Primeiro evento sobre resistência antimicrobiana na clínica de pequenos animais reuniu forças nacionais em debate histórico
Contextualização da resistência aos antimicrobianos na clínica de pequenos animais
A crescente proximidade entre os animais de companhia e os seres humanos, que atualmente compartilham estreitamente o mesmo ambiente domiciliar, transformou a clínica de cães e gatos em um cenário de grande relevância para a discussão da resistência antimicrobiana (RAM) sob a ótica da Saúde Única (One Health). O manejo terapêutico inadequado na rotina de pequenos animais muitas vezes envolvendo fármacos de grande importância para a medicina humana com a potencialização do risco de transmissão cruzada de genes de resistência entre pets, responsáveis e o meio ambiente.
Diante desse cenário, o primeiro seminário sobre RAM na clínica de cães e gatos, promovido e organizado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) representou pioneirismo e marco histórico ao romper as barreiras setoriais e reunir, pela primeira vez no país, as principais forças regulatórias e institucionais do Brasil. Ao sentar à mesa com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e a Anvisa, a discussão deixou de ser estritamente acadêmica ou isolada em clínicas, consultórios e laboratório de pesquisa a respeito da RAM. Essa articulação inédita permitiu alinhar a vigilância sanitária, a saúde pública, a preservação ambiental e a fiscalização do exercício profissional, estabelecendo uma cooperação interinstitucional indispensável para desenhar estratégias nacionais integradas, robustas e eficazes no enfrentamento global da RAM.
Discussões políticas e estratégicas
A resistência aos antimicrobianos é preocupação mundial e a sua abordagem necessariamente deve ser permeada pela atuação dos órgãos reguladores e fiscalizadores que têm interface com a questão, além das demais instituições e envolvidos com a utilização desse grupo de fármacos na rotina clínica de pequenos animais.
Nesse sentido, há uma questão principal: em que pese os antimicrobianos de uso veterinário serem na sua maioria os mesmos utilizados na farmacopeia humana, com o devido controle da cadeia, da fabricação até o consumo, sendo retida a prescrição médica no ponto de venda para aquisição, não há regulamentação ou controle similar para a utilização desses produtos em animais.
Assim, o evento trouxe à mesa de debate representantes desses órgãos e instituições para posicionamento e manifestação sobre as ações e encaminhamentos visando à regulamentação da utilização dos antimicrobianos veterinários, posicionando-se inicialmente o Conselho Federal de Medicina Veterinária como articulador da atividade e sinalizando como principais gargalos desse cenário o vazio regulatório, a ausência de obrigatoriedade de retenção de receitas veterinárias, a falta de dados de consumo e a não possibilidade de inclusão dos estabelecimentos médico-veterinários no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), responsável pelo registro, controle e fiscalização dos produtos veterinários, por meio da sua representante da Divisão de Saúde Animal, médica-veterinária Cristina Mara Teixeira, esclareceu que o órgão está atento à situação há vários anos, inclusive porque a utilização de antimicrobianos nos animais de produção é tema recorrente e preocupante no comércio internacional de produtos de origem animal. Informou que o registro da produção e venda de antimicrobianos ocorre desde 2020 e a futura retenção de receitas permitirá avançar para dados de consumo real. Ainda destacou que há previsão de publicação de regulamentação normatizando a retenção obrigatória da receita veterinária no ato da dispensação, os requisitos mínimos para a prescrição veterinária e o sistema de informações para obtenção de dados de uso de antimicrobianos, estando prevista consulta pública para esse fim até o final de 2026.
Convidada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária manifestou-se por meio da farmacêutica Lilian de Souza Barros, que reconheceu existirem muitas semelhanças entre estabelecimentos humanos e veterinários no que tange a protocolos de biossegurança e controle de infecção. A Anvisa possui protocolos consolidados que podem servir de base para adaptação ao setor veterinário. Contudo, o principal entrave é que os estabelecimentos veterinários não integram o sistema regulatório da saúde, dificultando a aplicação direta das normas da Agência. Como proposta, foi mencionada pelos participantes a criação de uma agência de vigilância sanitária, nos moldes da Anvisa, dedicada à regulação sanitária do setor veterinário, como uma solução de longo prazo.
O Ministério da Saúde, por sua vez, posicionou-se por meio das colocações do farmacêutico André Luiz de Abreu, reconhecendo a existência de um “vácuo” quanto à inclusão de estabelecimentos veterinários no CNES. Um dado relevante apresentado é que 1,7% das prescrições de antimicrobianos em farmácias humanas no Brasil são oriundas de médicos-veterinários – evidência concreta da interface entre as prescrições veterinárias e a saúde humana. Finalizou propondo que todos os temas discutidos no seminário sejam levados ao Comitê Intersetorial de Uma Só Saúde para construção de soluções institucionais integradas.
Passadas as falas institucionais dos órgãos públicos, iniciaram os posicionamentos dos demais segmentos envolvidos com os aspectos da resistência antimicrobiana em animais de companhia, entre elas a do sr. Sebastião Roberto Silva Sobrinho, Coordenador da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Animais de Estimação (Câmara Pet/Mapa), que congrega representantes do mercado “pet”. Destacou, naquele momento, que, embora cães e gatos consumam uma parcela muito pequena de antimicrobianos em comparação à saúde humana, o crescimento contínuo do número de animais de companhia e a intensa humanização dos pets – que compartilham camas, mesas e ambientes com seus responsáveis – elevam significativamente o risco de proliferação de bactérias resistentes. Ele apontou problemas críticos no uso desses medicamentos, como prescrições sem cultura adequada, interrupção precoce de tratamentos, automedicação e reaproveitamento de antibióticos pelos responsáveis. Apontou o papel da Câmara Setorial Pet como instrumento agregador de toda a cadeia produtiva (indústria veterinária, laboratórios, universidades e academia), integrando esforços com o CFMV, o Ministério da Agricultura, o Ministério da Saúde e a Anvisa para construir uma estratégia coesa que garanta a sustentabilidade dos antimicrobianos no futuro.
O representante da Associação Nacional dos Médicos Veterinários, médico-veterinário Márcio Mota, destacou três preocupações centrais da associação sobre o uso de antimicrobianos na medicina veterinária: a pobreza de dados no setor de pequenos animais – diferentemente da saúde humana, faltam informações concretas sobre contaminações em clínicas, consultórios e hospitais veterinários, preocupação presente, já que é possível identificar bactérias multirresistentes perpassando as internações veterinárias –; a falta de controle microbiológico ambiental nas empresas veterinárias – poucas ou nenhuma clínica realiza monitoramento do biofilme presente em internações, consultórios, UTIs e centros cirúrgicos, o que representa um risco significativo –; e a facilidade de aquisição de antibióticos veterinários no mercado, com responsáveis comprando medicamentos em pet shops ou pela internet, muitas vezes para automedicação, reutilizando princípios ativos de tratamentos anteriores sem prescrição. Por fim, sugeriu que a indústria farmacêutica veterinária pode contribuir por meio de publicidade responsável e cartilhas educativas em parceria com associações e órgãos públicos sobre o descarte correto de sobras de medicamentos, já que grande parte dos fármacos abertos não é utilizada na integralidade e acaba descartada de forma inadequada.
O médico-veterinário Bruno Divino Rocha, presidente da Comissão Nacional de Estabelecimentos Veterinários do CFMV, destacou a existência de um grave limbo regulamentatório no setor pet: o Ministério da Agricultura foi criado para animais de produção, não para pets, e desde a lei de desburocratização de 2018 (Lei 13.726), muitos municípios deixaram de exigir alvará sanitário de estabelecimentos veterinários, com as vigilâncias sanitárias locais frequentemente recusando a fiscalização do setor. Diante desse cenário, ele apontou o responsável técnico como a figura central para coordenar, na ponta, protocolos de uso de medicamentos, limpeza e controle de infecção hospitalar – área em que pouquíssimos hospitais veterinários atuam de forma estruturada. Defendeu que o papel do sistema CFMV/CRMVs não é fiscalizar o medicamento ou a dispensação, mas sim fiscalizar a ação do profissional, cobrando do responsável técnico a implementação de manuais de boas práticas e comissões de controle hospitalar, baseados em protocolos e consensos técnicos a serem desenvolvidos pelas associações. Criticou ainda a omissão das bulas de medicamentos veterinários em comparação às bulas de medicamentos de uso humano, e defendeu um esforço conjunto de educação, responsabilização e conscientização de todos os atores.
Finalizando os posicionamentos do bloco político-estratégico, manifestou-se a médica-veterinária Claudia Binder, da Sociedade Catarinense de Medicina Veterinária, que apontou a falta de arcabouço regulatório no setor veterinário e a questão da logística reversa e descarte de medicamentos veterinários. Destacou haver norma da Anvisa que se aplica ao gerenciamento de resíduos, mas a logística reversa para medicamentos veterinários ainda é insuficiente, dependendo da sensibilização de profissionais e responsáveis.
Evidenciou-se, assim, a resistência aos antimicrobianos como um dos maiores desafios sanitários contemporâneos, com impacto direto na saúde humana, animal e ambiental. Na clínica de pequenos animais e no mercado pet, a relevância se acentua por três fatores:
1. Proximidade entre pets e seres humanos: o convívio íntimo cria via direta de compartilhamento de bactérias resistentes e genes de resistência.
2. Uso de antimicrobianos de importância crítica: parcela significativa dos antibióticos utilizados em pequenos animais pertence a classes também essenciais para a medicina humana.
3. Vazio regulatório: o setor pet opera com baixa supervisão sanitária, acesso facilitado a antimicrobianos e ausência de dados sistematizados de consumo.
O seminário representou um marco na articulação intersetorial para o enfrentamento da RAM na clínica de pequenos animais, reunindo pela primeira vez Mapa, Anvisa, Ministério da Saúde, CFMV e entidades representativas. Ficou evidente que o vazio regulatório é o principal obstáculo estrutural: a ausência de retenção de receitas e de dados de consumo compromete políticas baseadas em evidências. Há convergência entre todos os órgãos quanto à necessidade de uma abordagem integrada de Uma Só Saúde, com ações coordenadas e não punitivas entre os setores.
As soluções propostas – regulamentação da prescrição, sistema nacional de dados e educação continuada – são factíveis e estão em estágio avançado de elaboração. O seminário gerou um compromisso concreto de levar as discussões ao Comitê Intersetorial de Uma Só Saúde do Ministério da Saúde e a outros palcos de discussões.
Detecção de mecanismos de resistência aos antimicrobianos em laboratórios veterinários
Durante o I Seminário de Resistência aos Antimicrobianos em Pequenos Animais do CFMV, a palestra sobre a rotina do laboratório de microbiologia veterinária destacou o papel crucial da identificação fenotípica de genes de resistência em bactérias. O foco da apresentação abordou como testes fenotípicos acessíveis e padronizados – como o uso de discos combinados, fitas de gradiente e testes de triagem enzimática – permitem deduzir a presença de determinantes genéticos de resistência diretamente na rotina diagnóstica.
Foi enfatizado que, embora as técnicas moleculares sejam o padrão-ouro, a correta interpretação fenotípica baseada em critérios epidemiológicos é uma ferramenta poderosa, rápida e de excelente custo-benefício para detectar mecanismos complexos, como as beta-lactamases de espectro estendido (ESBL) e a resistência à meticilina. Desse modo, o laboratório veterinário se consolida não apenas como um guia para a escolha terapêutica imediata do clínico de pequenos animais, mas como um pilar essencial na vigilância epidemiológica ativa e no combate global à resistência antimicrobiana
Resistência aos antimicrobianos nas rotinas da clínica de pequenos animais
A resistência aos antimicrobianos é reconhecida como uma das maiores ameaças atuais à saúde global e assume papel ainda mais crítico na emergência e terapia intensiva veterinária, onde pacientes graves podem necessitar de antibioticoterapia imediata, a depender de critérios preestabelecidos.
Embora o início precoce do tratamento seja determinante para a sobrevida em diversas condições, o uso indiscriminado ou inadequado desses fármacos intensifica a pressão seletiva sobre as populações bacterianas, favorecendo o surgimento e a disseminação de microrganismos resistentes. Esse cenário reforça a necessidade de equilibrar a urgência terapêutica com princípios sólidos de uso racional dos antimicrobianos. Patógenos como Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP), Escherichia coli produtora de β-lactamases de espectro estendido (ESBL), Pseudomonas aeruginosa e enterococos resistentes figuram entre os principais desafios enfrentados na rotina hospitalar veterinária.
Nesse contexto, o gerenciamento do uso de antimicrobianos (antimicrobial stewardship) representa uma estratégia essencial para otimizar a terapia antimicrobiana e preservar a eficácia desses medicamentos. A tomada de decisão deve estar fundamentada na suspeita clínica, no possível patógeno envolvido de acordo com o foco e perfil do paciente, na coleta adequada de culturas, na interpretação dos testes de suscetibilidade e na aplicação dos princípios de farmacocinética e farmacodinâmica, permitindo a escolha do antimicrobiano, da dose, da via de administração e da duração do tratamento mais apropriadas para cada paciente. A reavaliação diária da antibioticoterapia, com ajuste ou descalonamento (redução do espectro de um antibiótico para uma opção mais direcionada, guiada por exames de cultura) sempre que possível, com base nos testes de susceptibilidade, constitui uma prática indispensável para reduzir a seleção de cepas resistentes sem comprometer os desfechos clínicos. Sob a perspectiva da Saúde Única, a resistência antimicrobiana ultrapassa os limites da medicina veterinária e configura um desafio compartilhado entre animais, seres humanos e meio ambiente. Nesse cenário, o médico-veterinário desempenha papel fundamental na implementação de práticas baseadas em evidências, contribuindo não apenas para o sucesso terapêutico dos pacientes críticos, mas também para a preservação da eficácia dos antimicrobianos para as futuras gerações.
A resistência antimicrobiana (RAM) na gastroenterologia de pequenos animais constitui um problema em ascensão, impulsionado pela pressão seletiva que o uso indiscriminado de antibióticos e antifúngicos exerce sobre o microbioma intestinal. O trato gastrointestinal atua como um importante reservatório do “resistoma” – conjunto de genes de resistência presentes tanto em bactérias patogênicas quanto comensais – favorecendo a seleção e a disseminação de microrganismos resistentes e comprometendo a eficácia terapêutica. A resistência aos antiparasitários, já descrita em espécies de Ancylostoma, também emerge como preocupação relevante nesse cenário. Diante desse panorama, a prescrição criteriosa deve pautar-se em investigação diagnóstica adequada, escolha racional do fármaco, monitoramento da resposta terapêutica e educação dos responsáveis, reforçando o papel do médico-veterinário na preservação da eficácia dos antimicrobianos sob a ótica da Saúde Única.
O clínico deve reconhecer as situações em que a antibioticoterapia é realmente necessária – como nas enterites bacterianas confirmadas – e aquelas em que seu uso deve ser evitado, a exemplo das gastroenterites virais e das diarreias autolimitantes, nas quais o suporte e a reidratação são suficientes. A escolha do antimicrobiano, quando indicada, deve levar em conta o espectro de ação, a farmacocinética e o perfil de resistência local, priorizando fármacos de menor impacto sobre a microbiota comensal. Paralelamente, o uso de probióticos e prebióticos surge como estratégia adjuvante promissora para restaurar o equilíbrio intestinal e reduzir a necessidade de antimicrobianos. A integração desses conceitos à prática clínica diária é o caminho para conter a escalada da resistência e garantir a eficácia terapêutica nas gerações futuras.
Na nefrologia veterinária em animais de companhia, especialmente no manejo das cistites bacterianas em cães e gatos, a resistência antimicrobiana representa um desafio crescente. Dados apontam que cerca de 43% dos isolados de infecções do trato urinário inferior (ITUs) já são classificados como multirresistentes a três ou mais classes de antimicrobianos. Pacientes com doença renal crônica (DRC), diabetes mellitus, hipercortisolismo ou submetidos a procedimentos invasivos como cateterização urinária apresentam risco ampliado. Observa-se como sendo os principais patógenos envolvidos a Escherichia coli uropatogênica (Upec), a Klebsiella pneumoniae, o Enterobacter spp., o Staphylococcus spp. e o Enterococcus spp. Quando a terapia antimicrobiana se faz necessária, a escolha do fármaco deve fundamentar-se em cultura e antibiograma, considerando propriedades farmacocinéticas (excreção urinária) e farmacodinâmicas (concentração versus tempo-dependente).
Visando a obtenção de material para exame, a cistocentese deve ser considerada o método de eleição para cultura e antibiograma. Segundo as diretrizes da International Society for Companion Animal Infectious Diseases (Iscaid), animais assintomáticos com urocultura positiva não devem receber antibioticoterapia. Quando da presença de comorbidades, deve-se avaliar caso a caso, considerando-se os riscos e benefícios. A duração da antibioticoterapia recomendada é de até 5 dias para cistite esporádica e até 14 dias para cistite recorrente. Em cenários de multirresistência, doxiciclina e nitrofurantoína podem ser consideradas, embora com cautela diante de potenciais efeitos adversos (esofagite em felinos) e da relevância crítica da nitrofurantoína para a medicina humana. Paralelamente, novas estratégias terapêuticas como bacteriófagos e peptídeos antimicrobianos (AMPs) estão em investigação, enquanto programas de gerenciamento de uso de antimicrobianos reforçam a necessidade de prescrição criteriosa e responsável, priorizando a correção da causa de base e o manejo clínico do paciente – incluindo estímulo miccional e aumento da ingesta hídrica.
As piodermites estão entre as infecções cutâneas mais frequentes na clínica de pequenos animais e, em geral, decorrem da multiplicação de bactérias que já integram a microbiota da pele, com destaque para o Staphylococcus pseudointermedius. Podem ser primárias, quando não há doença predisponente identificável, ou secundárias a alterações inflamatórias, parasitárias, endócrinas, queratinizantes ou do microclima cutâneo, classificando-se em infecções de superfície, superficiais (mais comuns) e profundas, estas últimas associadas a maior perda tecidual, formação de cicatrizes e furunculose. As principais dermatopatias relacionadas às foliculites bacterianas recorrentes são doenças alérgicas (principalmente dermatite atópica), endocrinopatias (hipercortisolismo e hipotireoidismo), distúrbios de queratinização e doenças parasitárias (demodiciose e escabiose). O diagnóstico deve combinar avaliação clínica, citologia e investigação da causa de base, sendo pústulas, pápulas, crostas, colarinhos epidérmicos e áreas de alopecia em aspecto de “roedura de traça” achados sugestivos, enquanto a citologia permite identificar cocos, neutrófilos degenerados e fagocitose bacteriana.
A resistência antimicrobiana não deve ser considerada automaticamente como a primeira explicação para a falha terapêutica; antes, é fundamental revisar o diagnóstico, a adesão ao tratamento, a dose, o tempo de uso e a persistência da causa primária. A cultura bacteriana e o antibiograma são especialmente indicados em infecções recorrentes, recidivantes, profundas ou com resposta insuficiente ao tratamento empírico, e o Staphylococcus pseudointermedius resistente à meticilina (MRSP), frequentemente relacionado ao gene mecA, representa um desafio relevante por apresentar resistência a múltiplas classes de antimicrobianos. Sempre que possível, infecções de superfície e foliculites bacterianas superficiais devem ser tratadas com terapia tópica exclusiva – clorexidina a 2%, triclosan, ácido hipocloroso ou hipoclorito de sódio – reservando-se a terapia sistêmica para casos em que a extensão, a profundidade ou a condição clínica do paciente a justifiquem, com o objetivo de reduzir a pressão seletiva e preservar a eficácia dos antimicrobianos.
A resistência bacteriana é um problema global de Saúde Única, e, embora a transmissão de S. pseudointermedius de cães para seres humanos seja considerada pouco frequente, contextos como convívio com vários cães, lambedura constante da face dos responsáveis, responsáveis imunossuprimidos e uso recente de antibióticos podem aumentar a exposição. Assim, o enfrentamento do problema exige diagnóstico correto, controle da doença de base, higiene adequada, uso preferencial de terapias tópicas e prescrição responsável de antimicrobianos sistêmicos.






