IBGE realiza a primeira pesquisa amostral da população de cães e gatos do Brasil
Animais de companhia são finalmente reconhecidos como parte da família brasileira
No dia 2 de junho de 2015, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou os resultados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada no ano de 2013. Pela primeira vez na história do Brasil, o questionário de inquérito de saúde continha perguntas sobre animais de companhia (Figura 1). Com base nessa pesquisa, foi possível estimar a proporção de animais de companhia nas áreas urbanas e rurais, por estados e regiões, e ainda dos que foram vacinados no último ano contra raiva.

A pesquisa não foi um censo integral, como em 2010, mas realizada de forma amostral por setores censitários e domicílios escolhidos aleatoriamente, com moradores de perfil desejado – homens ou mulheres e faixa etária adequada –, pois foram analisadas também algumas doenças crônicas e suas distribuições. Na primeira visita, os domicílios foram escolhidos e agendou-se com os moradores um horário de visita para a aplicação do questionário e a coleta das medidas de circunferência e do peso dos moradores – que em um terceiro momento foram encaminhados para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para a coleta de sangue e urina destinados a exames posteriores.
O número de domicílios que tinham pelo menos um cão foi de 44,3%, e o dos que possuíam pelo menos um gato foi de 17,7%, extrapolado para todo o território nacional. Não causa surpresa que o Brasil tenha um segundo maior mercado pet do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos. Em 2013, mesmo ano da realização da pesquisa, o faturamento do setor foi de 18,7 bilhões de reais, somando toda a sua cadeia produtiva, incluindo alimentação (pet food) – área de maior relevância do setor –, medicamentos veterinários ( pet vet), criadouros de diversas espécies, serviços (pet serv), hotéis, creches e cuidados (pet care), equipamentos, acessórios, produtos de higiene e beleza animal (Mapa/2014).
A maior proporção de domicílios com algum cão foi a das áreas rurais (65%), quando comparadas com as áreas urbanas (41%); o mesmo perfil foi observado para os gatos nas áreas rurais (39,4%) e urbanas (14,2%). Como não se obteve acesso aos dados originais da pesquisa até o fechamento desta edição, não foi possível verificar a significância estatística dos dados. No entanto, especula-se que essa diferença pode ser resultado da dificuldade de realizar campanhas de controle populacional nessas localidades rurais, não apenas pelo difícil acesso, como pela menor (ou ausente) fiscalização, ou ainda por resistência cultural.
Dentre as regiões, a maior proporção de domicílios com cães (58,6%) foi na Região Sul, e a menor (36,4%) na Região Nordeste; e a maior proporção de domicílios com gatos (23,6%) foi na Região Nordeste, e a menor (13,5%), Região Sudeste (Figura 2). Dentre os estados brasileiros, a maior proporção de domicílios com cães (60,1%) foi no Paraná, e a menor (33,1%), em Pernambuco; a maior presença de domicílios com gatos (43,2%) foi no Piauí, e a menor (6,9%), no Distrito Federal (Figura 3).
| Região | Proporção de casas com cães (%) | Proporção de casas com gatos (%) |
| Sudeste | 42,4 | 13,5 |
| Nordeste | 36,4 | 23,6 |
| Sul | 58,6 | 19 |
| Norte | 48 | 22,7 |
| Centro-Oeste | 49,8 | 14,3 |
Figura 2 – Proporção de casas com ao menos um cão ou um gato, distribuídas por cada uma das regiões brasileiras
| Ranking | Cães | Casas (%) | Ranking | Gatos | Casas (%) |
| 1º | Paraná | 60,1 | 1º | Piauí | 34,2 |
| 2º | Rio Grande do Sul | 59,2 | 2º | Maranhão | 31 |
| 3º | Rondônia | 56,2 | 3º | Ceará | 28 |
| 4º | Mato Grosso | 56,2 | 4º | Rondônia | 27,4 |
| 5º | Acre | 55,9 | 5º | Acre | 24,5 |
| 6º | Santa Catarina | 55,3 | 6º | Roraima | 24,5 |
| 7º | Mato Grosso do Sul | 54,9 | 7º | Tocantins | 23,6 |
| 8º | Roraima | 53,9 | 8º | Pará | 23 |
| 9º | Goiás | 52,1 | 9º | Amapá | 22,9 |
| 10º | Pará | 48,8 | 10º | Rio Grande do Sul | 22,8 |
| 11º | Piauí | 47,1 | 11º | Alagoas | 22,3 |
| 12º | Minas Gerais | 46,7 | 12º | Bahia | 21,3 |
| 13º | Amapá | 44,3 | 13º | Paraíba | 21,1 |
| 14º | São Paulo | 43,4 | 14º | Mato Grosso do Sul | 20,1 |
| 15º | Amazonas | 43,1 | 15º | Sergipe | 19,9 |
| 16º | Maranhão | 42,6 | 16º | Mato Grosso | 19,7 |
| 17º | Tocantins | 40,7 | 17º | Rio Grande do Norte | 19 |
| 18º | Espírito Santo | 38,4 | 18º | Pernambuco | 18,8 |
| 19º | Rio Grande do Norte | 36,8 | 19º | Amazonas | 18,3 |
| 20º | Paraíba | 36,2 | 20º | Paraná | 16,4 |
| 21º | Rio de Janeiro | 35,7 | 21º | Santa Catarina | 16,3 |
| 22º | Bahia | 35,5 | 22º | Minas Gerais | 14,6 |
| 23º | Ceará | 35,2 | 23º | São Paulo | 13,4 |
| 24º | Sergipe | 34,9 | 24º | Rio de Janeiro | 12,6 |
| 25º | Alagoas | 33,3 | 25º | Goiás | 12,5 |
| 26º | Pernambuco | 33,1 | 26º | Espírito Santo | 11,1 |
| 27º | Distrito Federal | 32,3 | 27º | Distrito Federal | 6,9 |
Figura 3 – Ranking dos estados brasileiros que têm mais domicílios com cães e com gatos
O número total de cães e gatos foi extrapolado pela amostragem, com um total brasileiro de 52,2 milhões de cães e 22,1 milhões de gatos distribuídos pelos 27 estados brasileiros (Figura 4). Como o censo amostral extrapolado foi apenas de cães e gatos domiciliados, e alguns deles (comunitários) são tratados por mantenedores em comércio ou locais públicos.

A vacinação antirrábica também foi objeto de questionamento no estudo. O estado brasileiro que apresentou a maior proporção (85,5%) de domicílios com cães e/ou gatos vacinados contra a raiva nos últimos doze meses foi São Paulo, e a menor proporção (54,1%) foi Roraima.
É difícil entender o motivo de o próprio IBGE não ter realizado esse censo de animais de companhia junto com o censo geral de 2010, uma vez que, nos últimos trinta anos, três em cada quatro doenças emergentes foram zoonoses. Aliás, das 1.461 doenças infecciosas atualmente reconhecidas em seres humanos, aproximadamente 60% são causadas por patógenos de múltiplos hospedeiros, caracterizados por seu movimento através do limite de espécies ¹.
As estimativas populacionais de animais de companhia no Brasil sempre foram falhas e imprecisas, impactando negativamente as ações do Ministério da Saúde, como vacinações contra a raiva e manejo populacional. Enquanto a Organização Mundial de Saúde estimava uma proporção de pessoa: cão de 10:1 nos países desenvolvidos e 7:1 em países em desenvolvimento, como o Brasil, censos por amostragem realizados em diversas regiões brasileiras mostrava uma média aproximada de 4:1, muito maior que as estimativas globais.
Estimando a população humana brasileira em 2013 (ano da realização da pesquisa amostral) em 201,032 milhões de habitantes e dividindo-a pelo resultado amostral extrapolado pelo IBGE de 52,200 milhões de cães, temos uma proporção estimada de 3,85:1, ou seja, muito próxima do 4:1 que os estudos científicos mostravam. No entanto, a proporção cão : gato (2,36:1) observada no estudo amostral do IBGE revela muito mais gatos do que os estudos amostrais de Curitiba, onde a proporção cães : gato em casas (6,82:1) e apartamento (6,61:1) é quase idêntica – aproximadamente sete cães para cada gato ².
Os cães e gatos são importantes sentinelas de doenças, pois a saúde deles reflete a exposição a que estão sujeitos seus donos, bem como os riscos de doenças que correm. Os animais de companhia são sentinelas efetivas, pois compartilham o mesmo ambiente que seus proprietários; nesse contato íntimo com membros da família humana, eles frequentemente comem a mesma comida, tomam a mesma água, compartilham camas e servem como companhia de viagem, o que faz com que o risco de doenças seja muito similar para os animais e seus donos. Desse modo, a saúde dos cães e/ou gatos é um espelho da saúde de seus donos, ou do risco de doenças a que estão sujeitos ³.
Cães e gatos são hoje parte integrante da família brasileira. Essas populações de entes familiares “não humanos” vêm crescendo no mundo todo, muito embora seu monitoramento se baseie ainda hoje apenas em estimativas da população humana ou ainda em pesquisas amostrais como essa feita pelo IBGE.
A dinâmica das populações de animais de companhia nas próximas décadas e séculos pode ser crucial para a melhora da qualidade de vida e da saúde da família. A medicina veterinária do coletivo deve atuar na análise dessas populações e de suas características, de modo a oferecer subsídios para a saúde e o bem-estar únicos, ou seja, para os entes humanos e não humanos da família brasileira.
Referências
1- KING, J. L. ; ANDERSON, L. R.; BLACKMORE. C. G. ; MICHAEL J.BLACKWELL, M. J.; LAUTNER, E. A. ; MARCUS, L.C. ; MEYER, T. E. ; MONATH, T. P. ; NAVE, J. E. ; OHLE, J. ; PAPPAIOANOU, M. ; SOBOTA, J. ; STOKES, W. S. ; DAVIS, R. M. ; GLASSER, J. H. ; MAHR, R. K. Executive summary of the AVMA one health iniatiative task force report. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 233, n. 2, 2008.
2- BIONDO, A. W. ; MARTINS, C. M. ; FERREIRA, F. Dog:cat population ration in interestingly similar in houses and apartments of Southem Brazil. Preventive Veterinary Medical, v. 114, p. 285, 2014.
3- SCHMIDT, P. L. Companion animal as sentinels for public health. Veterinary Clinics of North America Small Animal Practice, v. 39, n. 2, p. 241-50, 2009
Na internet
http://www.ibge.gov.br/home/estatística/populacao/pns/2013_vol2/default_xsl.shtm.
http://biblioteca.obge.gov.br/vizualizacao/livros/liv97074.pdf.


