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Pesquisa científica

Autoria: conceitualização, participação e orientação

O que te faz realmente coautor de um trabalho científico?

Matéria escrita por:

Leonardo José Gil Barcellos

7 de mar de 2026

Créditos: NAN728 Créditos: NAN728

Na coluna anterior, falamos de integridade científica. Um conceito básico para podermos pensar em ciência íntegra é o de autoria. O que é um autor? Quem são os coautores de um artigo científico? O que te faz realmente coautor de um trabalho científico? Essas são perguntas muito importantes desde sempre, mas muito mais relevantes e desafiadoras no momento em que vivemos com alta competitividade na ciência e com o advento da inteligência artificial, vista erroneamente por alguns como autora intelectual da ciência.

De fato, os autores de um artigo científico são aqueles que têm condições de interpretar os resultados gerados e que se envolveram de forma significativa no desenvolvimento do trabalho. Para que alguém seja considerado autor, é necessário que tenha participado de pelo menos três aspectos fundamentais do estudo. Em primeiro lugar, deve estar presente na elaboração da “história” contada pelo trabalho, conhecendo as ideias, as estratégias de estudo e as conclusões alcançadas. Em segundo lugar, precisa ter domínio das conclusões do estudo, compreendendo e concordando com os dados, métodos e interpretações utilizados. Por fim, é essencial que seja capaz de defender publicamente a concepção intelectual e lógica do estudo, mesmo que não detenha total domínio dos detalhes técnicos e operacionais. Dessa forma, a autoria científica não se limita à execução de tarefas pontuais, mas exige envolvimento intelectual e responsabilidade sobre o conteúdo produzido.

Sendo assim, devemos refletir sobre várias situações do cotidiano da publicação científica nos laboratórios e grupos de pesquisa. Primeiramente, seus colegas, mesmo os que o ajudam ativamente na condução operacional da pesquisa, não são automaticamente coautores do seu trabalho. Se eles não dominarem o assunto e não estiverem aptos a defender o trabalho em congressos e encontros científicos, devem ser apenas recebedores de valorosos agradecimentos. Da mesma forma, antigos parceiros, orientadores e colegas não devem constar da lista de autores apenas pelas ótimas e produtivas relações que tiveram com você no passado. Além desses, técnicos de laboratório ou chefias de setores e departamentos também não são coautores se não atenderem os critérios supracitados. Por fim, o simples fato de alguém possuir algum importante equipamento ou ser o detentor de alguma metodologia relevante para o trabalho, não o faz coautor do mesmo, a não ser que atenda aos critérios de autoria.

Assim, fica clara a grande responsabilidade que recai sobre os autores e a importância de se levar em conta os critérios de autoria e incluir em sua nominata apenas quem realmente os atende de forma clara.

Outro ponto que reforça a importância desse cuidado é a consistência curricular. Nesse caso, mais pela perspectiva daqueles que são incluídos como coautores sem realmente merecerem. Num primeiro momento, parece algo positivo, cativante, pois infla e potencializa o seu currículo, mas, por outro lado, pode deixar sua trajetória científica desfocada, com artigos em temas distantes e/ou não correlatos. Além disso, em alguma situação específica, como bancas de conclusão ou concurso, pode lhe criar constrangimentos desnecessários pelo fato de você não dominar o tema do estudo nem conseguir defender suas conclusões adequadamente. Esse cenário piora com a frequente resposta “eu só ajudei, não domino o conteúdo do paper”. Nesse caso, o constrangimento passa a ser uma falha ética que pode ser, inclusive, decisiva no resultado daquela banca ou arguição.

Obviamente podemos ter exceções, como a participação em grandes grupos multicêntricos de pesquisa ou como colaborador de grandes descobertas ou artigos extremamente relevantes. Mesmo assim, é sempre válido dominar a essência desses artigos e saber por que sua participação neles foi importante para as conclusões dos mesmos.

Assim, a mera participação no andamento de um trabalho científico não deve ser considerada como decisiva para sua inclusão na nominata de coautores. Se você não tiver participado da elaboração intelectual do trabalho, não compreender as conclusões do estudo e não for capaz de defender publicamente a concepção lógica do artigo, você não é autor e deve, no máximo, ser mencionado nos agradecimentos.

Por fim, ao nos debruçarmos sobre esses três critérios de autoria, podemos também refletir sobre a nobre função de orientador. Um orientador de fato conduz seu orientado desde a concepção intelectual do estudo (mesmo que esse seja parte de um grande projeto em andamento), ajuda-o a obter, analisar e interpretar os dados e, com base neles e no conhecimento vigente, a elaborar conclusões plausíveis. Por fim, é obrigação de um orientador preparar seu orientado para que esse seja capaz de defender o trabalho e argumentar em seu favor no momento de sua arguição em defesa pública e no debate científico com os editores e revisores dos periódicos científicos aos quais os trabalhos forem submetidos.

Encerro essa coluna com recomendações sobre como deve ser sua atuação nos laboratórios e grupos de pesquisa, para que sejas um real coautor dos estudos em que participares. Envolva-se, participe de todas as etapas do trabalho, entenda o projeto, suas hipóteses e estratégias de estudo. Discuta os dados com o autor principal e compreenda as conclusões que eles possibilitam. Dessa forma, aquele artigo, quando aceito, não será apenas mais uma linha em seu currículo, e sim mais uma contribuição para o conhecimento na área de estudo. Bom trabalho!

 

 

 

 

 



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