Iniciamos nossa reflexão com a famosa frase escrita por Shakespeare “Ser ou não ser, eis a questão!”, que expressa a angústia de Hamlet diante de seu dilema existencial, para trazer à tona a dúvida de todo profissional que direciona sua carreira ao atendimento de animais de companhia.
A dinâmica do mercado veterinário brasileiro, cada vez mais complexa e competitiva, impõe aos médicos-veterinários gestores um dilema estratégico fundamental: qual modalidade de atendimento se alinha melhor à sua visão, recursos e ambiente de atuação?
A escolha entre atendimento domiciliar, consultório, clínica ou hospital veterinário não é meramente operacional, mas uma decisão que molda a identidade do serviço, sua sustentabilidade e sua capacidade de entrega de valor. As Resoluções CFMV Nº 1.275/2019 e Nº 1.690/2026 emergem como pilares regulatórios, orientando essa jornada decisória e estabelecendo os parâmetros de conformidade que todo empreendimento deve observar.
A reflexão sobre a modalidade pode superar a preferência do profissional, adentrando um território de análise crítica de múltiplos fatores interconectados. A gestão eficaz, nesse contexto, reside na capacidade de decifrar as nuances do mercado e do cliente, bem como as próprias capacidades e limitações do médico-veterinário empreendedor.
Fatores determinantes na escolha da abordagem
Demanda do mercado e tendências locais
A análise da demanda local é o ponto de partida para qualquer decisão gerencial. Em centros urbanos densamente povoados, a busca por conveniência e serviços especializados é crescente, favorecendo tanto o atendimento domiciliar, pela praticidade, quanto hospitais, pela oferta completa. Em contrapartida, regiões com menor poder aquisitivo ou mais afastadas podem demandar serviços mais básicos e acessíveis, onde consultórios e clínicas generalistas encontram maior receptividade.
A humanização dos pets, impulsiona a busca por excelência em diagnóstico e tratamento, exigindo estruturas mais robustas. O bem-estar animal também realça a importância de ambientes menos estressantes, que o atendimento domiciliar e consultórios bem planejados podem oferecer. A adaptação às diversas realidades e às tendências de consumo é crucial para a longevidade do empreendimento.
Perfil e necessidades do cliente
O responsável pelo animal de companhia atual busca mais do que um serviço; ele procura uma experiência. O seu perfil, rotina, expectativa financeira e o tipo de vínculo influenciam diretamente a escolha da modalidade.
• Clientes com animais idosos ou ansiosos podem preferir o conforto e a tranquilidade do atendimento domiciliar, minimizando o estresse do deslocamento.
• Famílias com agenda apertada valorizam a flexibilidade e a comodidade.
• Muitos responsáveis exigem diagnósticos precisos e tratamentos complexos e naturalmente se inclinam por clínicas e hospitais, percebendo nessas estruturas uma maior segurança e capacidade técnica.
A comunicação transparente sobre as limitações e potencialidades de cada modalidade é vital para gerenciar as expectativas do cliente e construir uma relação de confiança. Compreender se o cliente busca um “pronto-socorro” para emergências ou um acompanhamento preventivo e contínuo define a infraestrutura e os serviços a serem priorizados.

Nível de conhecimento técnico necessário
Embora o médico-veterinário possua uma formação generalista, a profundidade do conhecimento técnico e as habilidades práticas exigidas variam significativamente entre as modalidades.
O atendimento domiciliar, embora aparentemente simples, demanda um alto grau de acuidade clínica e capacidade de diagnóstico diferencial em um ambiente com recursos limitados, além de excelente habilidade de comunicação.
Em um consultório, o foco recai sobre a medicina preventiva e clínica básica, mas a necessidade de encaminhamento para casos mais complexos é constante.
Clínicas e hospitais, por sua vez, exigem uma equipe multidisciplinar com conhecimentos aprofundados em diversas especialidades – cirurgia, anestesiologia, intensivismo, diagnóstico por imagem – e a capacidade de gerenciar casos de alta complexidade.
A responsabilidade técnica aumenta exponencialmente com a complexidade da estrutura, demandando investimento constante em capacitação e atualização profissional, não apenas para os médicos-veterinários, mas para toda a equipe de apoio.
Vantagens e desvantagens de cada abordagem
Atendimento médico-veterinário domiciliar
• Vantagens: Grande flexibilidade, conveniência para o cliente e animal (redução de estresse), custos operacionais potencialmente menores, maior personalização do atendimento.
• Desvantagens: Limitação de procedimentos (cirurgias, anestesia geral, transfusões), ausência de suporte diagnóstico imediato (exames de imagem/laboratoriais), segurança do profissional, gestão de emergências.
Consultórios veterinários
• Vantagens: Foco em consultas e procedimentos ambulatoriais, menor investimento que clínicas/hospitais, permite atender o público em geral.
• Desvantagens: Limitação de procedimentos (cirurgias, anestesia geral, internação), necessidade de encaminhamento para casos mais complexos, pode gerar percepção de capacidade limitada.
Clínicas veterinárias
• Vantagens: Equilíbrio entre serviços primários e especializados (cirurgia, internação opcional), maior capacidade de diagnóstico e tratamento que consultórios, maior potencial de faturamento.
• Desvantagens: Maior investimento em infraestrutura, equipamentos e equipe, gestão mais complexa, exigências regulatórias mais rigorosas e demanda por supervisão técnica contínua.
Hospitais veterinários
• Vantagens: Oferta completa de serviços (24h), alta capacidade diagnóstica e terapêutica, referência para casos complexos e emergências, maior prestígio e capacidade de atrair médicos-veterinários prestadores de serviço especializados.
• Desvantagens: Altíssimo investimento inicial e de manutenção, gestão extremamente complexa de equipe e operações 24h, alta responsabilidade regulatória e demanda por capital humano altamente especializado.
Análise crítica e pontos-chave para a tomada de decisão
A “questão de gestão” reside na orquestração harmoniosa desses elementos. A decisão por uma modalidade não deve ser estática, mas adaptável às mudanças do cenário. A conformidade com os normativos vigentes, considerando, além dos do CFMV, os demais dos diversos órgãos e esferas (federal, estadual, distrital e municipal) é o ponto de partida, garantindo que a base operacional atenda aos requisitos mínimos de segurança e qualidade, independentemente da escolha.
Uma análise crítica revela que o sucesso não está em ser o maior ou o mais completo, mas em ser o mais adequado à sua proposta de valor. Um atendimento domiciliar bem estruturado e com protocolos claros de encaminhamento pode ser mais rentável e satisfatório para um nicho específico do que um hospital subutilizado. Similarmente, um consultório focado em medicina preventiva pode construir uma base de clientes leais, enquanto uma clínica que tenta “ser um pouco de tudo” sem profundidade pode perder-se em sua identidade.
Os principais pontos a considerar na tomada de decisão são:
• Planejamento estratégico: Qual é a visão de longo prazo para o negócio? Onde se pretende posicionar no mercado?
• Viabilidade financeira: Qual o capital disponível para investimento inicial e manutenção? Qual o retorno esperado para cada modalidade?
• Recursos humanos: Há disponibilidade de equipe qualificada e engajada para o nível de complexidade desejado? A capacitação contínua é um pilar sustentável?
• Avaliação de risco: Quais os riscos inerentes a cada modalidade (financeiros, regulatórios, operacionais) e como mitigá-los?
• Inovação e flexibilidade: A modalidade escolhida permite futuras expansões ou adaptações às inovações tecnológicas e às novas demandas do mercado?
Comparativo de modalidades de atendimento médico-veterinário
Para subsidiar a análise sobre o que “ser” nos serviços de atendimento para animais de companhia, comparamos alguns pontos basilares.

Atendimento médico-veterinário domiciliar
Esta modalidade representa a prática veterinária realizada diretamente no local de permanência do animal. O profissional deve informar ao responsável pelo paciente as limitações do atendimento domiciliar, incluindo a eventual impossibilidade de sua realização e a necessidade de encaminhamento a um estabelecimento médico-veterinário.
• É permitido e se aplica a profissionais liberais, à iniciativa privada e aos serviços públicos.
• Embora flexível, a resolução Nº 1.690/2026 destaca que os atendimentos em estabelecimentos médico-veterinários constituem o “padrão-ouro”, oferecendo estrutura específica, maior segurança ao profissional e ao paciente, além de suporte técnico e de equipe.
• O médico-veterinário possui autonomia para decidir sobre a realização ou não do atendimento domiciliar, sendo integralmente responsável pelo ato e devendo observar os princípios da beneficência e não maleficência.
• Transporte adequado de medicamentos, vacinas, antígenos e outros materiais biológicos, em recipiente apropriado, com material refrigerante quando necessário, respeitando os limites técnicos de conservação.
• Condições de conservação e acondicionamento das amostras de material biológico durante o transporte, visando proteção do material, pessoas e ambiente.
• Qualidade e disponibilidade de equipamentos, materiais, insumos e medicamentos, conforme as exigências de cada atendimento.
• Materiais e equipamentos limpos, desinfetados e, quando necessário, esterilizados.
• Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviço de Saúde (PGRSS) e comprovação de destinação final ambientalmente adequada.
• Não há um horário de atendimento fixo estabelecido, a flexibilidade é inerente à natureza domiciliar, mas a decisão de realizar o atendimento é do profissional.
• Procedimentos obrigatórios: identificação, anamnese, exame físico, diagnóstico, prescrição, tratamentos, administração de imunobiológicos, emissão de documentos, solicitação de exames complementares, prevenção de doenças, cuidados básicos e orientações gerais.
• Limitações e restrições – o que não é permitido:
. Realizar procedimentos cirúrgicos, com exceção de sutura superficial, coleta de material biológico e drenagem de abscessos.
. Realizar anestesia geral, exceto para eutanásia.
. Realizar coleta liquórica, de derrames torácicos, pericárdicos e pleurais, e de secreções traqueobrônquicas.
. Manipular e administrar quimioterápicos antineoplásicos injetáveis.
. Realizar transfusão de sangue.
. Realizar cateterismo profundo (torácico, abdominal, cateter central de inserção periférica e cateter venoso central).
• Atenção: a fluidoterapia somente pode ser realizada durante a permanência do médico-veterinário no local de atendimento.

Consultórios veterinários
Focados em exames clínicos, procedimentos ambulatoriais e vacinação, com supervisão permanente do médico-veterinário durante o uso de sedativos e tranquilizantes. Deve oferecer ambiente acolhedor e funcional, que proporcione conforto durante a espera e privacidade durante os atendimentos.
• Horário de atendimento e flexibilidade: não especificado em resolução, mas geralmente operam em horários comerciais padrão.
• Serviços: Consulta clínica, procedimentos ambulatoriais e vacinação.
• Limitações e Restrições – o que não é permitido:
. Realização de anestesia geral.
. Realização de procedimentos cirúrgicos.
. Internação.
• É permitida a utilização de sedativos e tranquilizantes, combinados ou não com anestésicos locais, para contenção e realização de procedimentos ambulatoriais, sob supervisão e presença permanente do médico-veterinário.
• Consultórios de propriedade de médico-veterinário como pessoa física estão obrigados ao registro no Conselho Regional de Medicina Veterinária, mas não ao pagamento de taxa de inscrição e anuidade.

Clínicas veterinárias
As clínicas veterinárias oferecem tratamentos clínico-ambulatoriais, com possibilidade de cirurgias e internações, exigindo a presença profissional durante todo o período de atendimento e internação.
• Podem realizar consultas, tratamentos clínico-ambulatoriais e, opcionalmente, cirurgia e internação.
• Exigem supervisão e presença de médico-veterinário durante todo o período de atendimento ao público e/ou internação.
• A disponibilidade de atendimento cirúrgico e de internação (diurno ou integral) deve ser expressamente declarada no registro junto ao Sistema CFMV/CRMVs.
• Horário de atendimento e flexibilidade: o serviço de setor cirúrgico e de internação pode ou não estar disponível durante 24 horas por dia, devendo essa informação ser claramente expressa.
• Serviços: consultas, tratamentos clínico-ambulatoriais. Podem oferecer cirurgia e internação. Se optar por internação de pacientes com doenças infectocontagiosas, é obrigatório dispor de sala exclusiva para isolamento. A lavanderia e a sala de lavagem e esterilização de materiais podem ser suprimidas se houver terceirização desses serviços, comprovada por contrato/convênio.

Hospitais veterinários
Estabelecimentos de maior complexidade, com atendimento integral (24 horas), abrangendo consultas, tratamentos, diagnósticos, cirurgias e internações, com exigência de setores especializados completos.
• Destinados ao atendimento de animais para consultas, tratamentos clínico-ambulatoriais, exames diagnósticos, cirurgias e internações.
• Atendimento ao público em período integral (24 horas) é obrigatório, com supervisão e presença permanente de médico-veterinário.
• Serviços mínimos: consultas, tratamentos clínico-ambulatoriais, exames diagnósticos, cirurgias e internações. A lavanderia e a sala de lavagem e esterilização de materiais podem ser suprimidas se houver terceirização desses serviços, comprovada por contrato/convênio.
Considerações finais
Atualmente, não se trata meramente de escolher entre as opções existentes, mas construir um modelo de negócio que seja eticamente responsável, legalmente conforme, financeiramente viável e, acima de tudo, que atenda genuinamente às necessidades de seus clientes e pacientes por meio de serviços customizados que agreguem efetividade, valor e garantam segurança e bem-estar ao paciente e experiência positiva ao cliente.
A busca pela melhoria contínua, a gestão baseada em indicadores e a capacidade de adaptação são as chaves para transformar o dilema em um diferencial competitivo, assegurando a excelência e a sustentabilidade no dinâmico, crescente e disputado segmento, ou seja, “o que ser” no atendimento médico-veterinário de animais de companhia é, de fato, uma “questão de gestão”!
Referências
1-CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA. Resolução CFMV Nº 1275/2019, de 25 de junho de 2019. Conceitua e estabelece condições para o funcionamento de Estabelecimentos Médico-Veterinários de atendimento a animais de estimação de pequeno porte e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 jul. 2019. Disponível em: <https://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-n-1.275-de-25-de-junho-de-2019-203419719>. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.
2-CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA. Resolução CFMV Nº 1690/2026, de 21 de janeiro de 2026. Dispõe sobre o atendimento médico-veterinário domiciliar a animais de estimação de pequeno porte e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 jan. 2026. Disponível em: <https://manual.cfmv.gov.br/arquivos/resolucao/1690.pdf>. Acesso em 22 de fevereiro de 2026.