Tecnologia da informação

O que os tutores precisam saber sobre microchips e como o médico-veterinário pode contribuir

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Marcelo Sader

Consultor em TI para o mercado veterinário

NetVet Tecnologia para Veterinários

www.netvet.com.br

marcelo@netvet.com.br 

 

 

Luciana Midori Murata

MV, CRMV-SP: 42.334

Consultora de TI para o mercado veterinário

midori9213@gmail.com

 

 

A história dos microchips é antiga; no entanto, muitos tutores não conhecem o básico sobre esses dispositivos e com isso acabam criando falsos conceitos e expectativas impossíveis de concretizar.


A tecnologia que se refere aos microchips de identificação animal é conhecida como Identificação por Radiofrequência (Radio Frequency Identification Technology - RFID). Os primeiros microchips, ou transponders, como eram chamados, foram usados na Segunda Guerra Mundial. Os alemães, japoneses, americanos e britânicos usavam radares para alertar sobre a aproximação de aviões enquanto ainda estavam a quilômetros de distância. O problema era que não havia como identificar que aviões pertenciam ao inimigo e quais deles retornavam ao seu país depois de uma missão. Os britânicos colocaram então um transponder em cada avião, que modificava o sinal de rádio enviado pelo radar, e dessa maneira a equipe em terra conseguia diferenciar os aviões amigos dos inimigos.


A identificação animal baseada na tecnologia RFID começou a ser usada na década de 1970, em fazendas de criação de gado de leite. A Universidade de Cornell desenvolveu uma etiqueta em cujo interior havia um transponder que ficava pendurado no pescoço do animal. Quando o animal se aproxima de um leitor, uma antena nesse leitor transmite um sinal de rádio para ativar o chip RFID. O chip então envia de volta um sinal contendo o número de identificação do animal. O leitor pode ainda estar conectado a um computador, no qual o número é usado para identificar o registro do animal em um banco de dados. Agricultores e pecuaristas usam etiquetas para monitorar uma série de indicadores, incluindo dosagem de medicamentos, produção de ração, peso e produção de leite. O mesmo princípio se aplica à identificação eletrônica de animais de companhia e animais silvestres; no entanto, nesses casos, os microchips são implantados no tecido subcutâneo dos animais, e os leitores são leves, portáteis e dotados de um display que exibe o número do microchip implantado (Figura 1).


A mesma tecnologia é usada em lojas de roupas, onde uma etiqueta contendo um microchip é fixada em todos os itens disponíveis no estabelecimento. Caso um consumidor tente sair da loja sem retirar a etiqueta, ao passar por leitores colocados na saída um sinal sonoro é emitido, indicando que o microchip foi identificado.


 

Por que implantar um microchip no animal?

O microchip é um dispositivo de identificação animal. O número gravado no circuito integrado do transponder é único, independentemente da espécie ou do país de origem. Os protocolos internacionais de criação e trânsito de animais são baseados em identificação eletrônica. Os criadores precisam microchipar seus animais para poder registrá-los ou mesmo enviá-los para outros países. O trânsito regional também é regulamentado com base em identificação eletrônica. Os animais silvestres, quer sejam mantidos em zoológico ou em cativeiro, com autorização dos órgãos competentes, também precisam estar microchipados.


A preocupação com o extravio de animais de companhia é um dos motivos que levam os tutores a microchipar seus animais. Alguns fabricantes de microchips mantêm um cadastro online de animais microchipados e liberam o acesso a esses dados para os médicos-veterinários. Assim, se o animal é microchipado, a probabilidade de localizar seu tutor é bem maior do que quando ele é identificado apenas por uma plaquinha.


Recentemente, a identificação eletrônica tem sido usada para reforçar a responsabilidade dos tutores pela guarda dos animais, reduzindo assim o abandono. Diversos estudos mostram que os tutores tendem a não abandonar animais microchipados, pois sabem que poderão ser identificados e seus donos, localizados e até mesmo punidos com multas ou de outras maneiras 1.

 


Trata-se de um dispositivo passivo

É importante salientar que o microchip não tem fonte de energia própria, e por isso é caracterizado como um dispositivo passivo; ou seja, para funcionar, ele depende de uma fonte de energia externa que é fornecida pelo leitor na forma de frequência de rádio.


Outro ponto extremamente importante é o fato de que o microchip tem apenas um número. Informações como nome do animal, telefone de contato com o tutor, histórico de vacinas ou doenças não podem ser armazenadas no microchip. Os veterinários registram o número do microchip nos sistemas de gestão de clínicas veterinárias, e assim é possível acessar todas as informações do animal, inclusive o prontuário clínico.


Frequentemente tutores mal informados criam a expectativa de que o animal microchipado possa ser rastreado via satélite; assim, acreditam que, caso o animal seja roubado ou se perca, possa ser localizado facilmente, o que é um equívoco. A conectividade com celular via bluetooth também não é possível. Cabe ao veterinário explicar de maneira inequívoca o escopo da tecnologia de RFID e deixar claro quais são os seus recursos e as suas limitações.


A inserção do microchip é segura, sendo possível aplicá-lo sem necessidade de anestesia ou sedação, pois a agulha é semelhante às utilizadas na rotina veterinária, diferenciando-se apenas no tamanho do calibre, e a aplicação é feita geralmente entre as escápulas (Figura 2). O microchip é do tamanho de um grão de arroz (Figura 3). Ele é envolvido por uma cápsula de biovidro cirúrgico revestida de substâncias antimigratórias, sendo quase nulas a rejeição e a migração, visto que se forma uma cápsula de fibrose ao seu redor.

 


Equipamentos disponíveis no mercado

A escolha do leitor e dos microchips pode representar um desafio extra para os médicos-veterinários, principalmente para aqueles que não estão acostumados com a tecnologia. A boa notícia é que existem duas normas ISO sobre o tema. Para aqueles que não a conhecem, ISO é a sigla de International Organization for Standardization (Organização Internacional para Padronização). A ISO é uma entidade de padronização e normatização cujo objetivo principal é aprovar normas internacionais em todos os campos técnicos. A padronização internacional sobre microchips são as ISO 11.784 e ISO 11.785 2. Usando equipamentos que atendem a essas duas normas, o médico-veterinário estará trabalhando em conformidade com a maioria dos países e estará amparado pelas boas práticas relacionadas à identificação eletrônica de animais.




Parte integrante do artigo publicado na revista Clínica Veterinária, Ano XXVII, n. 156, janeiro/fevereiro, 2022.


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