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Lesões mecânicas em traumatologia forense médico-veterinária

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Introdução

A Medicina Veterinária Legal consiste na aplicação de conhecimentos específicos da medicina veterinária para o esclarecimento de questões judiciais, a formulação de normas e o auxílio ao Direito e à Justiça1. Essa disciplina se vale de conhecimentos adaptados da medicina legal humana, ajustados para o exame pericial em animais.

A traumatologia forense, ou lesonologia médico-legal, dedica-se ao estudo aprofundado das lesões e dos estados patológicos, sejam eles imediatos ou tardios, resultantes da ação de diversas formas de violência sobre o corpo. Este campo abrange não apenas o diagnóstico e prognóstico dessas lesões, mas também suas intrínsecas implicações legais e socioeconômicas 2. Tais conceitos podem ser adaptados ao campo da medicina veterinária legal, para o esclarecimento de crimes contra animais. Nesse contexto, a traumatologia forense médico-veterinária emerge como uma metodologia fundamental para a elucidação de casos de crueldade, abuso e maus-tratos a animais 3.

As lesões podem ser causadas por uma variedade de energias, classificadas em mecânicas, físicas, químicas, físico-químicas, bioquímicas, biodinâmicas e mistas 2. Dentre estas, as energias de ordem mecânica são as mais prevalentes e complexas, sendo o foco deste texto. A compreensão da interação entre o agente vulnerante e o corpo animal é crucial para a elucidação da dinâmica do trauma e suas consequências médico-legais veterinárias.

 

Agente vulnerante e mecanismo de produção da lesão

O agente vulnerante é qualquer instrumento ou meio capaz de provocar lesão. Esses agentes podem abranger desde armas propriamente ditas (punhais, revólveres) e armas eventuais (facas, machados) até armas naturais (punhos, patas, bicos, chifres) e meios diversos (máquinas agrícolas, veículos automotores, quedas de altura, armadilhas) 2. A identificação precisa do agente vulnerante é um passo crítico na investigação forense veterinária, pois permite inferir a natureza do evento traumático e, consequentemente, auxiliar na determinação da responsabilidade 4.

Os mecanismos de ação pelos quais esses agentes atuam são variados e incluem pressão, percussão, tração, torção, compressão, descompressão, explosão, deslizamento e contrachoque 2. A forma como o agente vulnerante interage com o corpo animal determina o tipo e a morfologia da lesão. O modo de ação pode ser ativo, passivo ou misto. A ação é ativa quando o agente vulnerante está em movimento e atinge um corpo parado (por exemplo, um animal sendo atingido por um objeto em movimento ou atropelamento de um animal parado). É passiva quando o corpo está em movimento e colide com um agente vulnerante imóvel (por exemplo, um animal caindo de uma altura e impactando o solo ou uma estrutura fixa). Por fim, a ação é mista (biconvergente ou biativa) quando tanto o corpo quanto o agente vulnerante estão em movimento e colidem (por exemplo, dois animais colidindo em alta velocidade ou um animal sendo arremessado contra um objeto em movimento) 2.

 

Classificação morfológica das lesões mecânicas e divergências terminológicas

A classificação das lesões mecânicas é um pilar da traumatologia forense veterinária, permitindo a padronização da descrição e análise dos traumas em animais, inclusive para diferenciação de traumas não acidentais 5. A literatura médico-legal adota predominantemente uma categorização baseada na morfologia da lesão, ou seja, na aparência e estrutura resultantes da ação do agente vulnerante 2. Essa abordagem é amplamente aceita por diversos autores clássicos e contemporâneos, oferecendo uma base mais intuitiva para a descrição pericial em casos de maus-tratos ou acidentes envolvendo animais 3,5. Contudo, existem divergências terminológicas que merecem discussão crítica.

As lesões mecânicas são classificadas, de acordo com suas características morfológicas, em punctórias, incisas, contusas, perfuroincisas, perfurocontusas e cortocontusas 5,6,7. Cada categoria possui um mecanismo físico distinto e produz características morfológicas específicas, que são essenciais para a interpretação forense médico-veterinária.

É fundamental diferenciar termos como ferida, escoriação, equimose, hematoma, laceração e incisão. Uma ferida é uma solução de continuidade da pele que atinge a derme. A escoriação refere-se ao arrancamento superficial da epiderme, com cicatrização por reepitelização e sem deixar cicatriz permanente (restitutio ad integrum) 2. A equimose é uma infiltração hemorrágica nos tecidos 2. O hematoma, por sua vez, é uma coleção sanguínea em uma cavidade neoformada nos tecidos, geralmente palpável e com sensação de flutuação 2. A bossa sanguínea é um tipo de hematoma que se forma sobre um plano ósseo, popularmente conhecido como “galo” 2. O termo incisão é frequentemente utilizado para feridas cirúrgicas, com bordas regulares e profundidade uniforme, sendo sinônimo de ferida incisa quando produzida por agentes cortantes 4. O termo laceração é genérico para rasgamento de tecidos por tração ou compressão extrema, mas argumenta-se que não existem instrumentos “dilacerantes” per se, mas sim que a dilaceração é uma consequência de outros mecanismos de trauma 2.

 

Classificação das lesões mecânicas: quadro comparativo

Apresenta-se um quadro comparativo detalhado (Figura 1) das lesões mecânicas, seus agentes vulnerantes, mecanismos físicos, características morfológicas e exemplos práticos, conforme a classificação morfológica amplamente aceita na literatura médico-legal 2,5,6,7,8.

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Tipo de ferida Agente vulnerante Mecanismo físico Características morfológicas Exemplos práticos
Punctória Instrumentos perfurantes (ponta afilada) Pressão e percussão em um ponto, afastando as fibras teciduais Orifício pequeno, circular ou fusiforme, profundidade maior que a superfície, pouco sangramento externo Mordida de serpente (presas), picada de inseto, agulha, estilete, prego, furador de gelo
Incisa Instrumentos cortantes (gume afiado) Deslizamento e secção linear dos tecidos Bordas regulares e lisas, presença de “cauda de escoriação” (extremidade mais superficial), sangramento geralmente abundante, comprimento predominante sobre a profundidade, afastamento das bordas Navalha, bisturi, lâmina de barbear, faca (gume), linha com cerol
Contusa Instrumentos contundentes (superfície romba), ou meios como quedas,
socos
Pressão, percussão, compressão, deslizamento, tração, torção, contragolpe Bordas irregulares, escoriadas e equimosadas, fundo irregular, pontes de tecido íntegro, pouco sangrante, ângulos obtusos Martelo, soco, chute, coice, queda de altura, atropelamento, mordida de animal (sem perfuração), impacto contra objetos fixos
Perfuroincisa Instrumentos perfurocortantes (ponta e gume) Perfuração (ponta) e corte (gume) simultâneos Feridas com características mistas: orifício de entrada com formato de botoeira (um gume) ou fenda (dois gumes), com um ou dois ângulos agudos. Profundidade variável, dependendo da penetração e movimento do instrumento Faca-peixeira, punhal, adaga, canivete, espada
Perfurocontusa

Instrumentos perfurocontundentes (ponta romba ou projéteis)

Perfuração e contusão simultâneas Orifício de entrada de projétil de arma de fogo (geralmente arredondado ou elíptico, com orla de escoriação, halo de enxugo, zona de tatuagem e esfumaçamento dependendo da distância do tiro), trajeto (caminho do projétil), orifício de saída (irregular, bordas evertidas, maior sangramento, sem orla de escoriação ou halo de enxugo) Projétil de arma de fogo
Cortocontusa Instrumentos cortocontundentes (gume e peso considerável) Corte (gume) e contusão (peso/impacto) Lesões com características de corte e contusão: bordas escoriadas/equimosadas, profundidade considerável, ausência de cauda de escoriação típica de feridas incisas puras, grande poder de dano Machado, foice, facão, cutelo
Figura 1 – Comparação das lesões mecânicas, agentes vulnerantes, mecanismos físicos, características morfológicas e exemplos práticos­

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Classificações alternativas e considerações

Além da classificação morfológica amplamente aceita, oriunda da escola clássico-mecanicista da medicina legal brasileira, existem outras abordagens ou termos específicos que, embora menos comuns, podem ser encontrados na literatura ou em contextos particulares. Uma obra, embora preserve a distinção clássica entre instrumento e lesão, em alguns momentos aceita nomenclatura menos rigorosa, especialmente quando o foco é o mecanismo (e.g., ferida cortante) 2. O termo laceração, por exemplo, é utilizado para descrever o rasgamento de tecidos por tração ou compressão extrema 2, comum em acidentes com veículos ou em brigas entre animais. Outros conceitos incluem o encravamento, que se refere à penetração de um objeto consistente em qualquer parte do corpo, e o empalamento, um tipo específico de encravamento de objeto consistente no ânus ou na região perineal 2. Ambos podem ocorrer em animais acidentalmente, como em quedas sobre estacas ou objetos pontiagudos, ou por ação intencional e maliciosa.

Na descrição de lesões por instrumentos cortantes, termos como esgorjamento (ferida incisa na região anterior/ventral do pescoço), degolamento (ferida incisa na região posterior/dorsal do pescoço) e decapitação (ato de separar completamente a cabeça do corpo) são utilizados para especificar a localização e a gravidade do trauma 2,6. Em medicina veterinária legal são frequentemente observados em casos de sacrifício ritualístico ou abate clandestino de animais.

A literatura também descreve diversos sinais que auxiliam na interpretação do trauma, como o sinal de Werkgaertner (marca da boca do cano de arma de fogo na pele em tiros encostados), o sinal de Benassi (halo fuliginoso na lâmina externa do osso em tiros encostados), o sinal de Strassmann (fratura em saca-bocado por martelo) e o sinal do mapa-múndi de Carrara (fratura craniana com fissuras em forma de arcos e meridianos) 2. Tais sinais não são classificações de lesões, mas sim achados que complementam a análise das lesões contusas e perfurocontusas 9, sendo aplicáveis também na avaliação de traumas em animais.

 

Considerações finais

A traumatologia forense médico-veterinária, ao se debruçar sobre a análise das lesões mecânicas em animais, desempenha um papel insubstituível na elucidação de eventos traumáticos e na responsabilização em casos de maus-tratos. A adoção de uma nomenclatura de classificação morfológica padronizada é fundamental para a clareza e a reprodutibilidade das perícias. Essa uniformidade terminológica não apenas facilita a comunicação entre os profissionais da área, mas também fortalece a base probatória em processos judiciais.

O conhecimento desses termos e conceitos menos usuais é valioso para o pesquisador forense e para o perito, pois podem oferecer nuances importantes na interpretação de casos complexos ou atípicos, especialmente quando a dinâmica do trauma não se encaixa perfeitamente nas categorias tradicionais. A contínua pesquisa e o aprimoramento das metodologias de análise de lesões são, portanto, imperativos para o avanço da medicina veterinária legal e para a garantia da justiça em casos envolvendo animais.

 

Referências

1-TOSTES, R. A. ; REIS, S. T. J. História da medicina legal – parte II. In: TOSTES, R. A. ; REIS, S. T. J. ; CASTILHO, V. V. Tratado de medicina veterinária legal. Curitiba: Medvep; 2017.

2-FRANÇA, G.V. Medicina legal. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017.

3-TREMORI, T. M. ; RIBAS, L. M. ; MASSAD, M. R. R. ; REIS, S. T. J. ; PINTO, A. C. F. ; ROCHA, N. S. Classificação comparada das lesões de ordem mecânica segundo a traumatologia forense no exame de corpo de delito em animais. Revista Brasileira Criminalística, v. 7, n. 2, p. 24-31, 2018.

4-CALABUIG, G. Medicina legal y toxicología. 6. ed. Barcelona: Masson; 2004.

5-BRADLEY-SIEMENS, N. Traumas não acidentais. In: TOSTES, R. A. ; REIS, S. T. J. ; CASTILHO, V. V. Tratado de medicina veterinária legal – volume II. Curitiba: Medvep; 2024.

6-CROCE, G. ; CROCE, JR. D. Manual de medicina legal. 8. ed. São Paulo: Saraiva; 2012.

7-ARBENZ, G.O. Medicina legal e antropologia forense. Rio de Janeiro: Atheneu; 1988.

8-SABES, A. F. ; GIRARDI, A. M. ; VASCONCELOS, R. O. Traumatologia forense – revisão de literatura. Nucleus Animalium, v. 8, n. 1, 2016.

9-TOCHETTO, D. Balística forense: aspectos técnicos e jurídicos. 3. ed. Campinas: Millennium Editora; 2003.