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Medicina Endocanabinológica Veterinária

Panorama do uso da cannabis na medicina veterinária

Matéria escrita por:

Caroline Helena da Silva Campagnone

1 de abr de 2026


A discussão sobre cannabis medicinal saiu dos muros da literatura científica e entrou de vez na clínica. Para médicos-veterinários, essa mudança exige curiosidade técnica e cuidado crítico. A planta oferece moléculas com potencial terapêutico real, mas o ponto de partida para qualquer conversa clínica é o entendimento do Sistema Endocanabinoide (SEC), que é o campo da endocanabinologia, que estuda esse sistema e as suas interações com substâncias endógenas e exógenas.

O SEC é um sistema de sinalização presente em praticamente todos os vertebrados, composto por receptores canabinoides (como CB1 e CB2), ligantes canabinoides endógenos (anandamida, 2-AG), enzimas de síntese e degradação, e uma rede de receptores acoplados que modulam dor, inflamação, apetite, sono, comportamento e homeostase neuroimune. Sua distribuição e função variam entre as espécies. Para a prática clínica, isso significa que a modulação do SEC pode afetar respostas tão distintas quanto a percepção da dor, o limiar convulsivo e a resposta inflamatória.

A endocanabinologia é o estudo aplicado desse sistema a partir do mapeamento de receptores por espécie, da farmacocinética dos canabinoides em populações animais, da interação com outros sistemas (opioide, serotoninérgico, TRPV), da segurança toxicológica e do desenho de protocolos de titulação. O tratamento a partir de canabinoides vai muito além da utilização de canabidiol (CBD). É preciso construir o raciocínio clínico a partir de hipótese, indicação, escolha de formulação, titulação, monitorização e registro de desfechos. Além disso, é importante destacar que o CBD é apenas um dos muitos compostos terapêuticos da planta Cannabis sativa L.

Os fitocanabinoides mais estudados são o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetraidrocanabinol (THC), seus de ácidos precursores (CBDA e THCA), canabigerol (CBG), canabinol (CBN), entre outros canabinoides menores. O CBD tem sido o foco das pesquisas clínicas veterinárias por seu perfil de segurança e potencial em situações que envolvam dor, convulsões, distúrbios comportamentais e dermatolígicos. Por sua vez, o THC vem ganhando mais espaço por seus efeitos no sistema nervoso, contribuindo para o controle de dor e inflamação, no estímulo de apetite, em quadros oncológicos, entre outros, e requer conhecimento técnico para o uso responsável.

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Ilustração esquemática da sinalização retrógrada endocanabinoide no sistema nervoso central (SNC) e da degradação pelas enzimas FAAH e MAGL. Créditos: Biorender.com. Fonte: Martin; McRae-Clark, 2020

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Aplicabilidades clínicas com base no Sistema Endocanabinoide

Compreender o Sistema Endocanabinoide (SEC) é fundamental para entender como a cannabis atua no organismo animal. Diferentemente de abordagens sintomáticas, os fitocanabinoides interagem com um sistema fisiológico distribuído amplamente pelo corpo, presente em todos os tecidos, incluindo sistema nervoso central e periférico, sistema imune, trato gastrintestinal, pele, sistema reprodutivo e microambiente tumoral. Essa ampla distribuição explica por que a modulação do SEC pode impactar diferentes sistemas e condições clínicas.

Na medicina veterinária, isso abre possibilidades terapêuticas que perpassam diversas espécies e áreas de atuação, envolvendo animais de companhia, animais silvestres e exóticos, grandes animais e animais de produção, sempre respeitando as particularidades fisiológicas e farmacológicas de cada espécie.

Com base nas evidências disponíveis até o momento, algumas aplicabilidades vêm sendo mais exploradas. No entanto, os resultados ainda não são definitivos, em grande parte devido ao atraso científico imposto por décadas de restrições e proibições ao estudo da planta.

• Dor: estudos em cães indicam sinais de benefício em desfechos relacionados à dor crônica e à qualidade de vida, especialmente em condições osteoarticulares, ainda que com variações metodológicas entre os trabalhos.

• Epilepsia: há evidências iniciais e estudos controlados em cães apontando redução na fre-
quência de crises em subgrupos de pacientes.

• Ansiedade e comportamento: estudos preliminares e relatos clínicos sugerem efeito modulador em quadros de ansiedade e reatividade, embora os dados sejam heterogêneos. A avaliação criteriosa de causas comportamentais primárias, comorbidades clínicas e contexto ambiental permanece indispensável.

• Dermatologia e prurido: os mecanismos antiinflamatórios, imunomoduladores e a atuação em receptores cutâneos tornam os canabinoides promissores em condições dermatológicas, especialmente aquelas associadas à inflamação crônica e prurido.

• Oncologia: o SEC está presente no microambiente tumoral e em células envolvidas na resposta inflamatória, imunológica e nociceptiva. Nesse contexto, os fitocanabinoides vêm sendo estudados como potenciais adjuvantes no manejo da dor oncológica, inflamação, caquexia, náuseas e qualidade de vida, além de possíveis interações com vias relacionadas à progressão tumoral.

A farmacocinética dos fitocanabinoides em cães e gatos apresenta alta variabilidade individual, além de diferenças expressivas conforme a formulação utilizada, como óleos, cápsulas ou outras apresentações. Os efeitos adversos relatados são, em geral, leves e autolimitantes, incluindo letargia, alterações gastrintestinais e alterações laboratoriais hepáticas em alguns casos. No entanto, a coexistência com outros fármacos, especialmente aqueles metabolizados por enzimas do citocromo P450, como anticonvulsivantes, exige atenção clínica e monitorização adequada.

Nesse cenário, a capacitação profissional e o entendimento aprofundado do Sistema Endocanabinoide tornam-se obrigatórios para uma prática segura, ética e tecnicamente responsável. Com a abertura recente do campo regulatório e científico, inicia-se agora uma fase decisiva para a construção da robustez científica exigida pela Anvisa, permitindo que a medicina veterinária avance de forma estruturada, baseada em evidências e alinhada às particularidades das diferentes espécies.

A cannabis medicinal entra na rotina veterinária com potencial legítimo, mas exige que clínicos adotem a lente da endocanabinologia: não é sobre uma molécula milagrosa, mas é sobre modular um sistema fisiológico complexo com método, evidência e responsabilidade.

 

Referências

1-SILVER, R. J. The endocannabinoid system of animals. Veterinary Sciences, v. 6, n. 4, p. 1-14, 2019. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6770351/> Acesso em 16 de fevereiro de 2026.

2-DI SALVO, A. ; CONTI, M. B. ; DELLA ROCCA, G. Pharmacokinetics, efficacy and safety of cannabidiol in dogs: an update of current knowledge. Frontiers in Veterinary Science, v. 10, 2023. Doi: 10.3389/fvets.2023.1204526.

3-CORSATO ALVARENGA, I. ; PANICKAR, K. S.  HESS, H. ; MCGRATH, S. Scientific validation of cannabidiol for management of dog and cat diseases. Annual Review of Animal Biosciences, v. 11, p. 227-246, 2023. Doi: 10.1146/annurev-animal-081122-070236.

4-Cital, S. ; KRAMER, K. ; HUGHSTONM L. ; GAYNOR, J. S. Cannabis therapy in veterinary medicine: a complete guide. Palo Alto: Springer, 2021. 612 p.

 

Conheça a Associação Medicinal de Endocanabinologia Veterinária – Amec-Vet

Entidade que representa, estrutura e fortalece a endocanabinologia veterinária. Uma associação que atua no desenvolvimento técnico, científico, ético e regulatório da endocanabinologia veterinária, compreendida como o estudo e a aplicação clínica do Sistema Endocanabinoide na saúde animal.

A associação promove uma abordagem fundamentada na fisiologia, na compreensão dos mecanismos de modulação endógena e na integração racional de diferentes estratégias terapêuticas, incluindo, mas não se limitando, ao uso de fitocanabinoides na medicina veterinária.

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