Atuação do Grad Brasil após a passagem de tornado em Rio Bonito do Iguaçu, PR
Introdução
O Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad) reúne mais de 100 especialistas de várias áreas de atuação em todas as regiões do país, unidos por um propósito: salvar vidas. Em situações de crise, o Grad leva ajuda humanitária a animais e pessoas vulneráveis, oferecendo atuação técnica, ágil e estratégica. Com uma equipe preparada para enfrentar os cenários distintos e desafiadores, o Grad se consolidou como uma das entidades de referência mundial em resposta a emergências climáticas envolvendo animais.
O Grad conta com especialistas de áreas essenciais para a resposta a desastres: médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos, biólogos, advogados, psicólogos, oceanógrafos, bombeiros civis e militares, médicos, engenheiros ambientais e florestais, gestores e outros profissionais de diferentes áreas de apoio e atenção. Essa diversidade de competências garante uma atuação completa e planejada. Onde quer que haja uma emergência, o grupo entra em ação de forma coordenada, alinhado ao comando das operações e em total sinergia com os órgãos oficiais.
No dia 7 de novembro de 2025, o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, foi atingido por um tornado de grande intensidade, confirmado pelo Simepar 1 e pela Defesa Civil Nacional. O fenômeno causou destruição generalizada, atingindo cerca de 90% da área urbana e provocando danos severos em residências (Figura 1), comércios, escolas, prédios públicos e na infraestrutura essencial.

O tornado foi inicialmente classificado na Escala Fujita como F2/F3, com ventos entre 180 e 250 km/h, porém análises posteriores apontaram trechos compatíveis com F3/F4, com estimativas de até 300-330 km/h. O evento resultou em 7 mortes confirmadas, centenas de feridos e cerca de 1.000 pessoas desalojadas 2. A escala Fujita aprimorada, ou Escala EF, que entrou em operação em 1º de fevereiro de 2007, é usada para atribuir uma classificação a um tornado com base na estimativa da velocidade do vento e nos danos causados (Figura 2). Quando os danos causados por tornados são avaliados, eles são comparados a uma lista de Indicadores de Danos (IDs) e Graus de Danos (GDs), que ajudam a estimar melhor a faixa de velocidades do vento que o tornado provavelmente produziu. A partir disso, é atribuída uma classificação de EF0 a EF5, do Serviço Nacional do Clima dos Estados Unidos 3.

Mesmo com os avanços da meteorologia nas últimas décadas, detectar fenômenos severos como tornados ainda é um grande desafio. Esses sistemas se formam de maneira muito rápida e localizada, durando poucos minutos e atingindo pequenas áreas, o que torna a previsão antecipada extremamente complexa 4.
Diante da situação causada, o município decretou calamidade pública, possibilitando a mobilização emergencial de equipes externas, assistência humanitária e ações rápidas de resposta. Assim, imediatamente o Grad enviou uma equipe para atuação no município, a qual iniciou suas atividades no dia 8 de novembro.
Objetivo
Resgatar, assistir e encaminhar de forma adequada animais vítimas do tornado que atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu no Paraná. Prestar assistência emergencial às famílias multiespécies vítimas desse desastre, com ações técnicas, e estar à disposição dos órgãos responsáveis à frente da gestão do incidente.
Metodologia
Confirmado o decreto de calamidade pública, a diretoria do Grad definiu entre seus membros a equipe de diagnóstico e atuação emergencial para o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná. Os membros residentes no Paraná se deslocaram por via terrestre de dois pontos, Curitiba e Toledo, e um outro membro de MG se deslocou via aérea. Uma segunda equipe se deslocou via terrestre de 3 pontos distintos, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com a viatura do Grad (Figura 3). Uma terceira equipe foi mobilizada com um integrante de Santa Catarina se deslocando via terrestre e outro do Mato Grosso do Sul, via aérea.

Todos os insumos básicos iniciais necessários para resgate, captura, transporte e atendimento emergencial foram levados pela equipe terrestre com a viatura de apoio oficial do Grad. Também foi definida a equipe de logística para a operação, que trabalhou remotamente em tempo integral, para viabilizar o deslocamento das equipes, alojamento, alimentação e aquisição de todos os insumos necessários.
A equipe inicial se apresentou no Posto de Comando (e foi estabelecido o Posto de Comando Avançado Veterinário – PMAV) já no início do dia 8 de novembro, colocando-se à disposição e esclarecendo a forma de atuação.
Os insumos necessários para atender aos animais, principalmente alimentos para os animais de produção, foram adquiridos em cidades vizinhas a Rio Bonito do Iguaçu. Para atuação em campo a equipe utilizou dois veículos, sendo uma caminhonete alugada e a viatura do Grad, tendo uma base de apoio no município de Laranjeiras do Sul, PR.
Foi definido o organograma (Figura 4) da missão, no qual constaram 7 coordenações, quais sejam, mapeamento de propriedades, resgates, atendimento veterinário, orientações técnicas veterinárias, manejo alimentar em zona rural, carcaças e cadáveres.

Mapeamento de propriedades
Foi realizada busca ativa nos locais atingidos (Figura 5), visto que a população estava sem acesso a internet ou serviços de telefonia, não sendo possível solicitar atendimento aos órgãos e instituições atuantes no município. Também foi adotada a estratégia de visitas aos abrigos onde os atingidos estavam alojados, para coletar informações de animais domésticos de estimação desaparecidos.

Durante o período da operação foi adotada uma abordagem de observação e registro das necessidades presentes no cenário. A cada resgate ou atendimento, foram identificadas e documentadas carências relacionadas a abrigo, acesso a água, alimentos, condições de saúde, transporte e demais fatores que impactavam a segurança e o bem-estar das pessoas e animais afetados.
Para organizar essas informações de forma sistemática, foi elaborada uma planilha contendo informações como nome dos estabelecimentos; nomes e telefones das pessoas; quantidades e espécies de animais assistidos, necessidades de alimentação e de atendimento veterinário e acompanhamento das demandas, que permitiu o acompanhamento estruturado das operações e facilitou a comunicação com os órgãos responsáveis pela assistência humanitária. Essa prática garantiu maior eficiência na articulação das respostas necessárias, ampliando o alcance do atendimento e contribuindo para um suporte mais completo às famílias multiespécies assistidas.
Resgates e atendimento veterinário
Durante os trabalhos foram realizados resgates de animais feridos (Figura 6) encontrados por busca ativa ou através de informações provenientes dos atingidos abrigados (Figura 7). Os atendimentos de urgência a campo foram realizados nas primeiras 48 horas após o tornado, consistindo em atendimento emergencial (Figura 8) e encaminhamento de animais fraturados (Figura 9A) e politraumatizados (Figura 9B) para atendimento em clínica veterinária, para realização de procedimentos complementares necessários.




Os atendimentos de média urgência (Figura 10A) foram predominantes após as primeiras 48 horas do desastre, e nesses casos observou-se grande ocorrência de feridas com tecido necrosado (Figura 10B), feridas extensas causadas por ectoparasitas (miíase ou berne) (Figura 10C), quadros de desidratação e alterações respiratórias.

Os atendimentos de baixa urgência revelaram demandas crônicas do município em relação à saúde dos animais de companhia, onde observou-se alta ocorrência de patologias dermatológicas, otológicas, oftálmicas, neoplásicas e de caráter nutricional. Também foi diagnosticada, por meio de teste rápido, a ocorrência de parvovirose e cinomose, em cães resgatados e encaminhados ao abrigo temporário organizado pela ONG local.
Foram realizados protocolos sanitários nos cães e gatos resgatados e também naqueles que permaneceram com seus responsáveis. O protocolo sanitário consiste na administração de antiparasitários internos e externos (Figura 11), aplicação de vacina antirrábica, em cães e gatos, e polivalente nos cães (Figura 12). Essa medida preventiva é fundamental após desastres para minimizar e prevenir risco de enfermidades espécie-específicas e de zoonoses, contribuindo para saúde animal e humana, que podem ser comprometidas pelo aumento da circulação de veículos, pessoas e animais, aumento de contato interespécies, perturbação e danos ambientais, além do quadro de estresse e trauma dos animais vitimados.


Orientações veterinárias
Os médicos-veterinários voluntários no abrigo temporário e membros da ONG foram orientados pelos profissionais do Grad (Figura 13) sobre as regulamentações atuais, principalmente em relação a vacinação, manejo de resíduos infectantes, acondicionamento de medicação controlada e o fluxo de atendimento visando evitar disseminação de doenças infectocontagiosas e risco de perda de medicação de uso restrito.

Os voluntários do campo foram orientados pelos membros do Grad sobre os riscos existentes, disseminação de doenças infectocontagiosas, cadáveres e carcaças e georreferenciamento dos animais nas propriedades.
Os responsáveis pelos animais de produção ou companhia foram orientados sobre manejo alimentar, cuidados com feridas, prescrições veterinárias, guarda responsável e sobre a necessidade posteriormente de um programa de manejo populacional com registro dos animais locais e castração dos animais de estimação (Figura 14).

Manejo alimentar na zona rural
Durante as buscas ativas observou-se a necessidade emergencial do fornecimento de alimentação para os animais que permaneceram nos locais atingidos (Figura 15), principalmente os animais de produção, visto que não havia local adequado para transferi-los, e os responsáveis optaram pela manutenção dos mesmos em seus locais de origem, mesmo com as estruturas danificadas (Figura 16). Uma demanda recorrente nas propriedades mapeadas e atendidas foi a necessidade de ração, milho e feno (Figura 17). O destelhamento dos imóveis e também a umidade causada pela chuva ocasionaram a perda de muitos alimentos. Devido a condição dos locais, a proposta foi de não estocar alimentos nas propriedades. Para atender tal demanda foi adquirida grande quantidade desses alimentos e distribuída de acordo com a necessidade de cada propriedade (Figura 18).




Carcaças e cadáveres
O manejo adequado das carcaças em um cenário de desastre é de extrema importância na prevenção da contaminação ambiental, além de prevenir a disseminação de vetores e doenças para os animais domésticos, a fauna silvestre e os seres humanos. Durante a atuação do Grad, os moradores foram orientados devidamente sobre o manejo correto das carcaças e foram reportados ao comando os casos onde seria necessária a intervenção do órgão responsável por essa destinação.
Não foi possível estabelecer um número exato de animais que vieram a óbito visto que não havia um levantamento prévio do número por propriedade de animais de produção ou domésticos. Os dados coletados vieram dos relatos dos moradores e da observação de carcaças e cadáveres pela equipe.
Resultados
No total, 16 membros atuaram na missão (Figura 19), entre médicos-veterinários e bombeiros civis (Figura 20). Durante o período de atuação das equipes do Grad no município, foram realizados 134 atendimentos veterinários. Esses atendimentos podem ser categorizados como de alta, média ou baixa urgência (Figuras 21 a 23).
| Nome | Profissional | Função no Grad |
| Andressa Moreno | MV, CRMV-MS: 30.421 | integrante – campo |
| Artur Gava dos Santos | MV, CRMV-PR: 18.547 | integrante – campo |
| Brenda Alessandra | MV, CRMV-SE: 1.248 | integrante – comunicação |
| Carla Sassi | MV, CRMV-MG: 11.019 | presidente – logística |
| Cleiton Marcelino Dias | bombeiro civil, eng. civil | integrante – logística |
| Cristiane Diniz Candido | bombeira civil | integrante – financeiro |
| Enderson Barreto | MV, CRMV-MG: 24.917 | diretor – logística |
| Fabiana Merida | MV, CRMV-SP: 60.755 | integrante – logística |
| Flávia Trindade | jornalista | diretora – comunicação |
| Giulia Distefano | MV, CRMV-PR: 20.487 | integrante – campo |
| Juliana Trindade | MV, CRMV-RJ: 7.579 | integrante – campo |
| Mariana Souza de Paula | MV, CRMV-MG: 16.872 | integrante – campo |
| Marilyn Nascimento | bombeira civil | diretora – comando de operação |
| Rafaela Letícia Zlyhan | MV, CRMV-SC: 12.921 | integrante – campo |
| Sabrina Lana | bombeira civil, téc. enfermagem | integrante – segurança e enfermagem |
| Vania Plaza Nunes | MV, CRMV-SP: 4.119 | vice-presidente – logística |
Figura 19 – Membros do Grad que atuaram no município de Rio Bonito do Iguaçu, PR, em 2025




Foram realizadas realocações de animais que se encontravam em áreas de alto risco, utilizando técnicas de busca e resgate em estruturas colapsadas (Brec). Foram realocados 159 animais, sendo 4 felinos, 4 caninos, 1 leitão e 150 porcas (Figura 24). Foram realizados 77 protocolos sanitários em cães e gatos; e contabilizados 263 óbitos (bovinos: 3; suínos: 2; ovinos/caprinos: 2; aves: 253; caninos: 2; felinos: 1) de acordo com relato dos moradores e observação de carcaças pela equipe. Foram adquiridas e distribuídas 2,5 toneladas de alimentos para os animais (ração para cães/gatos: 560 kg; proteinado/ração concentrada: 775 kg; milho inteiro: 640 kg; quirera/farelo de milho: 525 kg) e 70 fardos de feno.

A contagem dos animais nas propriedades se deu de acordo com o relato dos proprietários, pela contagem realizada pela equipe e por resgates ou atendimentos, totalizando 1.499 animais assistidos em Rio Bonito do Iguaçu, PR (Figura 25).

Sob responsabilidade do Grad, foram encaminhados para clínicas veterinárias, para procedimentos ortopédicos, 3 cães (Figura 26) e 1 gato. Foram mapeadas e assistidas 39 propriedades.

O uso do aplicativo de navegação por satélite Avenza permitiu à equipe mapear a região afetada no caminho do tornado (Figura 27), fornecendo dados de demandas específicas para o comando, além de permitir assistência contínua às propriedades mais afetadas.

Atendimentos de primeiros socorros
Durante a operação, também foram realizados atendimentos de primeiros socorros à população afetada. A técnica de enfermagem e bombeira civil da equipe atuou diretamente nos casos que envolveram queixas clínicas, pequenos ferimentos (Figura 28), mal-estar e outras situações que demandavam avaliação imediata.

Após cada atendimento, realizaram-se triagem e registro das informações pertinentes e efetuaram-se os encaminhamentos necessários para as equipes de saúde responsáveis pela continuidade do cuidado. A atuação dessa profissional assegurou uma resposta rápida, qualificada e alinhada aos protocolos de assistência em cenários de desastre, contribuindo significativamente para a proteção da saúde e do bem-estar das pessoas atendidas.
Conclusões e considerações finais
A metodologia estabelecida para esse trabalho no município atingido pelo tornado se mostrou eficaz, com todo o território mapeado e todas as informações, demandas e necessidades dos animais inseridas e avaliadas, e os animais cuidados no campo (Figuras 29 a 31).



As equipes se mostraram totalmente produtivas e integradas aos órgãos oficiais, assim como às ONG´s e voluntários locais, fator essencial para um resultado satisfatório.
Todos os animais que necessitaram de atendimento veterinário ou realocação foram assistidos, evidenciando eficiência e agilidade da equipe na atenção aos animais.
Foram elaborados relatórios diários resumidos, os quais eram encaminhados ao comando do incidente, assim como um relatório final completo, contendo as informações das ações do Grad, e um compilado de ações necessárias para que as famílias multiespécies continuassem sendo assistidas pelo poder público (Figura 32).

A desmobilização ocorreu 13 dias após o início, quando as demandas eram na maioria de problemas crônicos e de acordo com a capacidade do município em atender as necessidades das famílias multiespécies atingidas.
A resposta ao desastre fornecida pelo Grad foi extremamente rápida e necessária, visto o número de animais e propriedades assistidos, sendo essencial no momento inicial após o incidente (Figura 33). A forma de trabalho e a integração das equipes do Grad a campo e de logística foram altamente produtivas, possibilitando um resultado positivo, com ações emergenciais eficazes para os animais atingidos e as famílias multiespécies.

Agradecimentos
À Comissão de desastre do CRMV-PR, à Rede Estadual de Manejo de Animais em Desastres (Remad), aos Bombeiros Militares do Paraná, à Defesa Civil do Paraná, ao Pet shop Menegas, à Clinipop Veterinária Cascavel, à Agroveb, à Coasul, à ONG SOS Bicho Vivo, à Plantar, à Coordenação do Programa da Raiva – SESAPR, à Secretaria Municipal de Saúde de Laranjeiras do Sul, ao deputado Matheus Laiola e equipe, e a todos os membros do Grad que atuaram na missão.
Referências
1-Secretaria da Comunicação. Governo do Estado do Paraná. Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná – Simepar. Município de Rio Bonito do Iguaçu foi atingido por um tornado, confirma Simepar. 7 de novembro de 2025. Disponível em: <https://www.comunicacao.pr.gov.br/noticias/aen/7824090a-a049-48cb-b436-d8c7b0ca72bb>, acesso em 25 de novembro de 2025.
2-ASSAD, P. Tornado no Paraná: como fundiona escala que mede intensidade do fenômeno. O Globo, 2025. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/11/08/tornado-no-parana-como-funciona-escala-que-mede-intensidade-do-fenomeno.ghtml>, acesso em 25 de novembro de 2025.
3-The Enhanced Fujita Scale (EF Scale). National Weather Service, 2025. Disponível em: <https://www.weather.gov/oun/efscale>, acesso em 25 de novembro de 2025.
4-PIERDONÁ, I. A caça ao tornado: como a inteligência climática ajuda o Brasil a se preparar para eventos extremos. Metos Brasil. 13 de novembro de 2025. Disponível em: <https://metos.com.br/a-caca-ao-tornado-como-a-inteligencia-climatica-ajuda-o-brasil-a-se-preparar-para-eventos-extremos/>, acesso em 26 de novembro de 2025.




