Um SUS para os animais
“Um cão morrendo à míngua no portão do seu dono prediz a ruína do estado” (William Blake)
Em 5 de julho de 1948, o mundo testemunhou o nascimento do programa social mais ambicioso da história: era inaugurado no Reino Unido o National Health Service, ou NHS, como viria a ser conhecido o primeiro sistema nacional de saúde pública do mundo. Fruto da audácia e do idealismo do radical Ney Bevan, ministro da saúde da Inglaterra, o NHS surgiu num contexto de miséria e desamparo que tinha de chegar ao fim. O sofrimento silencioso de milhões de pessoas pobres, que tinham de escolher entre comer ou buscar ajuda médica, a dor e o drama de operários, donas de casa e crianças humildes finalmente encontrariam o alento do socorro de que tanto necessitavam.
O NHS veio para transformar a face da assistência social no mundo, substituindo o abandono pela esperança e o desengano pelo recomeço. Da Inglaterra para o mundo, vieram depois do NHS, o Servizio Sanitario Nazionale (SSN) na Itália em 1978, e o SUS no Brasil em 1988, para citar apenas os dois exemplos mais notáveis de sistemas públicos de saúde que seguiram os passos do pioneiro sistema britânico. Em poucas décadas, a saúde pública deixou de ser utopia para se tornar um instrumento imprescindível de promoção de bem-estar para a população, sobretudo a mais vulnerável.
No Brasil do ano 2025, a estimativa populacional chegou a cerca de 213 milhões de pessoas 1 e 160 milhões de animais de estimação 2. Os cães e os gatos parecem onipresentes na paisagem contemporânea do país. Mas se é verdade que o amor aos pets é comum entre nós, lamentavelmente a assistência a que têm acesso não corresponde ao afeto que lhes dedicamos. País afora, milhões de animais sofrem com a falta de atendimento veterinário regular. A grande quantidade de abrigos e ONGs, de voluntários e de bons samaritanos, e as inciativas isoladas de prefeituras que, diretamente ou mediante convênio com ONGs, prestam serviços médicos aos animais de companhia carentes infelizmente não é suficiente para atender a monumental demanda presente.
É chegada a hora de debatermos uma solução nacional para o problema da saúde dos animais desassistidos. Uma solução que certamente demandará coragem, pioneirismo e esforço fiscal por parte do estado, mas que se afigura inadiável. A criação de um serviço que, guardadas as devidas proporções, signifique para os cães e gatos o que a criação do NHS na Inglaterra, e do SUS, no Brasil, representou para as populações mais vulneráveis em termos de melhoria da qualidade de vida e bem-estar.
O primeiro passo é conquistar corações e mentes com uma ampla campanha cívica, que arrebate uma sólida e convicta maioria popular. É necessário promover a discussão para que a ideia ganhe as ruas, contagie as pessoas e, por fim, ecoe no parlamento.
O realismo e a responsabilidade com as contas públicas devem permear o processo. Não podemos nos esquecer de que todos os serviços públicos são custosos para o contribuinte, sobretudo os serviços médicos, que incorporam constantemente novas tecnologias e procedimentos – e que a medicina veterinária segue o mesmo caminho.
A compaixão com o sofrimento animal não pode ofuscar a nossa visão quanto ao que é possível fazer no curto prazo. Austeridade e caridade não são incompatíveis. Ao contrário, em geral é a primeira qualidade que viabiliza a segunda.
Propomos aos interessados na causa animal em geral, e sobretudo às pessoas convencidas da necessidade de atuação do governo federal em defesa dos animais carentes, que somem sua voz à nossa na defesa da criação de um SUS Animal.
Daremos um passo importante na promoção do diálogo sobre o tema no dia 7 de março de 2026, a partir das 9 horas, com a realização do Fórum SUS Animal, na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), em um evento sem fins lucrativos e apartidário. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas pelo aplicativo Sympla.
https://www.sympla.com.br/evento/forum-sus-animal/3322126
Para conhecer melhor o projeto, envie um e-mail para [email protected]
Alberto Luiz Simões Caldeira, 34, é servidor de carreira do Poder Judiciário Federal e autor do Livro SUS Animal um manifesto
Angelo Stopiglia, 73, é professor emérito da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP
2-https://veja.abril.com.br/comportamento/brasil-supera-160-milhoes-de-pets-e-nao-sao-so-caes-e-gatos/