Saúde mental no contexto dos profissionais das vigilâncias em saúde, defesa sanitária animal e instituições de ensino e pesquisa
Introdução
A saúde dos trabalhadores sempre ocupou lugar central nas discussões sobre qualidade de vida e produtividade, mas a saúde mental, até recentemente, permanecia à margem desses debates. No âmbito das vigilâncias em saúde, da defesa sanitária animal e das instituições de ensino e pesquisa, essa realidade não é diferente. Profissionais que atuam na linha de frente da proteção da saúde coletiva enfrentam condições laborais que combinam alta responsabilidade técnica, exposição a riscos biológicos e químicos, pressão institucional e, muitas vezes, precarização das condições de trabalho 1.
A abordagem Saúde Única ou Uma Só Saúde (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental, tem sido amplamente reconhecida como modelo para enfrentar desafios complexos, como zoonoses e resistência antimicrobiana 2. No entanto, essa abordagem raramente considera a saúde mental dos profissionais que a implementam. A lacuna é ainda mais significativa quando observamos médicos-veterinários, técnicos de vigilância, pesquisadores e docentes, cujo esgotamento tem sido documentado, mas pouco abordado de forma integrada 3.
O presente artigo tem como objetivo discutir os fatores que afetam a saúde mental desses profissionais, os sinais de esgotamento profissional e as estratégias de enfrentamento, com ênfase no papel das lideranças e da cultura organizacional. A partir de uma revisão narrativa da literatura e da análise crítica do contexto laboral, propõe-se uma reflexão que subsidie futuras políticas institucionais voltadas ao cuidado do trabalhador.
Desenvolvimento
Papel do médico-veterinário e a abordagem Uma Só Saúde
O médico-veterinário desempenha funções estratégicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e do sistema de defesa sanitária animal. Conforme disposto na Lei nº 8.080/1990 4, a vigilância sanitária e epidemiológica são competências do SUS, cabendo ao médico-veterinário atuar na prevenção e controle de zoonoses, na inspeção de produtos de origem animal e na educação sanitária. Na defesa animal, o profissional coordena ações de erradicação de doenças como febre aftosa, brucelose e tuberculose 5,6.
Paralelamente, as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) – reguladas pela Lei nº 10.973/2004 e suas alterações 7,8 – abrigam pesquisadores dedicados à investigação de doenças emergentes, desenvolvimento de vacinas e diagnósticos, e formação de novos profissionais. Esse ecossistema de trabalho exige dedicação intensa e expõe os profissionais a múltiplos estressores. A abordagem Uma Só Saúde, proposta pela OMS, OIE e FAO 2, propõe a integração entre saúde humana, animal e ambiental, mas a dimensão psicossocial do trabalhador que atua nessa interface ainda é subestimada.
Desafios de saúde mental dos profissionais
A saúde mental desses profissionais é tema de grande importância, mas frequentemente negligenciado. A alta carga de trabalho e a responsabilidade sobre decisões sanitárias que afetam diretamente a população geram desgaste emocional significativo. A exposição constante a riscos biológicos e químicos, a pressão psicológica por resultados imediatos e a insuficiência de recursos humanos e materiais são fatores que contribuem para o estresse crônico.
Nesse contexto, o cortisol – conhecido como hormônio do estresse – desempenha um papel central. No burnout, caracterizado pela exposição prolongada a estressores ocupacionais, os níveis de cortisol mantêm-se cronicamente elevados, afetando o organismo a longo prazo e predispondo o indivíduo a uma série de agravos à saúde 9.
Além disso, a necessidade de atualização técnica contínua, aliada a conflitos institucionais e hierárquicos, cria um ambiente propício ao desenvolvimento da síndrome de burnout. Burnout é definida como uma síndrome composta por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional 10.
Recentemente, a síndrome de burnout foi incluída na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional, no capítulo referente a fatores que influenciam o estado de saúde. Esse reconhecimento oficial representa um marco importante para desestigmatizar o transtorno e validar a experiência dos trabalhadores que dele sofrem 11.
Estudos no Brasil indicam que profissionais de saúde, incluindo médicos-veterinários, estão entre os grupos mais afetados, com prevalências que variam de 20% a 50% dependendo do contexto 12.
Quando não tratado adequadamente, o burnout pode evoluir com comorbidades importantes, entre as quais se destacam o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a depressão, o abuso de álcool e outras drogas, além de doenças psicossomáticas e alterações imunológicas. Essas condições comprometem a vida do indivíduo como um todo, extrapolando o ambiente de trabalho e afetando sua funcionalidade global 9.
Sinais de esgotamento (burnout)
A conceituação da síndrome de burnout foi atualizada nos últimos anos. A nomenclatura clássica 10 – exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal – deu lugar a termos mais abrangentes: exaustão (que engloba as dimensões física, mental e emocional), cinismo ou ceticismo (em substituição à despersonalização) e eficácia pessoal reduzida (em lugar de baixa realização pessoal). Essa reformulação expandiu o burnout para além da área de saúde e serviços humanos, direcionando o foco para problemas relacionados ao trabalho em geral, e não mais apenas às interações interpessoais no ambiente laboral 13.
Os sinais de esgotamento profissional manifestam-se em diferentes planos. No plano físico, destacam-se fadiga constante, distúrbios do sono, insônia, tensão muscular, cefaleia e taquicardia. No plano psíquico, observam-se dificuldade de concentração, lapsos de memória, alterações de humor, irritabilidade, ansiedade e ataques de pânico. No plano comportamental, o isolamento social, o absenteísmo e a queda no desempenho tornam-se frequentes. Já no plano defensivo, o profissional pode recorrer à negação, à ironia e à rigidez como mecanismos de proteção psicológica 9.
No Brasil, o burnout é reconhecido legalmente. O Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, que aprova o Regulamento da Previdência Social, inclui a síndrome de burnout no item Z73.0 da CID-10 (esgotamento) como um dos transtornos mentais relacionados ao trabalho, assegurando direitos previdenciários aos trabalhadores diagnosticados 14.
Esses sintomas, quando não identificados e tratados a tempo, podem levar ao afastamento do trabalho, ao uso abusivo de substâncias e a consequências mais graves para a saúde integral.
Para a mensuração objetiva do nível de burnout, o Maslach Burnout Inventory (MBI), desenvolvido por Maslach e Jackson na década de 1980, permanece como o instrumento mais amplamente utilizado e validado internacionalmente, permitindo avaliar as três dimensões da síndrome de forma padronizada 13.
A prevenção e o manejo precoce da síndrome de burnout exigem tanto ações individuais quanto mudanças institucionais.
Estratégias de enfrentamento
Diversas estratégias podem ser adotadas para mitigar o sofrimento psíquico e promover o bem-estar. No plano individual, técnicas de relaxamento e mindfulness, atividade física regular, fortalecimento da rede de apoio social e gestão do tempo com priorização de tarefas são medidas eficazes.
Nesse sentido, três pilares mostram-se fundamentais para a prevenção e a manutenção da saúde mental em qualquer contexto: a atividade física regular, uma alimentação balanceada e o sono reparador. Juntos, esses elementos atuam na regulação neuroendócrina, na redução dos níveis de cortisol e na promoção do equilíbrio emocional 9.
A capacitação profissional continuada também ajuda a aumentar a sensação de controle e competência.
O apoio de colegas é fundamental: escuta ativa, compartilhamento de experiências e cooperação em momentos de crise aliviam a sobrecarga emocional e fortalecem os laços no ambiente de trabalho. O acompanhamento psicológico profissional, quando necessário, deve ser visto como recurso e não como sinal de fraqueza.
Contudo, é importante ressaltar que intervenções isoladas – como a oferta de programas de mindfulness ou relaxamento – têm efeito limitado se o sistema de gestão continuar promovendo metas irreais, se não houver clareza nas prioridades institucionais ou se a cultura organizacional recompensar a entrega a qualquer custo. A responsabilidade pela prevenção do burnout não pode recair exclusivamente sobre o indivíduo; as organizações precisam implementar mudanças estruturais que eliminem ou minimizem os fatores de risco psicossociais 13.
Gestão de conflitos e liderança
A gestão de conflitos é uma competência essencial para líderes em ambientes de alta pressão. Profissionais de saúde e pesquisa frequentemente lidam com hierarquias rígidas, disputas por recursos escassos e divergências técnicas que podem se transformar em conflitos pessoais. A comunicação não violenta, a mediação de conflitos e o estabelecimento de canais formais de escuta são instrumentos que reduzem o desgaste relacional e promovem um clima organizacional mais saudável 15.
Líderes que demonstram empatia, transparência e disponibilidade tendem a ser mais eficazes na retenção de talentos e na manutenção da coesão da equipe. O reconhecimento do trabalho realizado, a valorização das contribuições individuais e a oferta de feedback construtivo são práticas que aumentam o engajamento e reduzem a sensação de desamparo.
Iniciativas de liderança e cultura organizacional
Os líderes têm papel determinante na promoção da saúde mental. Eles podem apoiar suas equipes criando um ambiente psicologicamente seguro, estabelecendo canais de comunicação aberta e transparente, estimulando o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, oferecendo oportunidades de capacitação e desenvolvimento, reconhecendo e valorizando o trabalho realizado, e implementando políticas de apoio à saúde mental.
É preciso enfatizar que a prevenção deve ser proativa, e não reativa. Observa-se que muitas organizações só implementam estratégias de cuidado após a ocorrência de consequências graves – afastamentos prolongados, adoecimento coletivo ou perda de talentos. O ideal, contudo, é que as políticas de saúde mental sejam estruturadas de forma contínua e anterior às crises, como parte da gestão estratégica das instituições 13.
As consequências do burnout para as instituições são igualmente significativas: queda na qualidade dos serviços prestados à população, aumento do absenteísmo, maior rotatividade de pessoal, sobrecarga dos profissionais remanescentes e elevação dos custos operacionais. No contexto das vigilâncias em saúde e da defesa sanitária animal, esses impactos afetam diretamente a capacidade do Estado de proteger a saúde da população e dos rebanhos, comprometendo a efetividade das políticas públicas 9.
A cultura organizacional tem impacto direto sobre o bem-estar dos profissionais. Mudanças nos valores, práticas e prioridades institucionais são indispensáveis para promover saúde mental a longo prazo. Instituições que incorporam o cuidado com o servidor como parte de sua missão tendem a apresentar menores índices de absenteísmo, menor rotatividade e maior produtividade.

Considerações finais
A saúde mental dos profissionais que atuam nas vigilâncias em saúde, na defesa sanitária animal e nas instituições de ensino e pesquisa é um tema que exige atenção urgente e ação coordenada. Este artigo evidenciou que os fatores de risco – alta carga de trabalho, exposição a riscos, pressão institucional, conflitos hierárquicos e recursos insuficientes – são comuns a essas categorias e contribuem para o desenvolvimento da síndrome de burnout.
A atualização conceitual amplia a compreensão do burnout para além do cuidado com pessoas, abrangendo qualquer contexto laboral onde haja desajuste entre demandas e recursos 13. O reconhecimento do burnout na CID-11 e na legislação brasileira representa um avanço, mas ainda há um longo caminho para que as instituições implementem políticas efetivas de prevenção e cuidado.
As estratégias de enfrentamento devem ser multidimensionais: individuais (atividade física, alimentação, sono, técnicas de relaxamento) e organizacionais (gestão participativa, comunicação transparente, redução de metas irreais, valorização do servidor). Lideranças empáticas e uma cultura organizacional que priorize o bem-estar são elementos indispensáveis para a promoção da saúde mental.
A abordagem Saúde Única precisa incluir, de forma explícita, o cuidado com quem cuida. Somente com profissionais saudáveis as políticas públicas de saúde humana, animal e ambiental poderão ser efetivas. Recomenda-se que futuras pesquisas investiguem intervenções específicas para esses contextos e que as instituições adotem indicadores de saúde mental como parte de sua gestão estratégica.
Referências
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