Cães de Trabalho


O enriquecimento ambiental de cães utilizados pelos órgãos de segurança pública

 

Felipe Kanitz BragaMV, CRMV-PR: 10.567Cinotécnicofelipe.kanitz@hotmail.com

João Henrique FarinhasMV, CRMV-PR: 18.296Residente - UFPRjoaofarinhas@ufpr.br

 

Louise Bach KmetiukMV, CRMV-PR: 14.332MSc., dra., aluna de pós-doutoradoPPG/UFMGlouisebachk@gmail.com

 

Alexander Welker BiondoMV, CRMV-PR: 6.203MSc., prof. dr. associadoUFPRabiondo@ufpr.br

  

Introdução

O cão foi o primeiro animal a ser domesticado por seres humanos, especialmente por grupos de caçadores-coletores, entre 15 mil e 40 mil anos atrás, período em que o pesquisadores sugerem a divergência genética entre cães e lobos1,2. A história da  domesticação e da formação das raças de cães conta com muitas lacunas e com a mistura entre populações caninas e de lobos, que resultaram em aproximadamente 400 raças, com grande variação fenotípica, associadas à aptidão física e de aprendizado².

Especula-se que a presença de lobos que viviam perto dos acampamentos contribuiu para que se aproximassem do homem, inclusive com a criação de filhotes de lobos e a seleção de canídeos selvagens tolerantes com os seres humanos³. Devido ao olfato e à audição aguçados, tornaram-se importantes para a caça e também para a segurança, à medida que detectavam a presença de grandes felídeos, ursos e lobos³.

A partir desse início de domesticação, é possível ver os registros nas sociedades constituídas do uso de cães exercendo alguma função que facilitaria e/ou implementaria o trabalho do ser humano (Figura 1)³, como mostram registros de 4.000 a.C., em que se observam cães selvagens com coleiras nas mãos de guerreiros egípcios investindo contra possíveis inimigos4. De lá para cá, essa relação comensal entre homem e cão se mostrou cada vez mais eficaz, tornando-se o que é conhecido na cinotécnica como "binômio", em que homem e cão se tornam um indivíduo para desempenhar a atribuição para a qual foram treinados, seja para a guarda e proteção, a detecção de substâncias, a busca, o resgate e a captura de pessoas e até a detecção de percevejos5. O olfato do cão, caracterizado por sua alta capacidade de detecção e distinção de odores, permite-lhe ser capaz de detectar doenças, como a Covid-19, alguns tumores mamários6,7, entre outras.

Figura 1 - Os cães podem auxiliar os órgãos de segurança pública (policiais e militares) e atuar em atividades de caça, pastoreio, guarda e na assistência a pessoas com necessidades especiais  

Data de 1899 a primeira instalação destinada a treinamento de cães policiais (chamados K-9) para perseguição e ataque, sediada em Gante, na Bélgica8. Tendo por base esse programa, em 1907 foi implementado em Nova York o primeiro centro de treinamento para cães dos Estados Unidos8. Até os anos de 1940, cães de aproximadamente 30 raças foram utilizados extraoficialmente por agências de inteligência e corporações policiais militares de diferentes países8. Em 1942, após exemplos bem-sucedidos do uso de K-9 durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, um centro de treinamento oficial para cães foi implementado pelos Estados Unidos, que se concentrou em sete raças: pastor-alemão, pastor-belga, doberman-pinscher, collie, husky-siberiano, malamute-do-alasca e cão-esquimó8. Atualmente, há diversos centros de treinamento para cães de trabalho relacionados a órgãos de segurança pública, com variável efetivo especializado em ataque, detecção, busca e resgate ou mais funções combinadas, com aproximadamente 50 mil cães apenas nos Estados Unidos9.

Contudo, a intensa atividade de trabalho e o alojamento em canis individuais podem levar a comportamentos decorrentes de distresse e de quadros de estresse pós-traumático (post traumatic stress disorder - PTSD), como vocalização excessiva, movimentos locomotores repetitivos, redução do apetite, posturas ambivalentes e comportamento de fuga ou esquiva, entre outros10. Nesse sentido, o enriquecimento ambiental tem sido aplicado também ao efetivo de cães de trabalho de órgãos de segurança pública.

 

Cães de trabalho versus enriquecimento ambiental

O enriquecimento ambiental é uma área associada a zoológicos estudada há um século11 para melhorar a qualidade de vida dos animais cativos e que se espalhou para os mais variados cenários, incluindo animais de laboratório, produção, companhia e trabalho12. Para cães que estão em abrigos, o uso de estratégias de enriquecimento ambiental, como a realização de condicionamento operante positivo aliado à oferta de brinquedos e alimento como reforço, pode levar à redução de comportamentos indesejáveis, aumentando o bem-estar e o sucesso na adoção13.

O enriquecimento ambiental é um processo dinâmico no qual mudanças na estrutura e implementações de práticas de manejo14, juntamente com estratégias temporais, físicas, sociais e sensoriais, visam oferecer uma série de estímulos que possam aumentar o conforto e a capacidade de adaptação tanto fisiológica quanto mental do animal ao seu ambiente15. Dessa forma, apesar da percepção inicial de que estratégias de enriquecimento ambiental pudessem reduzir a motivação para o trabalho, diversos estudos têm demonstrado o oposto16 (Figura 1).

Até o momento, poucos estudos foram realizados para avaliar o impacto do enriquecimento ambiental no estresse crônico de cães de trabalho de órgãos de segurança pública (Figura 2). Em um desses estudos, realizado no Reino Unido, 22 cães da Royal Air Force Police Dog foram analisados quanto a 11 atributos associados à capacidade de trabalho após receberem enriquecimento alimentar ou atenção como recompensa por 4 meses. Como resultado, observou-se que o enriquecimento alimentar empregado corretamente pode aumentar significativamente a capacidade de aprendizado16.

 
Local do estudoN e raças ResultadosReferência
Reino Unido: Royal Air Force Police Dog22 cães: pastor-alemão e pastor-belga O enriquecimento alimentar pode aumentar a capacidade de aprendizado.14
Portugal: Grupo de Intervenção Cinotécnico da Guarda Nacional Republicana6 cães jovens: pastor-alemãoCães submetidos ao enriquecimento ambiental na fase de socialização apresentaram níveis mais baixos de cortisol perante obstáculos.15
Portugal: Grupo de Intervenção Cinotécnico da Guarda Nacional Republicana20 cães: pastor-alemãoCães submetidos ao uso de coleira que libera feromônios apresentaram menores níveis de cortisol.16
Figura 2 - Estudos sobre enriquecimento ambiental para cães utilizados por órgãos de segurança pública no Reino Unido e em Portugal 

Em um estudo realizado em Portugal, seis cães jovens do Grupo de Intervenção Cinotécnico da Guarda Nacional Republicana (GIC/GNR) foram submetidos ao protocolo habitual de socialização e a práticas de enriquecimento ambiental em um parque com tipos diferentes de piso, cores e obstáculos, com medição de cortisol perante diferentes estímulos17. Os cães submetidos ao enriquecimento ambiental apresentaram níveis mais baixos de cortisol quando submetidos a obstáculos, sugerindo os benefícios dessas práticas para a socialização de cães policiais17.

Ainda em Portugal, 20 cães do GIC/GNR foram avaliados quanto aos níveis de cortisol após práticas de enriquecimento ambiental (osso para roer), associadas ou não ao emprego da coleira DAP (dog appeasing pheromone, DAP®), que libera feromônios calmantes18. Segundo o estudo, o uso da coleira reduziu os níveis de cortisol nos cães estudados, sendo necessário ampliar o número e o tipo de aptidão dos animais para maiores conclusões18.

Um estudo realizado no Brasil com 13 cães farejadores do Canil da Polícia Militar do Estado de São Paulo teve por objetivo analisar o nível de cortisol salivar durante atividades e repouso19. Como resultado, houve diferença significativa nos níveis de cortisol salivar no período da tarde, entre o descanso e as atividades de trabalho, em que os momentos de repouso pareceram mais estressantes que os períodos de trabalho para aqueles animais19. O estudo sugeriu que o período de descanso seja adaptado com alternativas para o enriquecimento ambiental, como atividades recreativas, de interação com adestradores e simulações de situações de trabalho, reduzindo o período ocioso nos canis19.

Vale ressaltar que, além da dosagem de cortisol, a medição do grau de assimetria cerebral funcional tem sido utilizada como método não invasivo e alternativo para análise de estresse crônico20. Um estudo avaliou a assimetria cerebral funcional em quatro grupos de cães de diferentes condições ambientais: cães de rua mantidos em um abrigo com enriquecimento ambiental; cães de rua que foram adotados havia mais de um ano; cães de rua mantidos em canis individuais por mais de seis meses; cães de rua que estavam em um abrigo havia mais de 30 dias20. O estudo relacionou a lateralidade cerebral e o estresse crônico no grupo de animais mantidos em canis individuais havia mais de seis meses e naquele mantido em abrigos havia mais de 30 dias sem enriquecimento ambiental, o que pode gerar alterações de comportamento como medo, agressividade e baixa sociabilidade20.

Considerações finais

A atividade intensa de trabalho de cães da área de segurança pública, associada a períodos ociosos em canis, parece levá-los ao distresse, com consequente queda no desempenho e na qualidade de vida dos animais. Diversos estudos têm sugerido queda nos níveis de cortisol e melhora do desempenho de animais que recebem enriquecimentos ambientais e comportamentais. A parceria entre as entidades de pesquisa e os órgãos de segurança pública - mais especificamente as unidades de operações com cães - parece necessária para o desenvolvimento de mais estudos específicos, resultando em subsídios técnicos para a melhora do desempenho e da qualidade de vida desses cães.

Referências

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Artigo publicado na revista Clínica Veterinária, Ano XXVI, n. 153, julho/agosto, 2021

https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/edicao/clinicavet/id=clinica-veterinaria,153,1