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O pensamento crítico em nossa vida

Matéria escrita por:

Clínica Veterinária

20 de set de 2015


Desde o ano de 2000, por meio do Cambridge e Learning Institute, a profa. dra. Anabela Pinto, fundadora e diretora executiva do instituto, vem enriquecendo a formação de diversos profissionais que buscam aprofundar o conhecimento em bem-estar animal, ética, comportamento animal e pensamento crítico.

Recentemente, a profa. dra. Anabela Pinto lançou o livro Pensando bem!.. – Uma introdução ao pensamento crítico, que se encontra disponível para compra em versão digital (http://www.cambridge-elearning.com). O livro oferece uma visão geral do método e das técnicas de argumentação utilizados em qualquer tipo de discussão entre grupos e pessoas com opiniões contrárias, e tem foco em três aspectos fundamentais:

1. Ensina como analisar e produzir argumentos. São técnicas baseadas no uso da lógica e da linguagem falada.

2. Analisa e descreve muitas falácias comuns no nosso raciocínio, identificando situações em que o nosso pensamento é absolutamente irracional.

3. Ajuda a compreender a nossa própria psicologia e a nossa tendência para raciocínios enviesados, formulação de generalizações inadequadas e formação de estereótipos.

 

“O pensamento crítico é uma disciplina que está em franca expansão nos países anglo-saxônicos. A disciplina é ministrada nos últimos anos do ensino secundário como uma opção, e geralmente é abraçada por alunos que querem cursar filosofia ou ciências políticas. O avanço e a multiplicação de vários movimentos pela expansão da racionalidade têm trazido a disciplina para o domínio público, e mais recentemente muitas universidades estão inserindo nos seus currículos uma disciplina intitulada Transferable Skills ou capacidades transferíveis que equipa o estudante a fazer várias coisas, entre as quais falar em público, saber como fazer apresentações e debates e pensar crítica e racionalmente não só sobre a sua disciplina, mas sobre o mundo em geral. A habilidade de pensar criticamente é necessária para se obter sucesso no meio acadêmico e na sociedade, em qualquer lugar onde haja discordância e conflito de opiniões. Assim, pensar criticamente nos ajuda a formular os nossos próprios argumentos e analisá-los de forma a identificar onde eles podem falhar. Após essa identificação, podemos voltar e reformular o argumento, evitando falácias e pontos fracos que possam ser atacados pelos nossos oponentes”, esclarece a dra. Anabela Pinto.

Confira a seguir alguns esclarecimentos compartilhados por ela sobre o envolvimento do pensamento crítico com a ciência, a pesquisa, o bem-estar animal e a ética.

 

O verdadeiro cientista

            O verdadeiro cientista é aquele que questiona e não aceita qualquer proposição só porque foi feita por alguém investido de autoridade. Como sabemos, esse é um processo que permite a transferência de ideias falaciosas e sem fundamento científico de geração em geração. Por exemplo, a ideia de que os animais são irracionais e não sofrem ou não têm emoções é ainda muito prevalente no meio acadêmico latino. Isso porque o ensino superior latino segue um preceito baseado em aceitar todas as divagações mentais explanadas pelo professor. É um ensino baseado no apelo à autoridade. Por outro lado, o sistema inglês apela para a análise crítica e o questionamento. Quaisquer candidatos às universidades de Cambridge e Oxford têm que passar por uma entrevista em que lhes são apresentadas as mais curiosas questões. O entrevistador não quer saber se o candidato conhece a resposta. Ele está analisando a sua capacidade de criar argumentos plausíveis e de ser criativo. A ciência só pode evoluir se se questionarem e colocarem sob escrutínio as crenças anteriores. Só assim é possível abandonar teorias errôneas e criar outras mais compatíveis com os conhecimentos do presente.

            O livro Pensando bem!… – Uma introdução ao pensamento crítico ajuda as pessoas a perceber que um argumento é uma forma saudável de debater sem que as pessoas o façam de forma emocional e se sintam ofendidas. Quem ganha o argumento não é aquele que grita mais alto, mas aquele que derruba os argumentos dos outros sem que ninguém consiga derrubar o seu.

 

Bem-estar e ética

            Ao falarmos de bem-estar e ética animal, a nossa mente estabelece imediatamente associações entre as palavras que descrevem esse conceito e aquilo que já conhecemos de nossa experiência pessoal. Assim, muita gente assume que bem-estar animal se refere a “paparicar” o animal como se estivéssemos proporcionando bem-estar a uma pessoa. Na realidade, o bem-estar de um animal se refere ao fato de sua natureza ser respeitada. Se o animal é um cão, não deveremos tratá-lo como uma pessoa, com “roupinhas de grife” e “cheirinho de perfume”. O cão tem o pelo para se proteger e se comunica com os outros cães pela emissão de odores. Qualquer odor é um sinal que contém informação e faz sentido na mente canina. Ora, na natureza nenhum cão se perfuma com Chanel n. 5! Colocar perfume num cão é um forma de atrapalhar a clareza da mensagem que ele transmite aos outros cães.

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As universidades e as escolas secundárias deveriam dar mais ênfase ao desenvolvimento da capacidade crítica dos alunos e torná-la disciplina obrigatória. As pessoas que sabem pensar são o motor do desenvolvimento social e sabem se proteger de manipulações políticas e da mídia”, diz a profa. dra. Anabele Pinto

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            Muita gente também confunde o conceito de ética animal com direitos de animais. A defesa da tese de que os animais têm direitos é apenas uma pequena especialização da ética animal. Existem muitos filósofos que não aceitam o conceito de direitos e se opõem a tais ideias. Ao apresentar esses argumentos eles estão comunicando informação dentro do domínio da ética animal. Outros acham que os animais não têm direitos, mas nós temos obrigações para com eles. Essas obrigações são baseadas em conceitos de moral e focam a empatia, no princípio da precaução, a prevenção de atos cruéis etc. Todas essas posições precisam ser justificadas. Dizer que eu penso assim só porque eu acredito nisso não é um argumento válido. Para justificar as nossas posições, precisamos aprender a pensar criticamente, colhendo a evidência necessária e relevante para tal justificativa.

            Dizer que não se deve maltratar cães porque eles são bonitos é um argumento que cai por terra muito depressa! Mas posso apoiar o meu argumento com outras justificativas mais fortes e difíceis de derrubar. O truque está em avaliar quais as justificativas fortes que devem ser usadas no argumento.

            Por exemplo, dizer que devemos proteger os animais porque eles são criaturas de Deus é um argumento que só serve para quem acreditar em Deus. Portanto, não vai funcionar com os ateus. Esse argumento só tem espaço no universo religioso. Mas se meu argumento se basear na capacidade de sofrer e no fato de que infligir sofrimento gratuitamente é moralmente inaceitável, então passa a ser uma justificativa universal, porque se aplica em qualquer situação.

            Por exemplo, muitos conservacionistas repetem o slogan de que a biodiversidade é uma coisa boa. Porém, quando questionados a justificar por quê, eles não sabem defender o argumento. Dizem isso só porque estão propagando uma ideia que lhes foi impingida pela sua educação. É bom ter bons princípios, mas ainda é melhor perceber por que se defende tais princípios.

            Do mesmo modo, muitos médicos acham que os seres humanos têm mais importância moral do que os animais. A razão dessa atitude deve-se à lavagem cerebral que sofreram durante a formação, que foca essencialmente uma atitude antropocêntrica e um total desconhecimento do continuum evolutivo entre nós e todos os outros animais.