Menu

Clinica Veterinária

Início Entrevistas 1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais promovido pelo CFMV
CFMV

1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais promovido pelo CFMV

Matéria escrita por:

Clínica Veterinária

27 de maio de 2026


O avanço de bactérias resistentes aos antimicrobianos já representa um dos maiores desafios da saúde pública mundial e o debate sobre o uso responsável desses medicamentos também passa, cada vez mais, pela medicina veterinária. Para ampliar essa discussão e fortalecer estratégias de enfrentamento na prática clínica, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), por meio da Revista CFMV, promoverá no dia 12 de junho o 1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais.

O evento será realizado de forma on-line, das 8:30 às 17 horas, com transmissão pelo YouTube do CFMV (@CFMVoficial), e integra as ações comemorativas pelos 30 anos da Revista. As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas no site do CFMV.

A programação reunirá representantes do poder público, entidades da medicina veterinária e profissionais da área para discutir os impactos da resistência aos antimicrobianos (RAM) na clínica de pequenos animais, dentro da abordagem de Saúde Única, que integra saúde animal, humana e ambiental.

Entre os destaques do seminário está a palestra magna “Panorama atual da resistência aos antimicrobianos na clínica de pequenos animais nos centros de terapia intensiva”, ministrada pela médica-veterinária Camila Molina, da BVECCS, abordando os desafios enfrentados em ambientes críticos da medicina veterinária.

Outro momento central da programação será o painel intersetorial “Estratégias intersetoriais pela RAM: o papel da clínica de pequenos aAnimais no Plano de Ação Nacional contra a RAM (PAN-BR)”, que contará com representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Ministério da Saúde (MS), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Câmara Pet/Mapa, Associação Nacional dos Médicos-Veterinários (ANMV) e do CFMV.

O seminário também contemplará palestras técnicas voltadas à caracterização de bactérias resistentes aos antimicrobianos e discussões sobre os desafios da resistência antimicrobiana em áreas como gastroenterologia, nefrologia e dermatologia veterinária, especialidades diretamente impactadas pelo aumento de bactérias multirresistentes na rotina clínica.

Além de discutir aspectos técnicos e científicos, o evento busca fortalecer o debate sobre vigilância, prevenção, uso racional de antimicrobianos e atuação integrada entre diferentes setores, pontos considerados fundamentais para conter o avanço da resistência antimicrobiana.

A iniciativa reforça o papel estratégico da medicina veterinária na promoção da saúde pública, na saúde e bem-estar animal e no enfrentamento de desafios sanitários.

Entrevistamos as médicas-veterinárias Francisca Neide Costa (FC) – CRMV-MA: 539 –, Mitika Kuribayashi Hagiwara (MH) – CRMV-SP: 521 – e Luciana Sartori (LS) – CRMV-SP: 46.172.

­

Da esquerda para a direita, Francisca Neide Costa, Mitika Kuribayashi Hagiwara e Luciana Sartori

 

­

Revista Clínica Veterinária (CV) – O que motivou a organização deste I Seminário e por que debater a resistência antimicrobiana (RAM) especificamente na clínica de pequenos animais?

(FC, MH e LS) – A principal motivação é a velocidade com que os organismos multirresistentes surgem na rotina de cães e gatos, mas também a urgência de preencher um vazio regulatório. No Brasil, até o momento, não há nenhum órgão público que assuma a responsabilidade por estabelecer políticas, normas ou fiscalização específicas para a RAM na clínica de pequenos animais. O setor está em uma espécie de ‘limbo’ institucional. Diante dessa ausência, o CFMV toma a frente para liderar essa discussão. Precisamos debater o tema urgentemente porque os pets utilizam antimicrobianos de importância crítica para a medicina humana e precisamos padronizar condutas antes que as opções terapêuticas se esgotem.

 

CV – Na prática diária do médico-veterinário de cães e gatos, quais são os maiores desafios para o uso consciente de antibióticos?

FC, MH e LS – Os desafios são diários, vão desde a pressão dos responsáveis pelos animais por uma melhora rápida até a prática da automedicação em casa. Além disso, a não utilização de uma ferramenta muito importante na prática clínica e que faz toda a diferença quando da prescrição de um antimicrobiano, como a realização de exames de cultura e antibiograma, muitas vezes por limitações financeiras do cliente, leva à prescrição desnecessária ou inadequada, o que aumenta a pressão seletiva sobre os microrganismos.

 

CV – Como os temas que serão abordados no seminário podem ajudar o clínico a tomar decisões terapêuticas mais seguras e eficazes?

FC, MH e LS – No seminário a ciência será traduzida em ferramentas práticas. Discutiremos protocolos baseados em evidências, critérios rigorosos para a escolha do antimicrobiano correto, dosagem e tempo de tratamento adequados. O objetivo é fazer com que o clínico saia do evento sabendo como proteger seu paciente e, ao mesmo tempo, preservar a eficácia dos fármacos.

 

CV – Qual é a importância do uso indiscriminado de antimicrobianos e da resistência a antibacterianos em animais domésticos e de produção?

FC, MH e LS – A RAM tornou-se na atualidade um verdadeiro desafio global para a Saúde Única. O uso indiscriminado de antimicrobianos na produção animal e no tratamento de doenças animais e humanas ao longo do tempo resultou na adaptação dos microrganismos com o surgimento de genes de resistência o que os torna capazes de subsistirem longamente no organismo hospedeiro e no meio ambiente, causando danos imensuráveis. É uma das maiores ameaças à Saude Pública Global tratada sob a abordagem de Saúde Única que conecta a saúde humana, a animal e a ambiental. O Ministério da Agricultura do Governo Brasileiro gerencia o PAN-BR Agro, um Plano de Ação focada na agropecuária que estabelece o uso responsável e prudente de medicamentos veterinários.

As ações contempladas no PAN-BR Agro não alcançam, inicialmente, a clínica de pequenos animais, por estarem focadas nos animais de produção, deixando de lado os animais de companhia. Apesar do alto interesse e da demanda, não existem ações coordenadas nem políticas públicas envolvendo esse segmento da medicina veterinária, o que se faz urgente e necessário, dada a estreita ligação entre os seres humanos e seus animais.

Na clínica de pequenos animais, a resistência aos antimicrobianos (RAM) em cães e gatos deixou de ser uma preocupação distante e vem se tornando um desafio crítico e diário na rotina dos veterinários. O cenário atual envolve sérios riscos terapêuticos e o reconhecimento de que os animais de estimação atuam como importantes reservatórios e transmissores de superbactérias e de outros microrganismos no ambiente domiciliar.

Os laboratórios de microbiologia veterinária no Brasil apontam uma alta prevalência de bactérias multirresistentes (MDR) em amostras clínicas de pets:

• Staphylococcus (especialmente S. pseudintermedius e S. aureus): São os patógenos mais isolados em infecções de pele (piodermites) e otites. As cepas resistentes à meticilina (MRSP e MRSA) são de tratamento extremamente complexo e limitam o uso de betalactâmicos.

• Escherichia coli e outras enterobactérias: Muito comuns em infecções do trato urinário (ITU) e gastrintestinais. Tem se observado um aumento alarmante de cepas produtoras de ESBL (Betalactamases de espectro estendido), que são resistentes às cefalosporinas de terceira geração.

Pseudomonas aeruginosa: Comumente isolada em otites crônicas e profundas, apresentam resistência natural a diversos fármacos e alta capacidade de formar biofilmes, que bloqueiam a ação dos colírios e soluções otológicas convencionais.

 

CV – Pensando no conceito Saúde Única (One Health), qual é a real responsabilidade do clínico de pequenos animais no cenário global da resistência bacteriana?

FC, MH e LS – O médico-veterinário de pequenos animais atua diretamente na intersecção entre a saúde animal e humana, já que esses pets compartilham o mesmo ambiente e estreito contato físico com as famílias. Estudos genéticos comprovam que bactérias resistentes (e seus genes de resistência) transitam de forma bidirecional entre seres humanos e seus animais. Uma bactéria que ganha resistência no animal pode ser transmitida para o responsável e vice-versa. Nessas condições, os animais de companhia são considerados reservatórios silenciosos de genes de resistência ambiental. Controlar a RAM na clínica de pequenos animais é conter a disseminação de genes de resistência no ambiente doméstico, salvando vidas humanas e animais. O combate a RAM exige uma ação coordenada de todos os protagonistas envolvidos, incluindo os médicos-veterinários clínicos que atuam direta ou indiretamente na preservação de saúde dos animais de companhia. Dentre as ações que clínicos e responsáveis pelos animais de companhia devam aderir, podemos citar:

Diagnóstico assertivo: Exigência de exames de cultura e teste de suscetibilidade aos antimicrobianos (TSA) antes de eleger terapias de longo prazo.

Uso de antibióticos críticos: Restrição estrita de uso de antibióticos de “última escolha” da medicina humana (como carbapenêmicos ou vancomicina) na rotina veterinária, preservando-os para a saúde humana.

A sábia postura e conduta profissional de reconhecer aqueles casos em que a própria natureza do processo mórbido segue seu curso natural, bastando dar suporte ao animal sem o uso desnecessário de antimicrobianos. Como exemplo, certos casos de diarréias agudas em que a súbita modificação da alimentação ou do ambiente intraluminal ocasionam o surgimento de disbiose momentânea e passageira, ou diarréias osmóticas.

Foco em tratamentos tópicos: Substituição de tratamentos sistêmicos por terapias tópicas (shampoos, pomadas e soluções) em casos de infecções dermatológicas superficiais, reduzindo a pressão de seleção bacteriana no organismo como um todo.

 

CV – Quais as principais causas da aceleração da RAM nos animais de companhia?

FC, MH e LS – O avanço da resistência em clínicas veterinárias é impulsionado por fatores comportamentais e estruturais como:

Uso empírico generalizado: A prescrição de antibióticos baseada apenas em “tentativa e erro”, sem a realização prévia de cultura e antibiograma, mascara o perfil de resistência local.

Prescrição de fármacos humanos: É frequente a utilização de antimicrobianos da medicina humana em animais de companhia devido à falta de opções comerciais puramente veterinárias para certas moléculas ou por questões de custo.

Erros de manejo por parte dos responsáveis: A interrupção precoce do tratamento (assim que o animal melhora os sintomas), a alteração de doses por conta própria ou a administração de restos de medicamentos guardados em casa.

 

CV – Quais os maiores riscos do uso de antimicrobianos em animais de companhia e de que forma a discussão no seminário a respeito da RAM com os órgãos envolvidos pode contribuir no uso racional desses fármacos?

FC, MH e LS – O uso de antimicrobianos em animais de companhia (como cães e gatos) cresceu significativamente nos últimos anos, trazendo para a clínica de pequenos animais um desafio global que antes era muito focado na pecuária e na produção de alimentos. O cenário atual é complexo e envolve riscos sanitários graves, potencializados por uma lacuna regulatória. Os riscos não se limitam à saúde do paciente, eles têm impacto direto na saúde pública e ambiental, consolidando-se como um problema central dentro da abordagem de Saúde Única (One Health). Destaco os principais riscos e como o debate estratégico nesse seminário poderá mudar esse panorama.

Seleção de bactérias multirresistentes (Superbactérias): O uso indiscriminado, em subdoses ou por tempo inadequado, elimina as bactérias sensíveis e seleciona as resistentes. Cepas de Escherichia coli, Staphylococcus pseudintermedius (MRSP) e Enterococcus spp. resistentes a fármacos de última escolha já são realidades na rotina clínica.

Proximidade e transmissão interespécies: Diferente dos animais de produção, os animais de companhia compartilham o mesmo teto, a cama e o convívio físico íntimo com os responsáveis. Isso gera uma via de mão dupla perfeita para a transmissão horizontal de genes de resistência e de bactérias resistentes entre pets e humanos.

Uso de fármacos críticos da medicina humana: Devido à escassez de antimicrobianos exclusivamente veterinários desenvolvidos para pequenos animais, a rotina clínica frequentemente recorre a princípios ativos de importância crítica para a medicina humana (como cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações e fluoroquinolonas), reduzindo as opções terapêuticas para os humanos.

Prescrição empírica e falta de diagnóstico: A cultura e o antibiograma ainda enfrentam resistência por parte dos responsáveis pelos animais (pelo custo) ou por pressa na rotina clínica. Tratar infecções “às cegas” aumenta a taxa de erro terapêutico e a pressão seletiva sobre a microbiota do animal.

 

CV – No seu entender, qual é a importância do Iº Seminário sobre RAM na clínica de pequenos animais?

FC, MH e LS – Pela primeira vez no Brasil, haverá um debate unificado e articulado entre médicos-veterinários, pesquisadores, o Sistema CFMV/CRMVs, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Anvisa, a Câmara de Animais de Estimação do MAPA e a Associação Nacional de Médicos-Veterinários. Acredito que esse debate com todas essas autoridades irá guiar o setor em quatro pilares:

Preenchimento de um vazio normativo: Definir e pactuar qual órgão público assumirá a responsabilidade pelas políticas e fiscalização da RAM em pequenos animais.

Definição de diretrizes oficiais: Criar guias nacionais de prescrição que organizem os antimicrobianos por linhas de escolha (uso comum vs. uso restrito).

Controle de venda eficaz: Discutir mecanismos para rastrear e coibir a venda indiscriminada ou a automedicação por parte dos responsáveis pelos animais.

Criação de redes de monitoramento: Integrar laboratórios privados e universitários para mapear o real perfil de resistência bacteriana no país.

Enquanto as diretrizes não se tornam políticas públicas obrigatórias, cabe ao médico-veterinário a defesa da Saúde Única na ponta do atendimento, priorizando o diagnóstico laboratorial e conscientizando os responsáveis pelos animais sobre os riscos do uso indiscriminado.

 

1º Seminário sobre Resistência aos Antimicrobianos na Clínica de Pequenos Animais
Data: 12 de junho de 2026
Horário: das 8h30 às 17h
Formato: on-line
Transmissão: YouTube do CFMV (@CFMVoficial)

Inscrições: https://www.sympla.com.br/evento-online/i-seminario-sobre-resistencia-aos-antimicrobianos-na-clinica-de-pequenos-animais-do-cfmv/3432584?algoliaID=632bd60f40ec4b00e3f799927075a53a