Simpósio de medicina veterinária de desastres promove a qualificação profissional

Simpósio de medicina veterinária de desastres promove a qualificação profissional

Introdução

O I Simpósio Mineiro de Medicina Veterinária de Desastres, realizado nos dias 22 e 23 de novembro de 2019, em Belo Horizonte, teve como objetivo capacitar seus participantes nos aspectos teóricos e práticos, buscando compatibilizar a formação de profissionais da área e de estudantes interessados, com destaque para a abordagem do médico-veterinário nas áreas de resgate animal, medicina veterinária legal, clínica médica veterinária, gestão e medicina veterinária do coletivo.

No aspecto teórico, foram revistas as atribuições dos órgãos competentes que atuam em situações de calamidade, com descrição de sua função e da colaboração de cada um deles – Defesa Civil, Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), peritos criminais e médicos-veterinários especializados na atuação em situações de desastre.

No aspecto prático, ofereceram-se várias simulações sobre as diversas funções e atuações envolvidas em eventos de catástrofes, com treinamento dos participantes.

O evento foi promovido pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pelo Grupo de Resgate a Animais em Desastres (Grad), em parceria com a Sociedade Mineira de Medicina Veterinária (SMMV). O I Simpósio de Desastres foi um marco importante na medicina veterinária de desastres no Brasil e deu contribuição fundamental para o aprimoramento de planos de contingência futuros e sua adaptação aos ambientes e necessidades.

A importância dos planos e recursos de contingência

Chamam-se de desastres de massa os acidentes coletivos com grande número de vítimas graves ou fatais. Na maioria das vezes, eles decorrem da forma de convivência dos seres humanos, levados a habitar áreas geográficas reduzidas e com alto índice de concentração demográfica. Um fator adicional é o avanço incontrolável das disponibilidades tecnológicas, com a criação do que se rotulou de “risco de proveito” ou “risco criado”, conhecido e avaliado, mas do qual ninguém abre mão, o que cria uma “tecnologia de catástrofe” ¹.

Nos últimos anos, a inclusão de animais de companhia nos planos nacionais de preparação para desastres tornou-se mais prevalente. Isso se deve em parte a estudos realizados durante ou após desastres, mostrando os impactos negativos significativos nas comunidades provocados pela ausência de planos que incluam animais domésticos ². Apesar desse crescente conjunto de informações, os animais de companhia continuam sendo excluídos dos planos de preparação na maioria dos países ³, ficando sujeitos a abandono ou perda, falta de comida e água, ausência ou abrigo inadequado, ferimentos, doenças e aprisionamentos, cuja magnitude depende da localização, da gravidade do desastre e da disponibilidade de planos e recursos de contingência para lidar com eles. Não é possível prever o momento, o local e as características exatas em que as catástrofes acontecem, mas o planejamento prévio, com base no passado conhecido e nas lições aprendidas ⁴, permite mitigar muitos desses efeitos negativos.

Principais palestras e atividades

A parte teórica contou com palestrantes que já atuaram em eventos de desastres ocorridos no Brasil e que transmitiram os conhecimentos adquiridos durante as experiências pessoais.

Prevenção, planos de contingência e gestão dos desastres

A médica-veterinária e mestre em ciência animal Laiza Bonela Gomes discorreu sobre a importância dos planos de contingência e gestão de desastres, já que estes não têm data nem hora marcada para acontecer. A prevenção é essencial para evitar que ocorram catástrofes, por isso os desastres passados servem de lição e aprendizado para organizar e remediar futuros acontecimentos. A gestão dos desastres deve ser feita por profissionais capacitados, que saibam respeitar a organização hierárquica e tenham conhecimento e prática em gestão para elaborar planos com rapidez e eficiência.

A adoção de protocolos integrados, planos de contingência e sistemas de comando unificado parece ser o caminho mais concreto para a excelência das atividades em cenários caóticos ⁵.

Medicina veterinária legal aplicada a desastres em massa

Este tema foi desenvolvido pelo médico-veterinário Sérvio Túlio Reis, que destacou que as tragédias acontecem quase sempre por fatores de intervenção do homem na natureza. Ele destacou que a presença do perito médico-veterinário é importante, entre outras coisas, para o trâmite legal relacionado aos óbitos ocasionados pelo desastre, pois é preciso elaborar documentos para a comprovação de danos aos animais vitimados pelo evento.

Proteção e defesa civil

As atribuições de proteção e defesa civil são extensas e dependem muito dos tipos de eventos climáticos mais recorrentes e das caraterísticas de cada município. Em palestra sobre o tema, o tenente Damasceno enfatizou que a Defesa Civil tem também a missão de levantar e identificar as áreas de riscos, as ameaças que sofrem e suas vulnerabilidades 6. Outro trabalho que ela precisa realizar de forma continuada é o de conscientizar a comunidade sobre os perigos decorrentes de uma calamidade, a fim de mobilizar e capacitar voluntários para a execução das ações de prevenção. Cabe ainda a ela estabelecer o cenário afetado, divulgar alertas e alarmes, socorrer, dar assistência, mapear e estabelecer as áreas de risco e de segurança em casos de emergência, analisar danos e a documentação relacionada às situações de anormalidade, além de prestar apoio na recuperação do cenário afetado por desastres ⁶.

Busca e salvamento com cães na operação Brumadinho

O tenente Dutra, bombeiro militar, discorreu sobre o tema da utilização de cães nas operações de busca e salvamento. Em Brumadinho, os cães, mais do que uma ajuda, foram peças fundamentais para o êxito na procura de todas as vítimas. Treinados desde filhotes, cães bombeiros de diversas regiões do país vieram a Brumadinho contribuir com a operação. É importante cuidar muito bem desses animais, com atenção médico-veterinária, períodos de descanso, banhos frequentes devido à interação com rejeitos contaminados e manutenção em dia da prevenção de doenças, com proteção vacinal e uso de coleira repelente.

Tipos de desastres e a atuação do médico-veterinário nessas circunstâncias

A médica-veterinária Vânia Plaza Nunes ressaltou que durante um desastre, parte da população atingida pode viver situações extremas de sofrimento físico e psicológico, provocado por insegurança, medo e pelas perdas pessoais, exigindo das equipes de médicos-veterinários apoio além da assistência aos animais. A presença de médicos-veterinários nos resgates é fundamental, pois quando os animais não são levados em conta no manejo do resgate, as pessoas podem se recusar a sair de casa e ir para abrigos temporários se não for garantido o resgate seguro, a assistência, a alimentação e a dessedentação dos seus animais de companhia e/ou de produção ⁷.

Nos desastres, o médico-veterinário atua em grande número de áreas – gestão e logística, resgate, evacuação, transporte e triagem, atendimento clínico, alojamento e manejo de abrigos, protocolos sanitários e de bem-estar animal, epidemiologia e saúde pública veterinária, controle da população de vetores e reservatórios de zoonoses – que, após um desastre, podem ameaçar a saúde única –, perícia e investigação, avaliação de riscos e caracterização dos danos aos animais e ao ambiente por meio de amostras e evidências, determinação, de maneira técnica e transparente, do impacto disso em curto, médio e longo prazo, proposição de medidas para mitigar os efeitos do evento, dar assistência a cães farejadores e assumir a responsabilidade cívica de auxiliar os socorristas quadrúpedes, tão indispensáveis e que tanto fazem em prol das vítimas de desastre. Devem ainda dar atenção a agentes potencialmente tóxicos que podem estar presentes em diversas formas físicas e afetar os cães por meio do contato e da ingestão, inalação ou exposição, originando intoxicações agudas ou lesões crónicas ⁷.

Conteúdo prático

O conteúdo prático foi estruturado de acordo com o seguinte esquema:

Posto de comando

Foi mimetizada no simpósio a ação do posto de comando em uma situação de desastre. A atividade, comandada pela médica-veterinária Ana Liz Bastos e pelo tenente Zago, médico-veterinário e bombeiro militar do estado de São Paulo, levou os participantes do simpósio a atuar nos diversos setores envolvidos nesse tema.

Essa área é composta por profissionais habilitados que realizam a coleta de dados sobre o número de animais vitimados, sua espécie, localização e as condições para o seu socorro, além das infraestruturas danificadas ou em risco, o que é depois utilizado para formular um inventário sistematizado – por exemplo, a classificação do acidente, sua localização e hora exata, tipos de perigos presentes e potenciais, tipos e vias de acesso, número de animais vitimados e capacidades de apoio existentes. A coleta de dados é fundamental para todo tipo de informação que chega ao posto de comando (Figuras 1 e 2).

O posto de comando é essencial, pois compete a ele fazer a comunicação com diversos órgãos, como o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Polícia Federal, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG).

Resgate de animais

Após a ocorrência de desastres, é comum encontrar animais submetidos a diversos cenários de calamidade – presos a escombros, lama e água, entre outros.

É imprescindível que os resgatistas saibam lidar com essas distintas situações, para que possam salvar a vida dos animais de forma técnica, segura e precisa. Foram realizadas atividades práticas de manejo, preparando os participantes tecnicamente para lidar com situações de desastres (Figuras 2 a 6).

Foram criadas simulações com cadáveres de animais de grande porte que faleceram na fazenda da UniBH e que seriam utilizados em aulas de anatomia e de animais de pequeno porte cedidos por clínicas veterinárias parceiras da instituição. Esses procedimentos receberam autorização do comitê de ética da instituição, para os participantes poderem vivenciar as aulas práticas de maneira mais próxima do que seria uma situação real de desastre.

Hospital veterinário

Durante o simpósio, os médicos-veterinários Abílio Rigueira Domingos, Tamires Derzil Verazani e Bárbara França simularam a estruturação e o funcionamento de um “hospital veterinário de campanha” (Figura 7), evidenciando a importância de saber montá-lo de forma que possa atender às diversas demandas que surjam no local. Foram praticadas as diversas etapas do atendimento para garantir que todos os procedimentos, desde a recepção até a alta do animal, fossem abordados.

 

Os alunos foram divididos em grupos alocados em consultórios diferentes e ficaram responsáveis por atendimentos emergenciais de animais de pequeno porte, após serem resgatados da lama.

Perícia médico-veterinária

Outra prática importante oferecida pelo simpósio foi a atividade relacionada com o momento de busca e resgate de animais. Simulou-se a ação do perito médico-veterinário, demonstrando-se as ações executadas por um perito em situações de desastre. É importante que tais ações sejam realizadas de forma sistematizada, a fim de garantir a preservação dos vestígios para a promoção de provas futuras, assim como se faz numa situação em que não se comprove dolo. Um organograma dessa atuação deu aos alunos uma compreensão melhor das diversas etapas (Figura 8).

Referências

1-FRANÇA, G. V. Desastres de massa – sugestões para um itinerário correto de auxílios. Revista Bioética, v. 2, n. 2, p. 123-128, 1994. Disponível em: <http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/view/471>. Acesso em: 28 de dezembro de 2019.

2-GLASSEY, S. ; WILSON, T. Animal welfare impact following the 4 September 2010 Canterbury (Darfield) earthquake. Australasian Journal of Disaster and Trauma Studies, v. 2, p. 49-59, 2011.

3-HEATH, S. E. ; VOEKS, S. K. ; GLICKMAN, L. T. Epidemiologic features of pet evacuation failure in a rapid-onset disaster. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 218, n. 12, p. 1898-1904, 2001. doi: 10.2460/javma.2001.218.1898.

4-SANTOS, N. O. C. L. A medicina de catástrofes na marinha. A resposta da medicina naval em caso de catástrofe. 2013. 75 f. Trabalho (Investigação Individual) – Curso de Promoção a Oficial General, Instituto de Estudos Superiores Militares, Pedrouços, 2013.

5-MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL. Política nacional de defesa civil. Brasília: Secretaria de Defesa Civil, 2000. 53 p. Disponível em: <http://www.gabinetemilitar.mg.gov.br/images/documentos/Defesa%20Civil/manuais/Pol%C3%ADtica-Nacional-de-Defesa-Civil.pdf>. Acesso em 28 de dezembro de 2019.

6-REIS, S. T. A atuação da brigada veterinária no resgate de animais em Brumadinho. Conselho Federal de Medicina Veterinária, 2019. Disponível em: <http://portal.cfmv.gov.br/noticia/index/id/6000/secao/6>. Acesso em 28 de dezembro de 2019.

7-VIEIRA, J. F. M. Medicina veterinária de desastres e catástrofes – contributo para a extensão do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Lisboa aos Animais de Companhia. 2016. 91 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2016.

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