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Inteligência artificial

Impacto econômico da inteligência artificial na medicina humana e veterinária

Eficiência, redução de custos e efeitos no EBITDA

Matéria escrita por:

Abílio Rigueira Domingos, Gustavo de Castro Bregunci

2 de fev de 2026

Integração entre inteligência artificial e intervenção humana nos sistemas de saúde. Créditos: Adobe Stock (2025) / ConnectVets  Integração entre inteligência artificial e intervenção humana nos sistemas de saúde. Créditos: Adobe Stock (2025) / ConnectVets

Introdução

O avanço contínuo da inteligência artificial (IA) tem produzido transformações profundas no setor da saúde, impactando desde a prática clínica até a gestão administrativa e financeira de instituições públicas e privadas. Em paralelo ao crescimento da demanda por serviços, observam-se a elevação dos custos operacionais, a escassez de profissionais qualificados e o aumento da complexidade das estruturas assistenciais. Essa combinação pressiona a sustentabilidade econômica dos sistemas de saúde, tanto na medicina humana quanto na veterinária, e exige soluções que ampliem eficiência, reduzam desperdícios e otimizem a alocação de recursos. Nesse contexto, a IA surge como um elemento central de inovação e como uma ferramenta de reorganização profunda dos modelos assistenciais e gerenciais.

Na medicina humana, a aplicação da IA ganhou escala nos últimos anos devido ao avanço do aprendizado profundo, à capacidade de integrar grandes bases de dados clínicos e ao desenvolvimento de sistemas de apoio à decisão cada vez mais funcionais. Estudos recentes apontam que essa tecnologia é capaz de aumentar substancialmente a velocidade diagnóstica, reduzir erros, prevenir internações evitáveis e otimizar fluxos assistenciais, gerando benefícios diretos para pacientes e para a sustentabilidade econômica das instituições 1. A medicina veterinária, embora historicamente menos estudada em termos de impacto econômico da IA, apresenta fortes paralelos estruturais, especialmente por sua predominância no setor privado e por sua necessidade crescente de padronização e eficiência operacional. Essas características tornam o ambiente veterinário particularmente favorável à incorporação de sistemas baseados em IA.

A análise integrada dos efeitos da IA sobre custos, produtividade e indicadores financeiros permite compreender como a tecnologia se consolidou como estratégia de gestão fundamental. A literatura demonstra que a IA reduz despesas por meio de automatização, acurácia diagnóstica e diminuição de retrabalhos; melhora a receita por meio do aumento da capacidade produtiva; e otimiza margens ao reduzir custos variáveis e indiretos. Com isso, torna-se claro que a IA exerce impacto direto sobre o EBITDA (sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, and Amortization), principal indicador de desempenho operacional utilizado para avaliação de instituições de saúde, clínicas veterinárias, hospitais e grupos empresariais.

Este artigo amplia a discussão sobre o papel da IA como vetor de transformação econômica, analisando os efeitos da tecnologia em diagnóstico, tratamento, processos administrativos e gestão hospitalar, com enfoque na comparação entre os setores humano e veterinário. O objetivo é oferecer uma visão abrangente e aprofundada dos mecanismos pelos quais a IA melhora eficiência, reduz custos e fortalece os resultados financeiros de instituições de saúde.

 

Impacto econômico da inteligência artificial em diagnóstico e tratamento

A incorporação da IA em processos diagnósticos tem apresentado alguns dos resultados econômicos mais consistentes da literatura científica recente. A capacidade da IA de reconhecer padrões com elevada precisão e velocidade permite uma redução significativa de erros diagnósticos, diminuição de exames desnecessários e otimização do fluxo de pacientes. Modelos avançados de análise de imagem têm demonstrado desempenho comparável ou superior ao de especialistas em áreas como radiologia, dermatologia, cardiologia e patologia digital, o que reforça seu papel como ferramenta complementadora e potencializadora da atividade profissional 2.

A IA pode reduzir em mais de 90% o tempo necessário para interpretação diagnóstica em determinadas áreas, especialmente quando algoritmos são treinados com grandes bases de dados e integrados a sistemas de triagem e suporte à decisão 1. Essa aceleração resulta em diminuição do tempo de espera, melhora na capacidade de atendimento, racionalização do uso de equipamentos e maior previsibilidade operacional. Do ponto de vista econômico, instituições que adotam sistemas diagnósticos assistidos por IA relatam aumento da taxa de ocupação de equipamentos, redução da necessidade de exames complementares e maior agilidade na entrega de laudos, fatores que influenciam diretamente a produção de receita.

Além dos diagnósticos, a IA tem demonstrado impacto expressivo no planejamento terapêutico e no acompanhamento clínico. Modelos preditivos capazes de estimar risco, identificar padrões de piora e prever complicações permitem o desenvolvimento de condutas mais assertivas e individualizadas. Na prática, isso reduz internações desnecessárias, evita agravamentos clínicos e diminui o uso de recursos terapêuticos de alto custo. Observaram-se reduções superiores a 30% nos custos de tratamento quando algoritmos auxiliam na condução terapêutica, principalmente em condições de alta complexidade 1.

Outro impacto econômico direto é a diminuição de retrabalho e de repetição de exames. Erros diagnósticos representam uma das principais causas de desperdício no setor da saúde, gerando custos diretos associados à repetição de exames e indiretos relacionados ao agravamento clínico e ao aumento do tempo de internação. A IA, ao oferecer avaliações mais homogêneas e ao reduzir a variabilidade entre profissionais, diminui significativamente esse tipo de desperdício. Em um estudo de grande escala, modelos de IA foram capazes de evitar mais de 45 mil exames desnecessários em apenas 45 dias, evidenciando seu potencial de economia em larga escala 3.

Na medicina veterinária, o impacto econômico segue tendência similar. A IA tem sido usada para interpretar exames de imagem, analisar resultados laboratoriais, auxiliar na triagem de casos e apoiar o raciocínio clínico, permitindo padronização de condutas e maior segurança diagnóstica. A redução de exames repetidos, o aumento da rapidez diagnóstica e a entrega mais ágil de laudos fortalecem tanto os resultados clínicos quanto os financeiros. O menor custo operacional relativo ao setor veterinário faz com que pequenas melhorias de eficiência produzam impacto proporcionalmente maior sobre margens e indicadores econômicos.

 

Eficiência administrativa, produtividade e impacto direto no EBITDA

Embora os ganhos clínicos sejam amplamente reconhecidos, os efeitos mais profundos da IA sobre custos e sustentabilidade institucional ocorrem na esfera administrativa. A documentação clínica, os registros de prontuários e as atividades burocráticas representam uma das maiores fontes de desgaste profissional e ineficiência operacional. Profissionais de saúde frequentemente dedicam horas adicionais ao preenchimento de prontuários, relatórios e formulários, gerando custos financeiros e comprometimento da qualidade de vida.

A introdução dos “AI scribes”, sistemas de IA capazes de transcrever automaticamente consultas, estruturar informações clínicas e gerar relatórios, tem sido considerada uma das intervenções mais eficazes dos últimos anos para redução de sobrecarga administrativa. Estudos multicêntricos demonstraram reduções significativas em burnout, com queda de 51,9% para 38,8% após a adoção dessas ferramentas, além de economia diária de quase uma hora de trabalho administrativo por profissional 4. Essa diminuição de carga operacional não apenas melhora a saúde mental dos profissionais, mas também aumenta a capacidade produtiva, permitindo mais atendimentos por período e ampliando receita.

A IA também desempenha papel relevante em processos financeiros e gerenciais. Sistemas automatizados de faturamento, controle de estoques, autorização de procedimentos, previsão de demanda e organização de agendas reduzem erros e melhoram a fluidez operacional. Modelos de IA aplicados à gestão hospitalar têm demonstrado capacidade de reduzir significativamente as glosas, otimizar a alocação de salas e prever necessidades de insumos, permitindo maior previsibilidade financeira e redução de desperdícios.

Os impactos no EBITDA são diretos e expressivos. O EBITDA, indicador amplamente utilizado para avaliar a eficiência operacional de empresas e instituições de saúde, é influenciado tanto pela redução de custos quanto pelo aumento da receita e da produtividade. A IA atua simultaneamente nessas frentes: reduz despesas diretas e indiretas, otimiza fluxos, diminui retrabalho, aumenta a capacidade de atendimento e melhora a performance financeira sem exigir necessariamente ampliação estrutural. Estudos internacionais estimam que a automação de processos administrativos pode reduzir em até 40% o volume total de tarefas manuais, o que representa possíveis economias anuais superiores a 360 bilhões de dólares em grandes sistemas de saúde 5.

A adoção de agentes conversacionais baseados em inteligência artificial (chatbots de IA) tem transformado significativamente a forma como empresas interagem com clientes, otimizam recursos e geram valor. Estudos recentes indicam que esses sistemas são capazes de automatizar até 70% das demandas rotineiras em serviços de atendimento, liberando os colaboradores humanos para tarefas mais complexas e estratégicas. Essa automação resulta em ganhos expressivos de produtividade. Um chatbot de IA bem implementado pode reduzir em cerca de 45% o tempo médio de atendimento, gerando também uma economia operacional de até 30%.

Do ponto de vista financeiro, os benefícios são igualmente expressivos. Um estudo estima que o uso de chatbots de IA pode gerar economias globais superiores a 8 bilhões de dólares por ano, contrastando com os modestos 20 milhões de dólares estimados em 2017, uma demonstração clara da maturidade e escalabilidade dessa tecnologia 6. Esses ganhos refletem não apenas a redução direta de custos com pessoal e infraestrutura, mas também o aumento da capacidade de atendimento, sem comprometer a qualidade do serviço prestado.

Além da eficiência econômica, a forma como os chatbots de IA se comunicam tem impacto direto na satisfação e fidelização do cliente. Pesquisas apontam que estilos de comunicação mais empáticos e sociais aumentam significativamente a confiança e o engajamento dos usuários, especialmente em situações de falha de serviço. Quando bem projetados, os agentes conversacionais não apenas automatizam processos, mas também aprimoram a experiência do consumidor, combinando agilidade, clareza e personalização. Assim, os chatbots de IA não são apenas ferramentas de economia, são ativos estratégicos para inovação e competitividade no relacionamento com o cliente.

No contexto veterinário, onde as margens operacionais são geralmente mais estreitas do que na medicina humana, esses efeitos são ainda mais sensíveis. Clínicas e hospitais veterinários que adotam sistemas baseados em IA relatam aumento da taxa de conversão de consultas, maior eficiência no uso de salas, redução de erros de faturamento e ampliação do volume de atendimentos sem aumento proporcional de custos. A padronização de registros clínicos também melhora a governança e reduz a vulnerabilidade jurídica, contribuindo para um ambiente mais estável e profissionalizado.

 

Discussão

A análise comparativa entre os setores humano e veterinário revela paralelos significativos na forma como a IA transforma eficiência e sustentabilidade econômica. A medicina humana é mais madura na aplicação de IA devido ao volume de pesquisas, à disponibilidade de grandes bancos de dados e ao alto nível de investimento em tecnologia. As evidências de eficiência, custo-efetividade e aumento de produtividade são amplas e bem documentadas, especialmente no campo da radiologia, patologia digital, triagem emergencial e automação administrativa.

Na medicina veterinária, embora a curva de adoção seja mais recente, o ambiente competitivo e a necessidade de diferenciação de mercado têm impulsionado a incorporação acelerada de tecnologias de IA. Essa adoção tende a crescer em ritmo ainda mais rápido do que na medicina humana, uma vez que o setor privado domina o mercado veterinário e possui maior flexibilidade para investir e implementar soluções tecnológicas. Clínicas e hospitais veterinários estão inseridos em um ecossistema altamente dependente de eficiência operacional, com margens estreitas e grande demanda por produtividade. Nesse contexto, a IA torna-se um diferencial estratégico e não apenas uma inovação opcional.

Outro ponto relevante é que a IA modifica profundamente a relação entre profissionais e sistemas de informação. O tempo outrora destinado à execução de tarefas repetitivas e burocráticas é redirecionado para o atendimento clínico, o raciocínio diagnóstico e a interação com pacientes e responsáveis. Essa redistribuição de tempo gera impactos intangíveis, como melhora da satisfação profissional, redução do estresse e maior concentração na prática clínica, fatores que também influenciam aspectos econômicos e a longevidade das equipes.

A discussão ética, embora presente, tende a se equilibrar à medida que evidências robustas demonstram que a IA não substitui profissionais, mas amplia sua capacidade. A adoção responsável da tecnologia requer governança, validação adequada, treinamento das equipes e transparência nos critérios utilizados pelos algoritmos. Em ambos os setores, a integração harmoniosa entre tecnologia e prática clínica representa o caminho mais seguro para maximizar os benefícios econômicos e assistenciais.

 

Considerações finais

A inteligência artificial representa um dos pilares mais promissores da transformação econômica e operacional dos sistemas de saúde na contemporaneidade. Evidências científicas demonstram que sua incorporação reduz custos assistenciais, melhora eficiência diagnóstica, aumenta a produtividade das equipes, diminui erros e retrabalho, agiliza fluxos administrativos e fortalece diretamente indicadores financeiros como o EBITDA. Tanto na medicina humana quanto na veterinária, a adoção estratégica da IA proporciona maior sustentabilidade econômica e competitividade institucional, apresentando-se não como uma tendência futura, mas como uma necessidade emergente.

À medida que novas aplicações da IA são desenvolvidas e que os sistemas de saúde se tornam mais digitalizados, os benefícios econômicos tendem a se intensificar. Instituições que compreendem e implementam essas tecnologias de maneira estruturada estarão mais bem posicionadas para enfrentar os desafios financeiros e operacionais das próximas décadas, consolidando a IA como uma ferramenta indispensável para a eficiência e a sustentabilidade dos serviços de saúde.

 

Referências

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