pesquisador brasileiro é o bilinguismo estratégico: título e resumo em inglês com “One Health” para garantir indexação, mas manter “Uma Só Saúde” no corpo do texto ou em versão bilíngue. Assim o autor não perde o alcance internacional nem abre mão do contexto local.

Mas essa escolha não é só técnica – ela também tem um peso político. Manter a terminologia em português fortalece a produção científica nacional e facilita o diálogo com a sociedade e os gestores. Ignorá-la pode enfraquecer a capilaridade do conceito em políticas públicas brasileiras. Por outro lado, insistir apenas no termo em português pode isolar o pesquisador do debate global. O equilíbrio está em circular entre as duas línguas com consciência.

 

Considerações finais

As variações de One Health em português e espanhol não são erros – são expressões legítimas de como diferentes culturas entendem a relação entre seres humanos, animais e ambiente. Reconhecer essa diversidade é parte do próprio espírito da abordagem: a saúde é uma só, mas as formas de dizê-la são muitas. O desafio do pesquisador hoje não é escolher um termo, mas circular entre eles com consciência do que cada um representa.

 

Referências sugeridas

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). “One Health Basics.” Disponível em: <https://www.cdc.gov/onehealth/basics/index.html>. Acesso em 30 de maio de 2026.

Food and Agriculture Organization (FAO), World Organisation for Animal Health (WOAH), World Health Organization (WHO). “Tripartite and UNEP support: One Health definition.” 2021. Disponível em: <https://www.who.int/news/item/01-12-2021-tripartite-and-unep-support-ohhlep-s-definition-of-one-health>. Acesso em 30 de maio de 2026.

Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Uma Só Saúde: a abordagem integrada para enfrentar desafios globais de saúde e meio ambiente. Disponível em: <https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/junho/uma-so-saude-abordagem-integrada-para-enfrentar-desafios-globais-de-saude-e-meio-ambiente>. Acesso em 15 de junho de 2026.

MACKENZIE, J. S. ; JEGGO, M. “The One Health approach – Why is it so important?” Tropical Medicine and Infectious Disease, v. 4, n. 2, p. 88, 2019. Doi: 10.3390/tropicalmed4020088.

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Una sola salud. Disponível em: <https://www.paho.org/es/una-sola-salud>. Acesso em 15 de junho de 2026.

ZINSSTAG, J. ; SCHELLING, E. ; WALTNER-TOEWS, D. ; TANNER, M. From “one medicine” to “one health” and systemic approaches to health and well-being. Preventive Veterinary Medicine, v. 101, n. 3-4, p. 148-156, 2011. Doi: 10.1016/j.prevetmed.2010.07.003.