Bem-estar animal

O impacto da seleção artificial no bem-estar dos coelhos domésticos



Isabelle Tancioni

MV, CRMV-SP 10.750, mestre, dra.

Presidente da Best Friend Alliance

Coordenadora no Brasil da Global Animal Advocacy Program (The Pollination Project)

belletanjoni@gmail.com




Renato Silvano Pulz

MV, CRMV-RS 5.385, mestre, dr.

Professor da Universidade Estácio

renatopulz@gmail.com





A popularidade dos coelhos domésticos como animais de companhia está aumentando, e com isso mudanças gradativas que asseguram o status dos coelhos como animais de companhia vêm sendo implementadas nos últimos 25 anos 1-3. Muitas das conquistas associadas à promoção de vários aspectos relacionados com a ética e o bem-estar dos coelhos domésticos resultam da atuação da Rabbit Welfare Association & Fund (Associação e Fundo do Bem-Estar dos Coelhos - RWAF) no Reino Unido 4. A história da RWAF teve início em 1996, com a inauguração da British House Rabbit Association (Associação do Coelho Domiciliado Britânico - BHRA). A partir de 2000, essa organização criou um fundo para obter e destinar financiamentos a trabalhos educacionais e de pesquisa relacionados ao bem-estar dos coelhos 5.


O coelho é o terceiro mamífero mais comum como animal de companhia nos Estados Unidos e no Reino Unido 6,7. No Brasil, a Associação Científica Brasileira de Cunicultura (ACBC) estima que quase meio milhão de coelhos convivem com seres humanos como animais de companhia 8. Esses animais são erroneamente categorizados como fáceis de cuidar e manter, descartáveis, ideais para crianças e principiantes. Dessa forma, os tutores frequentemente se surpreendem ao conhecer as necessidades dos coelhos associadas aos pilares do bem-estar 4.


Muitos dos parâmetros do bem-estar dos coelhos são provenientes da sua produção comercial. Nessas condições, os coelhos adultos criados como matrizes são alojados isolados, mantidos em gaiolas suspensas de dimensões pequenas e com pisos engradados. Ainda recebem alimentos ricos em carboidratos, que têm como finalidade proporcionar o rápido ganho de peso 1,9. O manejo associado à criação comercial de coelhos é extremamente simplificado e não pode ser extrapolado quando se visa a longevidade do animal 9. Consequentemente, ter um coelho como animal de estimação demanda mais recursos do que inicialmente se imagina 9. Dessa forma, a utilização de parâmetros de bem-estar que analisam o ganho de peso, entre outras características importantes na cunicultura, é um grande obstáculo para a implementação dos pilares de bem-estar que promovem o conceito de que coelhos são membros da família.


Para a promoção do bem-estar dos coelhos, os profissionais da RWAF baseiam-se no Animal Welfare Act (Ato de Bem-Estar) de 2006 10. De acordo com ele, os cinco pilares essenciais para o bem-estar dos coelhos estão relacionados às necessidades deles:

1 - viverem em um ambiente apropriado;

2 - consumirem uma dieta adequada;

3 - poderem exibir padrões de comportamento normais;

4 - estarem alojados com animais da mesma espécie e protegidos de outras espécies de animais; e

5 - estarem protegidos de dor, sofrimento, lesões e doenças 11,12.


As informações com mais detalhes sobre os pilares do bem-estar dos coelhos estão disponíveis na terceira parte da série de artigos especiais publicados nas edições 153, 154 e 155 da revista Clínica Veterinária 13. Convém ressaltar que a ciência do bem-estar animal se ocupa em estudar a forma como os seres humanos se relacionam, tratam e criam os animais. Entre eles, os coelhos são diretamente afetados por essas ações, seja na criação intensiva ou como animais de companhia.


O coelho é tão senciente quanto qualquer outra espécie doméstica, logo, está protegido pelas normas que regulam as práticas de bem-estar animal, mas também pelo art. 32 da Lei no 9.605/1998, que trata do crime de maus-tratos aos animais.


Os médicos-veterinários que dão assistência aos coelhos devem estar familiarizados com as doenças mais comuns desses animais e com os tratamentos mais apropriados 13. Além disso, a identificação da dor é essencial tanto para sanar as questões éticas quanto para o auxílio no tratamento de enfermidades 13,14. Por serem presas, os coelhos não demostram dor e mascaram os seus sinais; assim sendo, os médicos-veterinários sem treinamento na espécie e muitos tutores têm mais dificuldades em reconhecer precocemente os sinais associados a doenças, tornando o tratamento ainda mais difícil 13,15.


Esse fato, aliado à presença de características selecionadas artificialmente, resultou, por exemplo, em animais com orelhas caídas e braquicefálicos - características essas que podem intensificar o seu sofrimento, que muitas vezes não é detectado 16.


Sabe-se que, por mais que os médicos-veterinários promovam fatores positivos e diminuam a presença dos fatores negativos na vida de um coelho, pouco se pode fazer em relação à presença de uma característica preexistente que foi selecionada e está conectada ao sofrimento dos animais 4. Debater esse assunto é uma das formas pelas quais os médicos-veterinários e os tutores podem avaliar os efeitos de uma característica fenotípica no bem-estar de um animal. Portanto, ter conhecimento sobre os impactos de uma determinada característica na vida de um coelho pode esclarecer a sociedade e ainda promover mudanças nos seus desejos a respeito da seleção dessas características. É importante a análise e a reflexão a respeito de qual é o limite da seleção de características associadas à conformação extrema nos coelhos domésticos 17.

 

A seleção das características e o seu efeito no destino dos coelhos

Os coelhos estão presentes em diversas áreas e setores, diferentemente dos cães e gatos, que já têm status de animais de companhia no Ocidente 18,19. A maioria dos coelhos criados no mundo são destinados ao mercado de carne e pele 19,20.


No Brasil, os coelhos são categorizados como animais de produção. Dados da Associação Científica Brasileira de Cunicultura (ACBC) mostram que aproximadamente 780.996 coelhos foram abatidos em 2019 8. Dessa forma, eles podem ter um valor intrínseco quando criados como animais de estimação e um valor instrumental quando destinados aos setores de alimentos, cosméticos e vestimentas 21.


Todas as raças de coelhos são originárias de um único ancestral: o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus), nativo da península Ibérica 22-24. Um estudo publicado em 2018 demostrou que a divisão entre coelhos selvagens e domésticos ocorreu entre o período de 12.200 e 17.700 anos atrás 25. É importante salientar que os coelhos foram selecionados artificialmente de acordo com certas características como peso e tipo de pelagem 14.


As diferenças fenotípicas entre os ancestrais de coelhos selvagens e domésticos surgiram a partir do século XVIII 26. Somente a partir de meados de 1800 surgiram coelhos de diferentes tamanhos e com variações no padrão de cores de pelagem, o que motivou a criação de raças em 1900 9. As raças de coelhos exibem uma variedade de tamanhos, conformações corporais, tipos e cores de pelames e comprimentos das orelhas, sendo que essa grande exuberância de variação morfológica é superior à diversidade fenotípica observada nos ancestrais selvagens 24. Além disso, o conceito de raça foi totalmente delineado pelos seres humanos, já que as raças de animais não existem de forma natural na vida selvagem 17. Via de regra, a seleção artificial na criação animal atende a critérios de utilidade para o ser humano, em detrimento do bem-estar da espécie, muitas vezes causando enfermidades físicas ou comportamentais que são transmitidas geneticamente.


Há aproximadamente 300 raças de coelhos no mundo 17. No entanto, 47 delas são reconhecidas pela American Rabbit Breeders Association (Associação Americana de Criadores de Coelhos - ARBA), enquanto 50 são reconhecidas no Reino Unido e 40 são encontradas no Brasil 9,27. As mais populares no Reino Unido e no Brasil são: lop, holândes, minilop, holandês-anão, rex e cabeça-de-leão (Figura 1) 28,29.


Como se pode observar em tutores de cães e gatos, os tutores de coelhos também frequentemente têm preferências em relação a raças e as enaltecem 17. Um estudo que analisou mais de 20 mil respostas adquiridas a partir de um questionário online mostrou que a preferência por coelhos braquicefálicos era unânime em todos os continentes 30. Isso indica que as pessoas escolhem os coelhos pela aparência associada à fragilidade de um bebê (baby schema), que inclui olhos maiores, crânio protuberante e nariz mais curto (Figura 2) 30. Apesar de essas características motivarem as pessoas a cuidar desses animais, a braquicefalia em coelhos está associada a vários problemas de saúde 4,16. Além disso, os coelhos de orelhas caídas têm maiores riscos de apresentar enfermidades no sistema auditivo e problemas dentários 16.


Os grupos de resgate de coelhos observam que os animais de porte maior, de orelhas eretas e com pelagem negra ou branca são mais frequentemente deixados nos abrigos que os de tamanho pequeno e de orelhas caídas (lop) 6. Se, por um lado, os coelhos de porte maior, que foram selecionados para a indústria destinada à carne e não são considerados "fofos", têm maiores chances de entrar no sistema de abrigos, os coelhos de pequeno porte também podem ser entregues aos abrigos por problemas recorrentes de saúde 17.


De modo geral, as características fenotípicas de um coelho podem determinar seu destino. Um animal com características associadas ao padrão de "fofura" é geralmente classificado como animal de estimação, enquanto o que tem características mais robustas é destinado à indústria da carne. E aquele que tem pelagem de aspecto aveludado pode ser destinado à indústria da pele.


Esse paradoxo que culmina no abate ou em ser um membro da família não se dá com um cachorro ou um gato. Há uma hierarquia entre os animais de estimação, e, devido à ligação dos coelhos com a produção animal, esses animais estão em um patamar de bem-estar bem abaixo do de cães e gatos 6,31.

 



Parte integrante do artigo publicado na revista Clínica Veterinária, Ano XXVII, n. 156, janeiro/fevereiro, 2022.



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