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Editorial

Como você se posiciona diante da grande mudança?

Matéria escrita por:

Maria Angela Sanches Fessel

25 de set de 2026


Tudo sempre esteve em constante mudança. Como dizia o filósofo grego Heráclito, nunca entramos no mesmo rio, porque as águas da segunda vez já são outras, e nós mesmos também já mudamos. Mas a mudança atual é voraz. Temos a mudança climática superando nossa capacidade de prever ou mesmo aceitar as previsões do futuro, principalmente em relação a o quanto ele será desastroso, e já vivemos o momento em que não temos mais reais condições de lhe opor efetiva resistência e nos negamos a aceitar e a buscar minimizar seus efeitos.

Além do clima, a revolução digital, especialmente com a chegada da IA, veio para liquidar certezas muito antigas, como a ideia de que somos nós que estamos no controle do conhecimento e das decisões. Surge a questão: Ainda temos como defender algo de nossa privacidade? Ainda somos capazes de decidir algo de fato como indivíduos e como sociedade, ou são os algoritmos que definem agora a maioria dos nossos passos?

Serenidade, atenção redobrada, reflexão e calma para lidar com tudo isso. Sim, é o que se exige, e precisamos manter isso o tempo todo, para ter alguma noção de qual é o chão em que estamos pisando e lembrar que ele ainda irá mudar ao longo do mês, da semana ou do dia. O nosso maior risco é o de sermos sobrepujados definitivamente e, o que é pior, com a nossa preguiçosa condescendência. Outro grande risco é o de parar de pensar, parar de investigar, não buscar mais respostas dentro de nossa mente e deixar de acreditar em nossas avaliações, delegando isso de uma vez, encantados com a rapidez e competência da máquina e entregando a ela o poder de apontar o melhor caminho; eximindo-nos da nossa responsabilidade e deixando que as coisas tomem o rumo que for definido por outras instâncias, pela máquina e pelos donos dela, acreditando que são eles que sabem das coisas, abrindo mão de nossa autonomia de decisão, transformados em algoritmos submissos (a propósito, leia o importante artigo sobre IA nesta edição).

Nossa atenção vem sendo direcionada, subtraída, sequestrada por quem controla os instrumentos da revolução digital. E o resultado concreto não é nada favorável a nós. As mudanças políticas no mundo inteiro mostram que cedemos o controle das consciências àqueles que têm o poder de exercê-lo, via manipulação dos fatos, das narrativas, com fake news em série, buscando interesses próprios, destruindo mecanismos democráticos, direitos civis arduamente conquistados, noções de cidadania e de compromisso social, e propondo cuidar de nós do jeito deles. Impede-se que haja maior consciência sobre o real estado da degradação ecológica, social, humana, e dos caminhos que de fato poderiam nos levar a uma posição responsável e consciente dos riscos e da manipulação a que estamos aceitando ser submetidos. O planeta está sendo destruído, nossas sociedades estão sendo tomadas de assalto, a imposição da força e do poderio militar e econômico naturaliza as agressões a países, à natureza, à nossa condição humana. É hora de dizer não a essa aceitação passiva e assumir a responsabilidade por nosso presente e pelo futuro das próximas gerações.

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A decepção com o estado das coisas, com as guerras, com a destruição dos recursos naturais, desde água e ar, e também com a dizimação das espécies vem sendo aproveitada para induzir pessoas a outro risco ainda pior, e crescente em alguns locais do planeta, que é acreditar que o melhor é o fim do mundo mesmo, que nossa espécie somente sabe destruir e que a destruição (Armagedon) é a solução final. Infelizmente, já há hoje muita gente sendo direcionada para essa tendência, e a ameaça de uma terceira guerra mundial paira cada vez mais sobre o horizonte.

Corremos hoje o risco muito real de assistirmos impotentes à destruição da nossa própria dignidade.

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