Cannabis para além da planta
Ciência, agronegócio e medicina veterinária discutem os próximos passos no Brasil
O lançamento oficial da ExpoCannabis Brasil 2026 reuniu, no Consulado-Geral do Uruguai em São Paulo, representantes da diplomacia, da pesquisa agropecuária, da medicina veterinária e do setor da cannabis para discutir os próximos passos de uma cadeia que ganha novas dimensões no Brasil. A quarta edição da Expo Cannabis Brasil acontecerá de 20 a 22 de novembro em São Paulo, SP. Mais do que apresentar a quarta edição do evento, o encontro colocou em pauta pesquisa, regulamentação, produção nacional, bioeconomia, inovação e as possibilidades que se abrem com o avanço científico e regulatório no país.
Com o tema “Para Além da Planta”, a ExpoCannabis Brasil 2026 propõe justamente ampliar esse olhar. A cannabis deixa de ser discutida exclusivamente a partir do uso medicinal e passa a ser compreendida dentro de uma cadeia que envolve saúde, agricultura, indústria, ciência, sustentabilidade e desenvolvimento econômico.
Para o médico-veterinário Bruno Perozzo, integrante da Comissão Científica de Medicina Veterinária da ExpoCannabis, a própria composição da mesa demonstrou esse amadurecimento. O encontro reuniu representantes da ExpoCannabis Brasil e ExpoCannabis Uruguay, do Consulado-Geral do Uruguai, da Embrapa, da Kaya Mind e da medicina veterinária.
“O debate sobre a cannabis no Brasil já ultrapassou os limites do uso medicinal e começa a envolver uma cadeia muito maior, formada por ciência, saúde, agricultura, indústria, inovação, sustentabilidade e políticas públicas”, avaliou Bruno.
Ciência no centro da construção de uma nova cadeia brasileira
A participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) trouxe ao encontro uma perspectiva fundamental: antes de chegar aos medicamentos, alimentos, fibras ou diferentes aplicações industriais, existe uma planta que precisa ser compreendida cientificamente nas condições brasileiras.
Para Daniela Bittencourt, médica-veterinária e secretária-executiva do Comitê Permanente de Assessoramento Estratégico da Diretoria Executiva da Embrapa sobre Cannabis, o Brasil está entrando em uma nova etapa.
“A principal mensagem nesta nova etapa para a cannabis no Brasil é que a ciência precisa estar no centro desse processo. Os avanços regulatórios recentes representam uma conquista importante, especialmente para a pesquisa, mas ainda há muito a construir”, afirmou Daniela.
Segundo ela, será necessário gerar conhecimento adaptado às condições brasileiras, capaz de contribuir para o aperfeiçoamento da regulamentação, o desenvolvimento de materiais genéticos e a criação de sistemas de produção adequados ao país.
A pesquisadora ressalta ainda que a discussão não termina com a regulamentação do cultivo. Para que uma cadeia produtiva efetivamente se desenvolva, será necessário pensar desde o acesso a materiais genéticos e tecnologias de produção até processamento, indústria, mercado e acesso da população aos produtos.
Do potencial agrícola à medicina veterinária
Essa visão encontra pontos de convergência com a avaliação de Bruno. Para ele, a presença da Embrapa no encontro evidencia que a construção de uma cadeia nacional exige estudos sobre genética, variedades adaptadas às condições brasileiras, produtividade, composição química, resistência a pragas, influência do solo e do clima, técnicas de cultivo, processamento, armazenamento e rastreabilidade.
As possibilidades, entretanto, vão muito além da produção agrícola.
Daniela explicou que a cannabis abre uma extensa agenda de pesquisa envolvendo genética, melhoramento, biotecnologia, sistemas produtivos, química, desenvolvimento de produtos, biomateriais, alimentos, saúde e aplicações industriais. No caso do cânhamo, destaca o potencial das fibras, biocompósitos e outros produtos de base biológica associados à bioeconomia.
Para o agronegócio brasileiro, a cultura também poderá representar uma nova alternativa produtiva e contribuir para cadeias de alto valor agregado, incluindo empreendimentos empresariais, agricultura familiar e modelos cooperativos. A pesquisadora ponderou, contudo, que esse potencial dependerá de pesquisa, planejamento e políticas públicas capazes de fazer com que produção, processamento e mercado avancem de maneira articulada.
E onde entra a medicina veterinária?
A participação de dois médicos-veterinários na discussão também evidencia como a profissão pode ocupar diferentes espaços dentro dessa nova cadeia.
Bruno considera que a endocanabinologia veterinária brasileira atravessa uma transição entre uma fase pioneira e uma etapa de maior institucionalização. Ele destaca, entretanto, uma distinção importante: endocanabinologia e cannabis não são sinônimos. A endocanabinologia envolve o estudo do sistema endocanabinoide, seus receptores, enzimas e mediadores, enquanto os derivados da cannabis representam algumas das ferramentas farmacológicas capazes de modulá-lo.
Na prática clínica, os fitocanabinoides vêm sendo investigados principalmente como recursos complementares em condições como dor, osteoartrite e epilepsia, embora os resultados ainda sejam heterogêneos e indiquem a necessidade de ampliar a produção de evidências científicas.
Daniela amplia essa discussão para além da clínica de animais de companhia. Segundo ela, há oportunidades para estudos de segurança, eficácia, farmacologia e aplicações terapêuticas em diferentes espécies, incluindo animais de produção.
Outra frente que deverá ser investigada envolve os derivados do cânhamo e seu possível emprego na alimentação animal, suplementação, bem-estar e outros insumos dos sistemas pecuários. São possibilidades que, segundo a pesquisadora, não devem ser assumidas previamente como seguras ou eficazes.
“Como médica-veterinária, vejo esse campo como uma oportunidade especialmente interessante de aproximar a pesquisa básica, a pesquisa clínica e a produção animal, gerando evidências que permitam identificar quais aplicações realmente são seguras, eficazes e economicamente viáveis”, explicou.
Essa avaliação inclui questões como composição dos produtos, resíduos, desempenho dos animais e qualidade dos produtos de origem animal. Para Daniela, o momento é justamente de investigar e validar cientificamente os diferentes potenciais da cannabis e do cânhamo para a medicina veterinária e para a produção animal.
Uma construção que exige diferentes áreas do conhecimento
Se existe um ponto de convergência entre as diferentes perspectivas apresentadas durante o encontro, é a impossibilidade de construir essa cadeia de maneira isolada.
Para Daniela, trata-se de uma área essencialmente multidisciplinar. A Embrapa pode contribuir com sua experiência em recursos genéticos, produção agrícola, biotecnologia, bioeconomia e desenvolvimento de cadeias produtivas; as universidades agregam pesquisa e formação profissional; enquanto médicos, médicos-veterinários, farmacêuticos e outros profissionais da saúde aproximam a ciência das necessidades encontradas na prática.
“Quando aproximamos essas competências, conseguimos enxergar a cadeia como um todo, da planta ao produto e do conhecimento científico à sua aplicação na sociedade”, afirmou.
A integração, segundo ela, é fundamental não apenas para gerar evidências, mas também para orientar políticas públicas, estimular inovação e garantir que o desenvolvimento do setor aconteça com segurança, responsabilidade e benefício social.
Essa multidisciplinaridade também foi um dos aspectos que mais chamou a atenção de Bruno durante o lançamento. Para o médico-veterinário, foi particularmente significativo observar a medicina veterinária inserida não como um tema acessório, mas como parte da discussão estratégica sobre o futuro da cannabis no Brasil.
Brasil e Uruguai: experiências que podem se complementar
A realização do encontro no Consulado-Geral do Uruguai acrescentou ainda outra dimensão ao debate. O Uruguai acumula mais de uma década de experiência regulatória e produtiva relacionada à cannabis, enquanto o Brasil reúne capacidade científica, força agrícola, indústria e um mercado de grandes proporções.
Na avaliação de Bruno, essa aproximação pode favorecer pesquisas multicêntricas, intercâmbio de pesquisadores, compartilhamento de experiências regulatórias, desenvolvimento de material genético, formação profissional, transferência de tecnologia e construção de padrões comuns de qualidade.
Mais do que reproduzir modelos estrangeiros, o desafio brasileiro será utilizar as experiências internacionais como referência e, ao mesmo tempo, produzir conhecimento adequado às particularidades nacionais.
É justamente nesse ponto que as perspectivas apresentadas durante o lançamento se encontram: desenvolver uma cadeia de cannabis e cânhamo no Brasil exigirá muito mais do que regulamentação. Exigirá ciência, profissionais qualificados, integração institucional, acompanhamento dos resultados e capacidade de transformar potencial em evidências.
Para os médicos-veterinários que começam a se aproximar da endocanabinologia, Bruno resume esse princípio em uma recomendação: estudar primeiro o sistema endocanabinoide e depois os produtos. Compreender fisiologia, farmacologia, farmacocinética e toxicologia, segundo ele, é mais importante do que simplesmente memorizar doses e concentrações.
Em uma área ainda em construção, a forma como ciência, instituições e profissionais conduzirem os próximos passos poderá determinar não apenas o tamanho dessa cadeia, mas também sua segurança, sustentabilidade e credibilidade.
ExpoCannabis Brasil 2026
https://expocannabisbrasil.com/