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Associação Medicinal de Endocanabinologia Veterinária – Amec-Vet

Muito além do óleo CBD

O verdadeiro potencial terapêutico escondido na cannabis

Matéria escrita por:

Caroline Helena da Silva Campagnone

6 de jul de 2026

Os tricomas da Cannabis sativa L. que parecem gotículas depositadas em cima da planta, são estruturas responsáveis pela biossíntese e armazenamento de fitocanabinoides, terpenos e flavonoides. Créditos: Caroline Campagnone Os tricomas da Cannabis sativa L. que parecem gotículas depositadas em cima da planta, são estruturas responsáveis pela biossíntese e armazenamento de fitocanabinoides, terpenos e flavonoides. Créditos: Caroline Campagnone

Quando se fala em cannabis medicinal, o nome mais lembrado quase sempre é o canabidiol, também conhecido como CBD. Ele ganhou destaque, virou sinônimo de tratamento e abriu portas importantes para a aceitação da planta Cannabis sativa L. na medicina. Mas reduzir a cannabis ao CBD é como olhar para um oceano e enxergar apenas a superfície 1.

A verdade é que o potencial terapêutico da cannabis vai muito além de um único composto. A Cannabis sativa L. apresenta uma enorme diversidade genética, e cada variedade expressa um perfil fitoquímico único, com a presença de mais de 3 mil compostos já identificados. Muito além dos fitocanabinoides mais conhecidos, a planta também é composta por clorofila, ácidos graxos essenciais, aminoácidos, açúcares, vitaminas e outros metabólitos que participam de processos biológicos importantes e podem contribuir, direta ou indiretamente, para os efeitos terapêuticos observados em formulações full spectrum 1,2,3.

Mas o verdadeiro “ouro” da planta, os compostos mais terapêuticos, estão concentrados em estruturas microscópicas altamente especializadas que ficam na superfície das inflorescências femininas, os tricomas, que são verdadeiras fábricas bioquímicas responsáveis pela síntese e armazenamento dos principais compostos bioativos da cannabis. É nesse microambiente que a planta organiza sua complexidade química e onde, de fato, reside seu potencial terapêutico mais profundo 3.

 

Onde está o remédio: os tricomas

Os tricomas são pequenas glândulas cristalinas que recobrem principalmente as flores da planta fêmea. Ao olhar de perto, eles lembram pequenos cogumelos translúcidos. Mas por trás dessa delicadeza estética, existe uma complexidade bioquímica impressionante 1,3.

É dentro dessas estruturas que a planta produz e armazena seus compostos ativos:

• fitocanabinoides;

• terpenos;

• flavonoides.

Ou seja, não é apenas uma planta. É um verdadeiro laboratório natural.

 

Fitocanabinoides: muito além de THC e CBD

Os fitocanabinoides são moléculas produzidas principalmente nas inflorescências femininas da Cannabis sativa L. Essas substâncias interagem com o sistema endocanabinoide, um sistema biológico presente em vertebrados e alguns invertebrados, responsável por auxiliar na regulação de funções como dor, inflamação, apetite, humor, memória, resposta imunológica e neuroproteção 1.

Entre os fitocanabinoides mais conhecidos estão o CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol). O CBD ganhou destaque por seu potencial terapêutico em condições relacionadas à dor, epilepsia, ansiedade, imunidade, inflamação e doenças neurológicas. Já o THC, apesar de ainda carregar estigmas, também possui importante aplicação medicinal, apresentando potencial analgésico e anti-inflamatório mais potente que o CBD, além de ter um potencial antiemético, estimulante de apetite, modulador neurológico e favorecer a apoptose celular. Na medicina veterinária, inclusive, muitos efeitos terapêuticos observados não dependem exclusivamente do CBD, mas da interação entre diferentes compostos da planta, incluindo concentrações terapêuticas de THC.

No entanto, limitar a cannabis apenas ao CBD e ao THC é ignorar a enorme complexidade química da planta. Até o momento, já foram identificados mais de 150 fitocanabinoides, muitos deles ainda pouco explorados cientificamente. Entre alguns dos principais, destacam-se:

• CBG (canabigerol): considerado o “canabinoide-mãe”, precursor de outros fitocanabinoides, com potencial anti-inflamatório e neuroprotetor;

• CBC (canabicromeno): associado a efeitos analgésicos e moduladores do humor;

• CBN (canabinol): relacionado a propriedades sedativas e relaxantes;

• THCV: estudado por seu possível papel na regulação do apetite e metabolismo;

• CBDV: promissor em pesquisas relacionadas a epilepsia e distúrbios neurológicos.

Cada um desses compostos possui características farmacológicas próprias. E talvez o ponto mais importante seja justamente este: eles não atuam isoladamente. A interação entre fitocanabinoides, terpenos, flavonoides e outros compostos da planta parece desempenhar papel fundamental nos efeitos terapêuticos observados na medicina canabinoide 4.

 

O efeito comitiva: a sinergia que potencializa a terapêutica

O conceito de efeito comitiva descreve a interação sinérgica entre os diversos compostos da cannabis. Em vez de um único princípio ativo, temos uma rede de substâncias que se modulam mutuamente, potencializando efeitos terapêuticos e reduzindo efeitos adversos 3.

Isso muda completamente a lógica de tratamento.

Enquanto a medicina tradicional muitas vezes busca o isolamento de uma molécula, a cannabis nos convida a olhar para a complexidade como estratégia terapêutica.

 

Terpenos e flavonoides: os moduladores invisíveis

Além dos canabinoides, os tricomas produzem outras classes de compostos fundamentais, como os terpenos e flavonoides 4.

Terpenos são compostos aromáticos, ou seja, responsáveis pelo aroma da planta, e vão muito além disso. Possuem efeitos farmacológicos próprios.

• mirceno: sedativo e relaxante muscular;

• limoneno: ansiolítico e antidepressivo;

• linalol: calmante e modulador do estresse.

Além dos terpenos, existem os flavonoides, que são menos discutidos, e igualmente importantes, pois os flavonoides têm ação antioxidante, anti-inflamatória, potencial neuroprotetor e também participam da sinergia terapêutica da planta.

• alfa-pineno – anti-inflamatório, broncodilatador, auxilia a memória e antibacteriano. Também encontrado em folhas de pinheiros;

• linalol – anestésico, anticonvulsivante, analgésico e ansiolítico. Também encontrado na lavanda;

• beta cariofileno – anti-inflamatório, analgésico, protege celulas de revestimento do trato digestivo. Também encontrado em pimenta preta;

• mirceno – contribui para o efeito sedativo de variedades índicas fortes, auxilia no sono e é relaxante muscular;

• limoneno – trata refluxo ácido, é ansiolítico e antidepressivo. Também encontrado em cítricos

 

Cannabis vista como parte de um sistema, não como substância

Talvez o maior erro na forma como a cannabis vem sendo abordada seja tentar encaixá-la em um modelo reducionista. A cannabis não é um fármaco único, nem uma substância isolada. Ela é um sistema complexo de moléculas que dialoga diretamente com outro sistema igualmente complexo: o sistema endocanabinoide 5,6.

Cada vez mais vemos o surgimento de “prescritores de CBD” ou “prescritores de cannabis”, quando, na realidade, deveríamos estar olhando para a endocanabinologia com o devido aprofundamento científico e clínico que ela exige. Mais do que prescrever compostos, estamos falando da compreensão de um sistema biológico regulador presente em todo o organismo. E, em um futuro breve, o reconhecimento do médico-veterinário endocanabinologista trará essa responsabilidade 1.

Porque é exatamente nessa comunicação entre sistemas que emerge o potencial terapêutico mais profundo da cannabis. A planta não deve ser compreendida como a terapia em si, mas como uma das ferramentas capazes de modular o sistema endocanabinoide, uma rede biológica fundamental para a manutenção da homeostase 5,6. Em diversas condições clínicas, observa-se um desequilíbrio ou deficiência dessa rede regulatória, e é nesse contexto que a endocanabinologia ganha relevância: não como uma prática centrada apenas na prescrição de cannabis, mas na compreensão integrada dos mecanismos fisiológicos que sustentam saúde, equilíbrio e resposta terapêutica.

 

Referências

1-CAMPAGNONE, C. Cannabis medicinal: sistema endocanabinoide e sua terapêutica. 1. ed. Bertioga, Plantando Conhecimento. 2021. ISBN 978-65-994691-0-7

2-CITAL, S. ; KRAMER, K. ; HUGHSTON, L. ; GAYNOR, J. S. Cannabis therapy in veterinary medicine: a complete guide. Palo Alto: Springer, 2021. 612 p. Doi: 10.1007/978-3-030-68317-7.

3-RUSSO, E. B. Beyond Cannabis: plants and the endocannabinoid system. Trends in Pharmacological Sciences, v. 37, n. 7, p. 594-605, 2016. Elsevier BV. Doi: 10.1016/j.tips.2016.04.005.

4-FERBER, S. G. ; NAMDAR, D. ; HEN-SHOVAL, D. ; EGER, G. ; KOLTAI, H. ; SHOVAL, G. ; SHBIRO, L. ; WELLER, A. The “entourage effect”: terpenes coupled with cannabinoids for the treatment of mood disorders and anxiety disorders. Current Neuropharmacology, v. 18, n. 2, p. 87-96, 2020. Bentham Science Publishers Ltd. Doi: 10.2174/1570159×17666190903103923.

5-MARZO, V. di. Targeting the endocannabinoid system: to enhance or reduce? Nature Reviews Drug Discovery, v. 7, n. 5, p. 438-455, maio 2008. Springer Science and Business Media LLC. Doi: 10.1038/nrd2553.

6-MECHOULAM, R. ; PARKER, L. A. The endocannabinoid system and the brain. Annual Review Of Psychology, v. 64, n. 1, p. 21-47, 3 jan. 2013. Annual Reviews. Doi: 10.1146/annurev-psych-113011-143739.

 

 

 

 



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