O mundo voltou seus olhos para Belém e para a COP30, e no debate climático tendeu a se concentrar em métricas de carbono, desmatamento e transição energética, pautas urgentes, sem dúvida. No entanto, há um silêncio perigoso sobre um elo fundamental que une a catástrofe ambiental à nossa própria sobrevivência biológica: a intersecção entre a saúde humana, animal e ambiental. É aqui que a medicina veterinária, sob a ótica da Saúde Única (One Health), precisa deixar os bastidores e buscar assumir o protagonismo nas muitas ações e negociações climáticas.
A premissa da Saúde Única não é nova, mas nunca foi tão urgente. Ela postula que não existe saúde humana isolada; somos interdependentes da saúde dos animais e da integridade dos ecossistemas. A crise climática é, em essência, uma crise sanitária global. O aquecimento global altera vetores de doenças, o desmatamento força a migração de fauna silvestre e a urbanização desordenada cria o cenário perfeito para o spillover – o salto de patógenos de animais para seres humanos.
Nesse cenário, o médico-veterinário não é apenas o clínico de pequenos animais ou o responsável pela produção de alimentos. Ele é o agente de saúde pública da linha de frente. Somos nós que monitoramos as zoonoses emergentes nas fronteiras da floresta, que garantimos a segurança alimentar em tempos de colheitas incertas e que vigiamos a biodiversidade que serve de barreira natural contra pandemias.
Os avanços e a realidade atual
Houve avanços significativos. O reconhecimento do termo “Saúde Única” pela OMS, FAO e OMSA foi um passo burocrático, mas essencial. No Brasil, a vigilância epidemiológica tem se tornado mais integrada, entendendo que um macaco doente na mata pode sinalizar um surto de febre amarela na cidade. A tecnologia também avançou, permitindo o mapeamento genômico de vírus em tempo real.
Contudo, a perspectiva em relação à COP30 exige mais do que diagnósticos; exige governança. A Amazônia, palco do evento, é o maior reservatório de biodiversidade do planeta, e também um “banco” de vírus potenciais. Se não houver políticas claras que vinculem a preservação ambiental à vigilância sanitária veterinária, estaremos apenas apagando incêndios – literais e metafóricos.
Ações necessárias como desdobramento da agenda de Belém
Pós-COP30, a medicina veterinária deve buscar três demandas inegociáveis à mesa de negociação:
1. Financiamento climático para vigilância sanitária
Os fundos verdes não devem financiar apenas o plantio de árvores, mas também sistemas de monitoramento de fauna silvestre. Proteger a saúde animal é uma medida de adaptação climática para proteger seres humanos;
2. Integração de dados
Precisamos de sistemas que cruzem dados climáticos (chuvas, temperatura) com dados veterinários (surtos em animais) para prever epidemias. A ciência de dados veterinária é uma ferramenta de predição climática subutilizada;
3. Segurança alimentar sustentável
Com as mudanças climáticas ameaçando a produção de proteína animal, a medicina veterinária é crucial para desenvolver sistemas de produção resilientes, com menor pegada de carbono e maior bem-estar animal, reduzindo a pressão sobre áreas de mata.
A COP30 foi um momento de definição, mas talvez tenha deixado a desejar nos seus resultados macro e micro. Se continuarmos a tratar o clima apenas como uma questão atmosférica e ignorarmos a questão biológica, falharemos. A medicina veterinária oferece as lentes para enxergar o problema em sua totalidade. A saúde do planeta, dos animais e a nossa são, afinal, uma só. Ignorar essa conexão não é apenas negligência científica – é um risco existencial que não podemos correr.