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Diagnóstico por Imagem

Aspectos tomográficos do mieloma múltiplo em um cão – relato de caso


Tomographic aspects of multiple myeloma in a dog – case report

Aspectos tomográficos del mieloma múltiple en un perro – informe de caso

 

Clínica Veterinária, Ano XXXI, n. 180, p. 52-59, 2026
Doi: 10.46958/rcv.2026.XXXI.n.180.p.52-59

 

Resumo: O mieloma múltiplo (MM) é uma neoplasia linfoproliferativa rara em cães e gatos. Não há predileção por raça ou sexo e acomete animais na faixa etária de 8 a 14 anos. Os sinais clínicos associados ao MM são inespecíficos e incluem letargia, fraqueza e anorexia. O diagnóstico do MM é baseado na detecção de gamopatia monoclonal no soro ou na urina, lesões osteolíticas por meio de exames de imagem e no aumento de mais de 20% de plasmócitos na medula óssea por meio de citologia aspirativa ou biópsia por fragmento e histopatologia. O tratamento consiste geralmente no uso do melfalano combinado com prednisona que proporciona tempo médio de sobrevivência de 540 dias em cães. Este relato descreve a contribuição da tomografia computadorizada no diagnóstico do mieloma múltiplo em uma cadela, SRD, de 12 anos de idade que apresentava ataxia, fraqueza e redução da propriocepção em membros pélvicos.

Unitermos: oncologia, medula óssea, osteólise, tomografia computadorizada

 

Abstract: Multiple myeloma (MM) is a rare lymphoproliferative neoplasm in dogs and cats. There is no predilection for breed or sex and it affects animals between the ages of 8 and 14. The clinical signs associated with MM are non-specific and include lethargy, weakness and anorexia. The diagnosis of MM is based on the detection of monoclonal gammopathy in serum or urine, osteolytic lesions through imaging tests and an increase of more than 20% in plasma cells in the bone marrow through aspiration cytology or a fragment biopsy and histopathology. Treatment usually consists of the use of melphalan combined with prednisone, which provides a mean survival time of 540 days in dogs. This report describes the contribution of computed tomography in the diagnosis of multiple myeloma in a 12-year-old mixed-breed bitch who presented ataxia, weakness and reduced proprioception in the pelvic limbs.

Keywords: oncology, bone marrow, osteolysis, computed tomography

 

Resumen: El mieloma múltiple (MM) es una neoplasia linfoproliferativa poco frecuente en perros y gatos. No hay predilección por raza o sexo y afecta a animales entre 8 y 14 años. Los signos clínicos asociados al MM son inespecíficos e incluyen letargo, debilidad y anorexia. El diagnóstico de MM se basa en la detección de gamopatía monoclonal en suero u orina, lesiones osteolíticas mediante pruebas de imagen y un aumento de más del 20% de plasmocitos en la médula ósea mediante citología por aspiración o biopsia de un fragmento y histopatología. El tratamiento suele consistir en el uso de melfalán combinado con prednisona, que proporciona un tiempo medio de supervivencia de 540 días en perros. El objetivo de este informe es describir la contribución de la tomografía computarizada en el diagnóstico de mieloma múltiple en una perra mestiza de 12 años de edad que presentaba ataxia, debilidad y disminución de la propiocepción en los miembros pélvicos.

Palabras clave: oncología, médula ósea, osteólisis, tomografía computarizada

 

Introdução

O mieloma múltiplo (MM) é uma neoplasia hematológica rara em cães e gatos, originado da proliferação dos linfócitos B na medula óssea (MO), que produzem e secretam, de forma desproporcional, imunoglobulinas (Ig) monoclonais ou os fragmentos das mesmas, que são chamados de proteína M 1,2. Embora a sua incidência seja baixa, essa condição pode representar até 8% das neoplasias hematopoiéticas em cães 2,3 afetando principalmente animais idosos, com média de idade entre oito e nove anos em cães e entre 12 e 14 anos em gatos 4. Também foi relatada de forma atípica em três cães jovens com menos de 12 meses de idade 5 e em cadela de três anos 6,7. Diferente de outras neoplasias, o mieloma múltiplo não possui predileção por raça ou sexo, o que pode dificultar a criação de critérios de risco baseados em fatores genéticos ou de linhagem 7.

Os sinais clínicos do mieloma múltiplo são variáveis e podem incluir letargia, fraqueza, anorexia, dor óssea, lesões líticas em ossos longos e no esqueleto axial, bem como complicações secundárias, como hiperviscosidade sanguínea, hipercalcemia, trombocitopenia e insuficiência renal, que podem resultar em poliúria e polidipsia, distúrbios hemorrágicos e neurológicos e fraturas ósseas 8-11. As lesões ósseas encontradas em casos de MM são geralmente poliostóticas focais com margens e diâmetro definidos, mas podem ser encontradas em forma de lise permeativa, grandes e expansivas ou ainda como osteopenia difusa e com fraturas associadas 12. Também ocorrem lesões de densidade de tecidos moles no canal medular, discretas e homogêneas, tanto no esqueleto axial quanto apendicular, que por apresentarem sinais inespecíficos frequentemente se confundem com outras condições, como discopatias, osteossarcoma, linfoma ou metástase óssea, tornando o diagnóstico desafiador 13,14.

O diagnóstico de MM é baseado em pelo menos duas anormalidades: aumento de mais de 20% de plasmócitos na medula óssea; gamopatia monoclonal (GM), no soro ou na urina; proteinúria de Bence-Jones; e lesões osteolíticas. A citologia aspirativa e a histopatologia são utilizadas para avaliação da neoplasia na medula óssea. A eletroforese e a imunofixação são essenciais para detecção de GM, já as múltiplas lesões osteolíticas podem ser diagnosticadas por radiografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética 3,4,15,16,17.

Em geral, a radiografia convencional, a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM) são modalidades diagnósticas úteis no MM 12. Entretanto, nos últimos anos, as técnicas de imagens avançadas têm se mostrado mais promissoras para a confirmação do diagnóstico e monitoramento dessa doença em cães. A TC permite uma visualização detalhada das lesões ósseas líticas, identificando lesões pequenas e expansivas que poderiam passar despercebidas em radiografias convencionais, especialmente em estruturas com sobreposição óssea, como a coluna vertebral 3,12. Diferente da radiografia, que requer uma perda óssea significativa para permitir a visualização de lesões, a TC pode detectá-las em fase inicial e proporcionar um diagnóstico mais precoce, o que é essencial para o planejamento terapêutico e estabelecimento do prognóstico 3,5,12,17. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética permitem uma melhor avaliação da localização e da extensão da neoplasia, principalmente quando há invasão do canal vertebral com consequente compressão medular. A ressonância magnética é superior à TC na avaliação da relação do tumor com a medula espinhal e da extensão dos danos intramedulares 12.

Além de sua importância diagnóstica, a TC é útil para identificar locais adequados para amostragem de medula óssea e guiar o posicionamento da agulha para biópsia, possibilitando a realização do diagnóstico histopatológico que fornece informações adicionais fundamentais para o diagnóstico diferencial dos casos 3,12. Ademais, a TC pode ajudar a identificar potenciais locais de fratura patológica que podem ter valor prognóstico ou alterar o tratamento do paciente 3. A TC, além de facilitar o diagnóstico inicial, também possibilita o monitoramento da resposta ao tratamento, permitindo a observação de mudanças na densidade das lesões em tecidos moles 3. Dessa forma, a TC contribui para o manejo clínico dos cães com mieloma múltiplo, auxiliando tanto na avaliação da extensão da doença quanto na eficácia das intervenções terapêuticas.

Os medicamentos quimioterápicos mais frequentemente usados para o tratamento do MM são melfalano combinado com prednisona. O melfalano, agente alquilante com ação antitumoral, é eficaz na destruição de plasmócitos anômalos, enquanto a prednisona contribui com propriedades anti-inflamatórias e imunossupressoras, aumentando a resposta do paciente ao tratamento. A administração de melfalano é bem tolerada pelos cães, contudo efeitos colaterais, como mielossupressão e trombocitopenia, podem ocorrer, exigindo monitoramento hematológico frequente 2,3,17,18. O tempo médio de sobrevivência de cães tratados com essa combinação de medicamentos é de 540 dias. Embora a quimioterapia não seja curativa, ela é capaz de reduzir a massa tumoral, promover o reparo ósseo e aliviar a dor óssea, possibilitando qualidade e tempo de vida aos pacientes 2,10,18,19.

A radioterapia (RT) tem sido apontada como uma opção terapêutica eficaz no tratamento de cães com mieloma múltiplo, particularmente em termos do alívio da dor óssea. Resultados documentados indicam uma melhoria clínica significativa, com uma média de sobrevida de 611 dias (variando de 36 a 2.001 dias) após o início da RT. Esses achados ressaltam o papel potencialmente importante da RT na paliação das lesões ósseas associadas ao mieloma múltiplo em cães e a sua aplicação pode ser benéfica fornecendo uma melhoria na qualidade de vida. No entanto, ainda são necessárias investigações que avaliem se a RT isolada é suficiente para a paliação adequada das neopiguralasias espinhais compressivas e para o estabelecimento da dose de radiação ideal 20.

O objetivo deste relato de caso é destacar o papel essencial da TC para direcionar a suspeita diagnóstica de mieloma múltiplo ao evidenciar as lesões ósseas líticas e a extensão do envolvimento medular em uma cadela idosa, sem raça definida, que apresentava sinais de ataxia e fraqueza em membros pélvicos.

 

Relato de caso

Uma cadela, sem raça definida, de 12 anos de idade e 20kg de peso corporal, foi atendida em um hospital veterinário apresentando fraqueza em membros pélvicos, ataxia proprioceptiva e redução da propriocepção em membros pélvicos, teste de tônus dos membros pélvicos aumentados e dor leve à palpação de coluna toracolombar. Foram solicitados exames complementares, como hemograma, bioquímicos, ecocardiograma e radiografia dos segmentos da coluna vertebral cervical, torácica, lombar e lombossacra.

O hemograma e os exames bioquímicos (ureia, creatina e fosfatase alcalina) não evidenciaram alterações, com exceção do aumento dos níveis proteína total sérica (resultado: 8,6g/dL- ref. 5,68g/dL) e da alanina aminotransferase (ALT) (resultado: 149UI/1 – ref. 10 – 88UI/1). No ecocardiograma foi evidenciada doença mixomatosa da válvula mitral, sem remodelamento de câmaras cardíacas esquerdas.

O exame radiográfico realizado em segmentos da coluna vertebral cervical, torácica, lombar e lombossacra evidenciou alteração morfológica do corpo vertebral de L7, diminuição do espaço intervertebral em diferentes graus entre C4-5, C5-6, T1-2, T11-12, T12-13, T13-L1, L3-4, L4-5, L5-6 e L6-7. Opacificação da porção ventral do forame intervertebral entre T13-L1, L1-2, L2-3, L3-4, L4-5, L5-6 e L7-S1, sugerindo osteófitos dorsais ou discopatia.

Diante da hipótese de discopatia, a paciente foi encaminhada para estudo tomográfico do segmento da coluna toracolombar e lombar que foi realizado em um tomógrafo helicoidal multislice de 16 canais Siemens em três aquisições transversais nas fases pré e pós-administração de contraste intravenoso (Ominipaque®, 300, GE Healthcare) na dose de 1,5mL/kg com reconstruções em filtro de partes moles e óssea e, reconstruções multiplanares (transversais, dorsais e sagitais) com os mesmos filtros das aquisições transversais. Os cortes foram adquiridos com 0,7mm de espessura e as aquisições volumétricas com 1,5mm de espessura.

No exame tomográfico foram evidenciadas alterações morfológicas multifocais de tamanhos variados, de características líticas e com a perda do trabeculado ósseo por infiltrado, partes moles com realce ao meio de contraste intravenoso, sendo as áreas de lise evidenciadas na sétima e décima terceira costela direita, no osso sacro e ílio (Figura 1) e de forma mais extensas em T13, L3, L5 e L7 (Figura 2), distribuídas pelos corpos vertebrais, pedículos, arcos vertebrais, algumas não respeitando os limites ósseos e invadindo o canal vertebral, e com a presença de material se projetando para o interior do canal vertebral, mantendo íntima relação com o cordão medular em T3, T4, T5, T7, T8, T9, T11, T12, T13, L1, L3, L5, L6, L7.

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Figura 1 – Imagem transversal de tomografia computadorizada em filtro de tecido ósseo: a) áreas de lise óssea em sétima costela direita (setas brancas); b) em décima terceira costela direita (setas azuis); e c) em sacro (cabeça de seta amarela) e ílio (cabeças de setas pretas). Créditos: Juliana V. Portela, 2024

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Figura 2 – Imagem transversal de tomografia computadorizada em filtro de tecido ósseo: a) áreas de lise óssea em 13ª vértebra torácica (cabeças de setas amarelas); b) em 3ª vértebra lombar (círculo amarelo); c) em 5ª vértebra lombar (retângulo amarelo); e d) em 7ª vértebra lombar (setas amarelas). Créditos: Juliana V. Portela, 2024

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Na vértebra T13, a lesão invadiu o canal vertebral pela região ventral à direita e relacionou-se com o cordão medular ventralmente e à direita; em L3, ocorreu grande invasão do canal vertebral pela região ventral e pelas laterais direita e esquerda, deslocando o cordão medular dorsalmente, e relacionando-se com a região ventral, direita e esquerda do cordão medular; em L5, houve grande invasão do canal vertebral pela região dorsal e pelas laterais direita e esquerda, com deslocamento do cordão medular ventralmente e relacionando-se com a região dorsal, esquerda e direita do cordão medular (Figura 3). Os achados sugeriram processo neoplásico, sendo apontado o mieloma múltiplo como principal diagnóstico diferencial. Além disso, a paciente apresentava aumento dos linfonodos hepático, esplênico, aórtico lombar, mesentéricos, ilíacos mediais e do linfocentro iliossacral, sugerindo processo metastático.

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Figura 3 – Imagem transversal de tomografia computadorizada em filtro de tecido mole: a) a massa tumoral (*) invadindo o canal vertebral de T13 e relacionando-se com o cordão medular pela região ventral à direita; b) grande invasão do canal vertebral em L3; e c) grande invasão do canal vertebral de L5 pela região dorsal e pelas laterais direita e esquerda, deslocando o cordão medular ventralmente. Créditos: Juliana V. Portela, 2024

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Para elucidação diagnóstica da suspeita clínica de mieloma múltiplo a paciente foi submetida a biópsia de vértebra lombar, onde foram coletados quatro fragmentos de corpo e lâmina lateral de L3 por meio de punch. Foram analisados cortes histológicos de tecido ósseo e região medular exibindo densos mantos de células redondas plasmocitóides bem diferenciadas que substituíam em parte a medula espinhal, favorecendo o diagnóstico de mieloma múltiplo.

Após a biópsia, a paciente apresentou piora do quadro clínico e foi realizado novo hemograma que evidenciou anemia severa microcítica e hipocrômica (1,4M/μL de eritrócito, 10,5% de hematócrito, 3,8g/dL de hemoglobina e 75,3fL de VCM), leucocitose (23,84K/μL) e trombocitopenia (65K/μL) e a paciente evoluiu ao óbito.

 

Discussão

O mieloma múltiplo é uma neoplasia rara na veterinária, especialmente em cães, com uma prevalência limitada e sinais clínicos muitas vezes inespecíficos, o que dificulta o diagnóstico precoce e preciso. O MM canino afeta, em geral, animais de idade avançada e não possui predisposição racial ou sexual evidente 21. No presente relato caso, a paciente era uma cadela SRD de 12 anos, alinhando-se ao perfil etário comumente descrito, o que sugere que a idade avançada é realmente um fator de risco relevante 22-26.

Os sinais clínicos do mieloma múltiplo em cães frequentemente são vagos e incluem letargia, anorexia e fraqueza, além de sinais neurológicos secundários ao acometimento ósseo e medular, como dor e perda de propriocepção, que afetam, sobretudo, a coluna vertebral e os membros pélvicos 9,26. A paciente apresentava sinais de fraqueza e ataxia proprioceptiva nos membros pélvicos, refletindo os sinais tipicamente descritos para a doença e que também foram apresentados pelos pacientes em outros relatos 4,6,26,27.

Quanto à patogenia, o mieloma múltiplo caracteriza-se pela proliferação clonal de plasmócitos na medula óssea, levando à destruição óssea em múltiplos focos, processo que é responsável pelas lesões líticas observadas em exames de imagem e que podem ser encontradas em qualquer osso do esqueleto axial ou apendicular, mas são vistas mais comumente em áreas de hematopoiese ativa 9. A paciente apresentou áreas de osteólise em diferentes vértebras do segmento torácico e lombar, em costelas, sacro e pelve, o que corrobora relatos da presença de lesões osteolíticas em vértebras, pelve, fêmur, crânio, costelas, esterno, úmero e escápula 2,3,5,7,12,22,24,25.

Do ponto de vista laboratorial, a anemia, a linfopenia e a trombocitopenia são os principais achados 5,12,23,28,29. No caso descrito neste relato, as análises laboratoriais iniciais mostraram-se predominantemente dentro dos parâmetros normais, mas evoluíram negativamente, indicando que o comprometimento sistêmico pode variar entre os casos de mieloma múltiplo canino.

A radiografia não detectou lesões líticas nas vértebras da paciente, o que pode ser atribuído à necessidade de uma perda de matriz óssea calcificada de aproximadamente 30% a 50% antes que tais lesões sejam visíveis radiograficamente 17,30. As lesões do MM em corpos vertebrais são detectáveis radiograficamente apenas quando ultrapassam um centímetro de tamanho 12. A radiografia, embora útil, não permite uma avaliação detalhada da invasão do canal vertebral e da medula óssea, causada pela neoplasia. Já os exames de imagem avançados, como a tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM), apresentam maior sensibilidade para detectar alterações ósseas e de tecidos moles associadas a neoplasias vertebrais 17,20.

No caso deste relato, a TC foi essencial para identificação da extensão das lesões ósseas e de tecidos moles, o que pode ser explicado pela capacidade de reconstruir imagens tomográficas em diferentes planos anatômicos e a comparação das imagens obtidas antes e após a administração do meio de contraste, o que facilita a avaliação da extensão das lesões na coluna vertebral e as relações entre a lesão tumoral e a medula espinhal adjacente. A paciente apresentou importante grau de compressão medular pela massa tumoral e apresentava tanto lesões com preservação de cortical quanto com lise de cortical, em consonância com o que foi encontrado por outros autores 3,4,15. A coluna vertebral foi o local mais comumente afetado com as áreas de osteólise pelo MM, o que também é relatado na literatura 3,5,6,15,19,20,25,27.

O mieloma múltiplo em cães pode ser confundido com outras neoplasias ósseas, devido aos sinais inespecíficos e à semelhança dos achados radiográficos e laboratoriais. Entre os principais diagnósticos diferenciais, incluem-se o osteossarcoma multicêntrico, linfoma ósseo, plasmocitoma e metástases vertebrais 14-17. Nesse sentido, no caso relatado, a combinação de tomografia e análise histopatológica foi essencial para a confirmação do diagnóstico de mieloma múltiplo, conforme também observado na literatura 2,3,6,27.

A capacidade da tomografia computadorizada examinar vários segmentos da coluna vertebral em poucos segundos, bem como de incluir outras regiões como tórax e abdome, permite a identificação de lesões viscerais concomitantes que podem afetar órgãos ou sistemas distantes das lesões na coluna vertebral, como o esqueleto apendicular ou órgãos abdominais. Essa característica é de particular importância no estadiamento do tumor, pois possibilita a detecção de quaisquer lesões concomitantes, incluindo aquelas não diretamente relacionadas ao mieloma múltiplo (MM). Assim, pode-se estabelecer um prognóstico mais preciso e uma terapêutica mais adequada para o paciente 12. Os locais comumente afetados por metástases de MM incluem fígado, rins, baço e linfonodos 31. No caso estudado, a paciente apresentou linfonodomegalia abdominal generalizada, um achado também observado em outros relatos 2,15, sugerindo um possível processo metastático.

Embora a paciente não tenha sido submetida ao tratamento, a tomografia computadorizada (TC) poderia ser um método importante para monitorar a resposta terapêutica à quimioterapia e radioterapia. Estudos recentes indicam que a TC pode revelar mudanças na atenuação dos tecidos moles para atenuação de gordura nas lesões, cicatrização de área de fratura patológica e estabilização das áreas de lise óssea. Esses achados foram correlacionados com a melhora clínica em três pacientes que receberam quimioterapia e/ou radioterapia, com acompanhamento tomográfico antes e após o tratamento 3.

 

Considerações finais

O presente caso ilustra um diagnóstico raro de mieloma múltiplo em uma cadela idosa, destacando-se pelos achados clínicos de ataxia e fraqueza nos membros pélvicos, que levaram a uma ampla avaliação da coluna vertebral por meio da tomografia computadorizada e à detecção detalhada das lesões líticas e das lesões compressivas da medula espinhal que podem ter contribuído para os sinais clínicos da paciente. Destarte, este caso reforça a importância da tomografia como um recurso essencial para a identificação e a delimitação das lesões com precisão e da sua contribuição para uma abordagem diagnóstica direcionada e eficaz, sendo, portanto, recomendada como método preferencial para avaliação inicial e estadiamento das alterações do mieloma múltiplo.

 

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