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Neurologia

Raiva no Brasil

Uma zoonose antiga, um risco atual

Matéria escrita por:

Elídia Zotelli dos Santos, Herbert Sousa Soares

6 de mar de 2026

Créditos: Uwe Schmidt Créditos: Uwe Schmidt

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Introdução

A raiva é uma das doenças infecciosas mais antigas descritas na história da medicina, mas apesar dos avanços científicos e da disponibilidade de vacinas eficazes, a enfermidade permanece como um importante problema de saúde pública em diversos países. Estima-se que cerca de 59 mil pessoas ainda morram anualmente em decorrência da raiva em todo o mundo, especialmente em regiões como a Ásia e África 1.

No Brasil, a implementação de programas nacionais de vacinação antirrábica em cães e gatos resultou em expressiva redução da transmissão urbana, tornando raros os casos humanos associados a esses animais. Contudo, a circulação do vírus da raiva em reservatórios silvestres, particularmente morcegos e primatas não humanos, mantém o risco de infecção humana e animal. A ocorrência recente de novos casos humanos evidencia que a raiva é uma ameaça reemergente e reforça a necessidade de vigilância contínua e integração da saúde única.

 

Etiologia e patogênese

O vírus da raiva pertence ao gênero Lyssavirus e à família Rhabdoviridae. Trata-se de um vírus RNA de fita simples, com tropismo pelo sistema nervoso central. Sua estrutura molecular, especialmente a glicoproteína G, desempenha papel fundamental na adesão viral, disseminação neurotrópica e indução de resposta imune protetora 2.

Após a inoculação, normalmente por mordidas ou arranhões, o vírus replica-se localmente em tecidos musculares e células do sistema imune periférico, em seguida migrando para o sistema nervoso central por transporte axonal retrógrado, chegando ao encéfalo e à medula espinhal, provocando encefalomielite progressiva. Essa disseminação centrífuga permite a infecção de glândulas salivares, favorecendo sua transmissão. O período de incubação é variável, podendo durar de semanas a 3 meses, influenciado por fatores como local da inoculação, carga viral e distância até o sistema nervoso central 3.

Os sinais clínicos são predominantemente neurológicos como paralisia progressiva, ataxia, convulsões, sialorreia, anorexia, alterações de deglutição e prostração, enquanto a agressividade, historicamente descrita como manifestação clássica, tem sido observada com menor frequência 3.

Diferente da literatura que frequentemente menciona que animais infectados por raiva desenvolvem sinais clínicos e evoluem para óbito em cerca de 10 dias após o aparecimento dos primeiros sintomas, evidências científicas indicam que o período de incubação pode ser altamente variável e durar vários meses, com casos relatados de evolução clínica tardia além dos padrões convencionais 2.

 

Transmissão e reservatórios

A transmissão da raiva ocorre principalmente pelo contato da saliva contaminada com tecidos lesionados ou mucosas. Embora cães e gatos tenham sido historicamente os principais transmissores do vírus ao ser humano, atualmente no Brasil a maioria dos casos humanos está associada ao ciclo silvestre 4.

Os morcegos representam o principal reservatório do vírus da raiva no país, abrigando diferentes variantes virais. Primatas não humanos, especialmente saguis (Callithrix spp.), têm sido frequentemente implicados em surtos regionais, sobretudo na região Nordeste. Gatos domésticos, embora menos frequentemente acometidos, desempenham papel relevante como hospedeiros, particularmente devido ao comportamento predatório e à interação com morcegos, configurando risco adicional para a transmissão ao ser humano 4.

Alterações antrópicas, como desmatamento, expansão agrícola e fragmentação de habitats, levam à redução das áreas de vida naturais de espécies silvestres e promovem maior contato entre vida selvagem, animais domésticos e seres humanos, criando um contexto propício para doenças reemergentes como a raiva 5.

 

Panorama epidemiológico da raiva no Brasil (2024 – 2025)

Entre 2024 e 2025, o Brasil registrou novos casos confirmados de raiva humana nos estados de Pernambuco, Ceará, Amapá, Piauí e Tocantins. Esses casos estavam predominantemente associados a variantes virais de origem silvestre, com destaque para morcegos e primatas não humanos. Observa-se concentração dos casos nas regiões Norte e Nordeste, refletindo maior circulação viral nesses ambientes e maior exposição humana aos reservatórios naturais 6.

Na região Sudeste, casos isolados de raiva em animais domésticos continuam sendo relatados, desafiando a noção de completa eliminação da raiva urbana. No estado de São Paulo, foram confirmados nove casos de raiva em morcegos entre janeiro e fevereiro de 2026, evidenciando a circulação ativa do vírus em áreas urbanas 7.

No mesmo período, o estado do Rio de Janeiro também notificou um morcego com diagnóstico positivo para raiva, reforçando a persistência do ciclo silvestre em áreas densamente povoadas 8. Em 2025, o diagnóstico laboratorial de raiva foi confirmado em um gato no município de Jundiaí, SP, constituindo o primeiro caso registrado na cidade desde 1983. Esse evento desencadeou a retomada de ações de vigilância epidemiológica e a intensificação da vacinação de cães e gatos na área afetada.

Relatos anteriores na capital paulista, como o caso de um cão infectado pela variante viral AgV3 em 2023, reforçam a capacidade de variantes silvestres alcançarem animais domésticos em ambientes metropolitanos. Além disso, na região de Cotia e municípios vizinhos, registros epidemiológicos apontaram aumento de casos positivos em animais e múltiplos atendimentos humanos para profilaxia pós-exposição, ainda que esses dados sejam pouco sistematizados em publicações científicas. Em conjunto, esses eventos reforçam que, mesmo em regiões tradicionalmente consideradas de baixo risco, a ocorrência de raiva em animais domésticos deve ser interpretada como um evento sentinela, sinalizando circulação viral ativa e a necessidade de vigilância contínua, além da manutenção permanente das campanhas de vacinação antirrábica 9,10.

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Animais de companhia ao predar morcegos e micos podem se infectar com vírus da raiva. Créditos: MASF Firefly Image 3

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O papel do médico-veterinário na vacinação

A vacinação antirrábica de cães e gatos é reconhecida como a principal estratégia para prevenção da raiva urbana e manutenção da imunidade coletiva, e é muito efetiva 11.

Diretrizes internacionais recomendam que, em países onde a raiva é endêmica, a vacina deve ser considerada essencial e anual, independentemente do estilo de vida do animal 12. Um estudo realizado na Colômbia, demonstrou que cães e gatos vacinados com apenas uma dose de vacina antirrábica durante campanhas de vacinação em massa apresentaram baixa proporção de títulos de anticorpos neutralizantes considerados protetores >0,5IU/mL, sugerindo que o esquema de dose única pode ser insuficiente para garantir imunidade populacional adequada em determinados contextos epidemiológicos 13.

Em áreas de alto risco (por exemplo, onde a raiva é endêmica), uma segunda dose da vacina antirrábica pode ser administrada 2 a 4 semanas após a primeira dose, mesmo que a vacina padrão seja uma única dose após as 12 semanas de idade. Embora a vacinação antirrábica seja frequentemente iniciada a partir das 12 semanas de idade, evidências imunológicas indicam que a administração de reforço ou a vacinação em idade mais avançada, como às 16 semanas, pode otimizar a resposta imune, especialmente em filhotes ainda sob influência de anticorpos maternos 12.

Narrativas recorrentes que questionam a necessidade da vacinação antirrábica anual, a imunização de animais idosos, gatos, animais sem raça definida ou mantidos exclusivamente em ambiente domiciliar, bem como a ideia de que uma única dose conferiria proteção vitalícia ou de que os riscos vacinais superariam seus benefícios, carecem de respaldo científico e representam risco à saúde animal e pública, uma vez que a raiva permanece endêmica e negligenciada no Brasil; nesse contexto, a vacinação sistemática ao longo de toda a vida, conforme protocolos oficiais e avaliação individual do médico-veterinário, constitui medida essencial de prevenção de uma zoonose fatal.

Nesse cenário, o médico-veterinário assume papel central não apenas na prática clínica, mas também como agente de Saúde Única, sendo responsável por difundir informação baseada em evidências, mitigar interpretações equivocadas sobre vacinação, atuar de forma ativa na defesa e no fortalecimento de políticas públicas de prevenção e exercer pressão técnica sobre o mercado para garantir acesso contínuo, seguro e equitativo às vacinas antirrábicas.

 

Imunização ocupacional do médico-veterinário

O médico-veterinário integra o grupo de risco ocupacional para a raiva, especialmente quando atua em clínica de pequenos animais, vigilância sanitária, resgate e manejo de fauna silvestre. Recomenda-se a vacinação pré-exposição associada ao monitoramento periódico anual dos títulos de anticorpos neutralizantes, conforme protocolos de biossegurança 14.

Essa medida é fundamental para a proteção individual do profissional e para a segurança das equipes envolvidas no manejo de casos suspeitos.

 

Conduta frente à suspeita de raiva

Diante da suspeita clínica de raiva em animais, especialmente na presença de sinais neurológicos e histórico de contato com fauna silvestre, o médico-veterinário deve evitar manipulação sem equipamentos de proteção individual, proceder ao isolamento do animal e notificar imediatamente os órgãos de vigilância sanitária. A raiva é uma doença de notificação compulsória imediata, e a resposta rápida é determinante para a proteção da saúde pública 15.

Nos casos em que o animal com suspeita de raiva evolui a óbito ou é submetido à eutanásia, o evento deve ser notificado imediatamente às autoridades de vigilância epidemiológica – Divisão de Vigilância de Zoonoses (DVZ) da cidade, sendo o corpo (em caso de animais pequenos) corretamente acondicionado, refrigerado e encaminhado a laboratório oficial para diagnóstico, sendo contraindicada qualquer manipulação ou necropsia fora do sistema de vigilância sanitária 1,13,15.

Familiares e contactantes de pacientes com suspeita de raiva devem ser imediatamente orientados a procurar os serviços de saúde para avaliação de risco e indicação de profilaxia pós-exposição, especialmente quando houver histórico de contato com saliva, mordidas, arranhões ou manipulação de secreções, uma vez que a raiva é uma zoonose de evolução fatal após o início dos sinais clínicos 15.

Cães e gatos contactantes, ainda que assintomáticos, que tenham tido contato com animais suspeitos de raiva ou com animais silvestres potencialmente infectados devem ser submetidos à avaliação sanitária, com adoção de medidas que incluem observação clínica, reforço vacinal imediato e quarentena, conforme o status vacinal prévio e as diretrizes da vigilância epidemiológica 15.

 

Considerações finais

A ocorrência recente de casos humanos de raiva no Brasil demonstra que, apesar dos avanços no controle da doença, o risco permanece presente, sobretudo em função do ciclo silvestre. A manutenção de altas coberturas vacinais em cães e gatos, a vigilância epidemiológica contínua e a capacitação dos profissionais de saúde são fundamentais para prevenir novos óbitos por uma doença prevenível, porém ainda fatal.

 

Referências

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02-SINGH, R. ; SINGH, K. P. ; CHERIAN, S. ; SAMINATHAN, M. ; KAPOOR, S. ; MANJUNATHA REDDY, G. B. ; PANDA, S. ; DHAMA, K. Rabies – epidemiology, pathogenesis, public health concerns and advances in diagnosis and control: a comprehensive review. Veterinary Quarterly, v. 37, n. 1, p. 212-251, 2017. Doi: 10.1080/01652176.2017.1343516.

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04-DE LIMA, J. S. ; MORI, E. ; KMETIUK, L. B. ; BIONDO, L. M. ; BRANDÃO, P. E. ; BIONDO, A. W. ; MAIORKA, P. C. Cat rabies in Brazil: a growing One Health concern. Frontiers in Public Health, v. 11, e1210203, 2023. Doi: 10.3389/fpubh.2023.1210203.

05-MÜLLER, T. ; DENZIN, N. ; VOS, A. ; FREULING, C. Incubation periods and mortality outcomes following rabies virus infection in mesocarnivorous reservoir hosts: implications for experimental design and veterinary policy – a review and meta-analysis. Virology Journal, v. 22, p. 374, 2025. Doi: 10.1186/s12985-025-02996-0.

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07-BRASIL. Estado de São Paulo confirma nove casos de raiva em morcegos somente em 2026. Pleno.News, Brasil, 2026. Disponível em: <https://pleno.news/brasil/estado-de-sp-confirma-nove-casos-de-raiva-em-morcegos-somente-em-2026.html>. Acesso em 4 de fevereiro de 2026.

08-RIO DE JANEIRO. Niterói-RJ confirma caso de raiva: CRMV-RJ encaminha ofício para a prefeitura reforçando a necessidade da desburocratização da profilaxia pré-exposição. CRMV-RJ, 6 fev. 2026. Disponível em: <https://www.crmvrj.org.br/niteroi-rj-confirma-caso-de-raiva-crmv-rj-encaminha-oficio-para-a-prefeitura-reforcando-a-necessidade-da-desburocratizacao-da-profilaxia-pre-exposicao/>. Acesso em 6 de fevereiro de 2026.

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