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Como aumentar a expectativa de vida em cães e gatos nefropatas crônicos?

Informativo técnico

Matéria escrita por:

Christiane Seraphim Prosser

23 de set de 2015


A doença renal crônica (DRC) torna-se evidente quando há limitações na capacidade compensatória do organismo em manter a homeostasia do organismo na eliminação de resíduos, no equilíbrio hidroeletrolítico e ácidobásico, e na síntese e degradação de hormônios endócrinos. Dentre as doenças crônicas, a DRC é a 2ª causa mais comum de morte em gatos e a 3ª em cães. Seu diagnóstico é realizado, basicamente, considerando valores de creatina e densidade urinária, e é considerado tardio. Porém, pesquisas têm sido realizadas para que marcadores mais precoces sejam desenvolvidos, como o SDMA (dimetilarginina assimétrica), por exemplo. Nos últimos anos principalmente por incentivo da Sociedade Internacional de Interesse Renal – IRIS, uma classificação entre quatro estágios de DRC foi proposta e considerada a presença de azotemia (mensuração da creatinina sérica), de proteinúria e de hipertensão arterial sistẽmica.

Modificações na alimentação do paciente com DRC são necessárias e promovem a melhora da qualidade de vida e o aumento da expectativa de vida do animal. Contudo, antes de discutir tais modificações, cabe ressaltar a importância em assegurar a palatabilidade da dieta.

O termo “palatabilidade” é frequentemente relacionado somente ao sabor do alimento, porém, ele vai além disso: a palatabilidade engloba características relacionadas ao ambiente do animal, ao próprio animal e também ao alimento propriamente dito. Por exemplo, ambientes estressantes podem inibir o consumo de um produto num determinado momento, ou a presença de muitos animais no mesmo local pode estimular o consumo excessivo de alguns por medo de falta de comida. Características relacionadas ao animal, mais especificamente ao paciente com DRC, envolvem principalmente a presença de náusea, inapetência e mesmo de estresse relacionado ao internamento hospitalar.  Por esta razão, recomenda-se que o fornecimento da dieta que deverá ser utilizada durante o manejo do animal seja oferecida após a sua saída do hospital, quando o quadro já estiver estável e o paciente em casa. Assim, a correlação entre uma expectativa negativa (estresse hospitalar) e o alimento será menor, e maior será a chance de o animal consumir a dieta coadjuvante. As características relacionadas ao próprio alimento vão desde o perfil aromático (relacionado à combinação de nutrientes que determina o odor do alimento), sua textura, temperatura e formato, até a sensação de saciedade e bem-estar provida com sua digestão. Portanto, determinar se o alimento é palatável ou não com base apenas em seu sabor é algo bastante simplista.

Com relação às modificações alimentares recomendadas aos pacientes nefropatas, a mais importante delas é a restrição de fósforo, capaz de diminuir ou até de reverter o hiperparatireoidismo secundário renal e, consequentemente, desacelerar a progressão da doença. Alguns autores referem que a restrição alimentar de fósforo isoladamente ou em associação aos quelantes intestinais de fosfato são as intervenções terapêuticas mais importantes em nefropatas estáveis compensados. Segundo a recomendação da IRIS, o alimento coadjuvante deve ser utilizado em pacientes nos estágios II, III e IV de DRC, pois a partir do estagio II, grande parte dos animais passa a apresentar hiperfosfatemia. Abaixo, segue gráfico que reflete o significativo aumento da expectativa de vida de gatos que se alimentaram com uma dieta restrita em fósforo.

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Figura 1 – Sobrevida de gatos que fizeram uso de uma dieta restrita em fósforo ELLIOTT et al, 2000)

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A indicação de restrição proteica, apesar de ser muito defendida, permanece incerta para gatos e cães com DRC. Ao contrário do que se observa em estudos realizados com ratos, dietas com altos teores de proteínas não causam a progressão da DRC tanto em cães e gatos que naturalmente desenvolvem a doença quanto nos que tiveram a doença induzida. Atualmente preconiza-se a restrição moderada de proteínas e o uso de fontes proteicas com baixo teor de matéria mineral, pois assim obtém-se a diminuição do teor de fósforo do alimento. Recomenda-se que apenas proteínas de altíssima digestibilidade e valor biológico sejam fornecidas a pacientes com DRC como, por exemplo, derivados do leite, ovo, proteína isolada de soja e algumas carnes magras. Cabe ressaltar que a ingestão adequada de aminoácidos é extremamente importante para prevenir a caquexia dos animais, especialmente em gatos, que são carnívoros estritos. A restrição proteica moderada também é interessante por diminuir as manifestações clínicas relacionadas à uremia e por reduzir a proteinúria em animais que apresentem essa condição.

Devido ao quadro de inapetência, é importante que o alimento contenha uma fonte de energia não-proteica para que a proteína seja poupada e a massa magra corporal seja mantida. A gordura é uma excelente fonte de energia para gatos e cães, aumenta a densidade energética da dieta e também promove palatabilidade do alimento. Dietas ricas em ômega 3 (suplementados sob forma de EPA e DHA) podem auxiliar a diminuir a progressão da doença renal, principalmente por promover a redução do processo inflamatório. Apesar da razão ômega 6: ômega 3 em pacientes com DRC ainda não ter sido definida, evidências sugerem que dietas que contenham uma proporção 5:1 são benéficas.

O teor de fibras fermentáveis do alimento para nefropatas deve ser moderado e outros componentes como sódio, potássio, vitaminas, antioxidantes e, possivelmente, bicarbonato devem ser considerados na alimentação do nefropata. Os teores de sódio devem ser de normais a moderadamente reduzidos, visando um melhor controle de pacientes com hipertensão arterial sistêmica (apesar de o principal meio de tratamento ser medicamentoso). A suplementação de potássio por via oral pode ser necessária em alguns pacientes. Antioxidantes e vitaminas devem ser fornecidos junto do alimento, e a própria formulação da dieta traz consigo uma característica levemente alcalinizante, o que auxilia a diminuir acidose metabólica causada pela DRC.

Pacientes com DRC também necessitam ingerir grandes quantidades de água. Com a perda de capacidade de concentração urinária pelos rins doentes, o animal se torna poliúrico e, por sua vez, desidratado. Por mais que a ingestão de água aumente (polidipsia), para compensar a grande perda hídrica pela micção, a quantidade geralmente não é suficiente, e a desidratação acontece. As crises urêmicas (agudizações do paciente crônico) ocorrem principalmente por desidratação excessiva. A utilização de alimentos úmidos como fonte única de alimento ou como parte da alimentação (mix feeding) é uma excelente estratégia para estimular a ingestão hídrica desses animais, além de ser mais palatável para a maioria dos pacientes e estimular o consumo alimentar.

 

REFERÊNCIAS

 CASE, L. P. et al. Canine and feline nutrition. 3 ed. Mosby Elsevier: Missouri. p. 409-430, 2011.

CHEW, D. J.; DIBARTOLA, S. P.; SCHENCK, P. A. Urologia e Nefrologia do Cão e do Gato. 2. ed. Saunders: Rio de Janeiro, p. 171-182, 2011.

ELLIOTT, J. et all. Survival of cats with naturally occurring chronic renal failure: effect of dietary management. J of Small Animal Practice, v. 41, n. 6, p. 235-242, 2000.

ELLIOTT, J.; ELLIOTT,  D. A. Dietary theraphy for feline chronic kidney disease. A enciclopédia do gato Royal Canin, 2006. Disponível em: http://enciclopediagato.royalcanin.com.br/. Acessado em 3 ago 2015.

ROBERTSON, J. Investigate, monitor, and manage kidney disease earlier with SDMA. Disponível em: https://www.idexx.com/small-animal-health/solutions/articles/earlier-diagnosis-kidney-disease.html. Acessado em 14 ago 2015.