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Clinica Veterinária

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Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro – CRMV-RJ

Eduardo Mayhe Ferreira

Presidente da Comissão de Desastres do CRMV-RJ analisa os impactos do Super El Niño, os desastres esperados como consequência, as medidas preventivas que devem acontecer e a participacão dos médicos-veterinários

Matéria escrita por:

Clínica Veterinária

5 de ago de 2026

Créditos: CRMV-RJ / chat gpt Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

As previsões do Super El Niño que já começaram a se manifestar são bastante preocupantes e os desastres consequentes já estão a ocorrer e tendem a se intensificar nos meses à frente. Secas e incêndios, vendavais e enchentes, entre outros, desencadeiam sofrimento, perdas, epidemias, e requerem planejamento e preparação.

Eduardo Mayhe Ferreira, presidente da Comissão de Desastres do CRMV-RJ, explica o papel do médico-veterinário nos diversos cenários que provavelmente enfrentaremos por todo o país, bem como as medidas preventivas e preparatórias que entidades, governos e profissionais precisam conhecer e se preparar para colocar em prática.

Revista Clínica Veterinária (CV) –  De que forma o El Niño pode aumentar os riscos de desastres naturais e quais são os principais impactos para a saúde animal?

Eduardo Mayhe Ferreira (EM) – O El Niño altera os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta e, no Brasil, pode intensificar eventos como enchentes, secas, ondas de calor e incêndios florestais. Esses fenômenos afetam diretamente os animais, seja pela perda de habitat, pela escassez de água e alimento, pelo aumento do estresse térmico ou pelo deslocamento de espécies para áreas urbanas. Além disso, favorecem a circulação de agentes infecciosos e aumentam o risco de zoonoses, comprometendo também a saúde pública e a produção animal.

Nesse contexto, a Medicina Veterinária de Desastres assume um papel estratégico. O médico-veterinário não atua apenas no resgate e atendimento dos animais afetados, mas também na avaliação dos riscos sanitários, na proteção da fauna, na segurança dos alimentos e na prevenção de doenças. Quando falamos dos impactos do El Niño, estamos tratando de um desafio que exige uma visão integrada, em que a saúde animal, humana e ambiental são indissociáveis.

 

CV –  Qual é o papel do médico-veterinário antes, durante e após um desastre relacionado a eventos climáticos extremos?

EM – A atuação do médico-veterinário começa muito antes da ocorrência de um desastre. O profissional participa da elaboração de planos de contingência, orienta responsáveis por animais de companhia ou selvagens, bem como produtores rurais, identifica vulnerabilidades, realiza triagens e contribui para a preparação das equipes que atuarão em situações de emergência. Esse trabalho preventivo é essencial para reduzir perdas e tornar a resposta mais rápida e eficiente.

Durante o desastre, o médico-veterinário integra equipes multidisciplinares realizando triagem, atendimento, manejo e resgate de animais, além de monitorar riscos sanitários e epidemiológicos. Após a fase crítica, acompanha a recuperação dos animais, auxilia na reunificação com seus responsáveis e avalia os impactos deixados pelo evento. Trata-se de uma atuação contínua, que acompanha todas as etapas da gestão de riscos e reforça a importância da prevenção como eixo central da Medicina Veterinária de Desastres.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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CV –  Como a Medicina Veterinária de Desastres se insere no conceito de Saúde Única e por que essa abordagem é essencial em situações de emergência?

EM – Os desastres deixam evidente que a saúde humana, animal e ambiental estão profundamente conectadas. Uma enchente ou um incêndio florestal não afeta apenas os animais, mas modifica ecossistemas, favorece a disseminação de doenças, compromete a produção de alimentos e impacta diretamente as comunidades. É justamente essa interdependência que se fundamenta o conceito de Saúde Única.

Nesse cenário, o médico-veterinário desempenha um papel que vai muito além da assistência clínica. Ele atua na vigilância epidemiológica, no controle de zoonoses, na proteção da fauna, na segurança dos alimentos e no planejamento das ações de resposta. Ao proteger os animais, contribui também para reduzir riscos à saúde pública e fortalecer a capacidade de recuperação das comunidades afetadas, tornando a Saúde Única uma prática concreta e indispensável em situações de desastre.

 

CV – Quais conhecimentos e competências um médico-veterinário deve desenvolver para atuar em operações de resposta a desastres?

EM – A formação clínica é fundamental, mas não suficiente para quem deseja atuar em desastres. É preciso compreender princípios de gerenciamento de riscos, sistema de comando de incidentes, biossegurança, vigilância epidemiológica, logística humanitária e técnicas de manejo e resgate de diferentes espécies. Essas competências permitem que o profissional trabalhe de forma segura, coordenada e eficiente em ambientes complexos e frequentemente adversos.

Além do conhecimento técnico, são indispensáveis habilidades como trabalho em equipe, comunicação, liderança e capacidade de tomada de decisão sob pressão. A participação em cursos, simulações e treinamentos promovidos por instituições como o CFMV, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros contribui para preparar o médico-veterinário para uma atuação cada vez mais necessária diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos.

 

CV – Onde os profissionais interessados podem buscar capacitação em Medicina Veterinária de Desastres? Existem cursos, especializações, treinamentos ou certificações recomendados?

EM – A Medicina Veterinária de Desastres é uma área relativamente recente no Brasil, mas que tem avançado de forma significativa. O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) vem desempenhando um papel importante nesse processo, promovendo simpósios, produzindo materiais técnicos e estimulando a criação de comissões especializadas nos Conselhos Regionais. Além disso, cursos oferecidos por instituições de ensino, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros agregam conhecimentos fundamentais sobre gestão de emergências, resgate e sistema de  comando de incidentes.

Também é importante acompanhar a produção científica nacional e internacional sobre mudanças climáticas, redução de riscos de desastres e Saúde Única. O aprendizado, porém, não deve se limitar à teoria. Participar de simulações e treinamentos práticos permite ao médico-veterinário compreender a dinâmica de uma operação real e desenvolver habilidades que dificilmente seriam adquiridas apenas em sala de aula.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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CV – Há protocolos nacionais ou internacionais que orientam a atuação do médico-veterinário em desastres? Quais documentos ou referências são considerados fundamentais?

EM – Sim. No Brasil, um dos principais marcos é a Resolução CFMV nº 1.511/2023, que estabelece diretrizes para a atuação de médicos-veterinários e zootecnistas em desastres em massa envolvendo animais. O Plano Nacional de Contingência de Desastres em Massa Envolvendo Animais e os documentos produzidos pela Comissão Nacional de Desastres do CFMV também são referências importantes para orientar o planejamento e a resposta a esses eventos.

No cenário internacional, destacam-se as diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que reforçam a necessidade de integrar os animais aos planos de gestão de riscos e de adotar a abordagem de Saúde Única. Esses documentos mostram que a proteção dos animais deve fazer parte das estratégias oficiais de resposta a emergências, e não ser tratada como uma ação secundária.

 

CV –  Como um médico-veterinário pode integrar equipes de resposta a desastres? Quais instituições costumam contar com esses profissionais?

EM – A atuação em desastres deve ocorrer de forma organizada e integrada. O médico-veterinário pode participar de equipes vinculadas à Defesa Civil, ao Corpo de Bombeiros, às secretarias de saúde, agricultura e meio ambiente, além de universidades, organizações não governamentais e órgãos de fiscalização ambiental. Em todos os casos, o trabalho é desenvolvido dentro de uma estrutura de comando, em conjunto com profissionais de diferentes áreas.

É importante destacar que a atuação não depende apenas da convocação durante uma emergência. Muitos profissionais colaboram na elaboração de planos de contingência, na capacitação de equipes e em exercícios simulados, fortalecendo a preparação dos municípios e estados. Quanto maior essa integração antes do desastre, mais eficiente tende a ser a resposta quando um evento extremo acontece.

 

CV –  Além do atendimento clínico aos animais, quais outras funções o médico-veterinário desempenha durante uma operação de emergência?

EM – O atendimento aos animais é apenas uma das atribuições do médico-veterinário em um desastre. O profissional também participa da vigilância epidemiológica, avalia riscos de disseminação de zoonoses, orienta medidas de biossegurança, organiza abrigos temporários, auxilia na identificação e reunificação de animais com seus responsáveis e contribui para a proteção da fauna silvestre. Dependendo da situação, pode ainda atuar na inspeção de alimentos de origem animal e na avaliação dos impactos ambientais provocados pelo evento.

Essa atuação multidisciplinar demonstra que a Medicina Veterinária de Desastres vai muito além do cuidado individual com os animais. Ao integrar conhecimentos de saúde pública, meio ambiente, produção animal e bem-estar, o médico-veterinário contribui para reduzir riscos à população, preservar os meios de subsistência das comunidades afetadas e apoiar a recuperação das áreas atingidas, sempre dentro da perspectiva da Saúde Única.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt­

 

CV – Quais são os principais desafios enfrentados pelos médicos-veterinários em cenários de desastres naturais e como esses desafios podem ser minimizados por meio de planejamento e preparação?

EM – Os desafios começam pela própria complexidade dos desastres. Muitas vezes, o acesso às áreas afetadas é difícil, há escassez de recursos, necessidade de decisões rápidas e atuação em ambientes inseguros. Soma-se a isso o grande número de animais que podem precisar de assistência simultaneamente, exigindo priorização, coordenação entre equipes e preparo técnico para lidar com diferentes espécies e situações.

Esses desafios podem ser reduzidos com investimento em prevenção. Planos de contingência, treinamentos periódicos, exercícios simulados e a integração entre médicos-veterinários, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e demais órgãos tornam a resposta mais eficiente. Quanto melhor o planejamento, menor a improvisação e maiores as chances de proteger vidas, reduzir perdas econômicas e preservar a saúde pública.

 

CV – Que orientações os médicos-veterinários podem oferecer previamente aos responsáveis, produtores rurais e gestores para reduzir os impactos do El Niño sobre os animais e aumentar a capacidade de resposta das comunidades?

EM – A principal orientação é que os animais sejam incluídos nos planos de emergência das famílias, propriedades rurais e instituições. Isso significa manter a identificação dos animais atualizada, organizar um kit de emergência com água, alimento, medicamentos e documentos, conhecer rotas de evacuação e definir previamente para onde eles serão levados caso seja necessário deixar a área.

No meio rural, o planejamento também envolve proteger fontes de água, garantir reservas estratégicas de alimento e estabelecer protocolos para a retirada segura dos rebanhos. Mais do que responder aos desastres, a medicina veterinária busca fortalecer a cultura da prevenção, ajudando comunidades a se prepararem para eventos extremos que tendem a se tornar mais frequentes.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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CV – Quais pesquisas, livros ou publicações o senhor recomenda para os profissionais que desejam aprofundar seus conhecimentos em Medicina Veterinária de Desastres e adaptação às mudanças climáticas?

EM – Quem deseja se aprofundar na área deve acompanhar, em primeiro lugar, as publicações do Conselho Federal de Medicina Veterinária, especialmente os documentos produzidos pela Comissão Nacional de Desastres em Massa Envolvendo Animais, além do documentário Desastres – A Linha de Frente, que apresenta experiências práticas e evidencia a importância da atuação do médico-veterinário em situações de emergência. Também são referências importantes os materiais produzidos pela WOAH, FAO e OMS sobre Saúde Única e gestão de riscos.

Também merecem destaque as seguintes obras nacionais, que contribuem significativamente para a formação de profissionais que desejam atuar na área:

GRESELE, Bianca Stevanin; FREIRE, Anna Laura Leal (org.). Saúde mental na Medicina Veterinária: um olhar multidisciplinar. 1. ed. Londrina, PR: Lucto Editora, 2025.

PINTO, Aldair Junio Woyames. Manual técnico de socorrismo e resgate animal. 1. ed. São Paulo: Pimenta Cultural, 2021. 234 p. ISBN 978-65-5939-286-5.

Essas obras abordam, respectivamente, a preparação emocional e psicológica dos profissionais que atuam em cenários de alta complexidade e os fundamentos técnicos do atendimento, manejo e resgate de animais em situações de emergência, constituindo importantes referências para quem deseja aprofundar seus conhecimentos em Medicina Veterinária de Desastres.

No campo científico, há um número crescente de estudos sobre Medicina Veterinária de Desastres, adaptação às mudanças climáticas, redução de riscos de desastres e epidemiologia de eventos extremos. É uma área em constante evolução, o que torna a atualização permanente uma necessidade para os profissionais que desejam atuar de forma qualificada.

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CV – Considerando a maior frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos observados nos últimos anos, o Brasil está preparado para utilizar plenamente o potencial da Medicina Veterinária de Desastres? O que ainda precisa avançar?

EM – O Brasil avançou de forma significativa nos últimos anos. A criação de normas específicas, o fortalecimento da atuação do CFMV, a realização de eventos científicos e a crescente inserção do tema nas discussões sobre Saúde Única demonstram que a Medicina Veterinária de Desastres deixou de ser uma área periférica para ocupar um espaço estratégico nas políticas de gestão de riscos.

Ainda assim, há um longo caminho pela frente. É preciso ampliar a formação dos profissionais desde a graduação, fortalecer as comissões estaduais, inserir de forma mais consistente os médicos-veterinários nos planos municipais e estaduais de Defesa Civil e investir em pesquisa e prevenção. Os eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes, e isso exige que o país esteja cada vez mais preparado para proteger não apenas os animais, mas toda a sociedade.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt

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CV – Quais ações o CRMV-RJ vem desenvolvendo no Estado do Rio de Janeiro para fortalecer a Medicina Veterinária de Desastres e ampliar a integração entre as instituições responsáveis pela gestão de riscos?

EM – O CRMV-RJ tem atuado de forma proativa para fortalecer a Medicina Veterinária de Desastres no Estado do Rio de Janeiro, buscando integrar a atuação dos médicos-veterinários às políticas públicas de prevenção e resposta a eventos extremos. Entre as principais iniciativas está a formalização de um Acordo de Cooperação Técnica com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), voltado ao fortalecimento de ações conjuntas de proteção animal e apoio em situações de emergência.

O Conselho também está em fase de celebração de um Acordo de Cooperação Técnica com o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (ICICT/Fiocruz) e com o Ibama, ampliando a articulação entre as áreas de saúde, meio ambiente e proteção da fauna sob a perspectiva da Saúde Única.

Além disso, o CRMV-RJ encaminhou solicitação ao Governo do Estado para integrar o Comitê Estadual relacionado às ações de enfrentamento dos impactos do El Niño e de outros eventos climáticos extremos, colocando a expertise da medicina veterinária à disposição do planejamento estratégico e da gestão de riscos. Essas iniciativas demonstram o compromisso institucional do CRMV-RJ em contribuir para a construção de políticas públicas cada vez mais integradas, preventivas e eficientes.

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Créditos: CRMV-RJ / chat gpt