Bem-estar animal

Atendimento e manejo amigável aos coelhos domésticos



Isabelle Tancioni

MV, presidente da Best Friend Alliance

Coordenadora no Brasil da Global Animal Advocacy Program (The Pollination Project)

belletanjoni@gmail.com



Fábio Luís de Oliveira 

MV, CRMV-SP: 17.869

Hospital Veterinário 4cats

floliveira80@gmail.com



 
Os coelhos domésticos têm se tornado cada vez mais populares nos Estados Unidos e no Reino Unido, e estima-se que no Brasil quase meio milhão deles convivam com seres humanos com o status de animais de estimação. Apesar de os coelhos serem o terceiro animal mais comum no Reino Unido, essa espécie é considerada a mais negligenciada quando comparada com cães e gatos. Infelizmente, eles ainda são erroneamente considerados animais fáceis de cuidar e apropriados para crianças.


Em relação à assistência veterinária, os tutores de coelhos normalmente têm dificuldade de encontrar médicos-veterinários que ofereçam a mesma qualidade de atendimento e serviços que estão disponíveis para cães e gatos. Diferentemente de outros animais de estimação, os coelhos são criados para a produção de carne, pele e pelo, e ainda podem ser usados em laboratório. Um importante fato que contribui com esse cenário é que muitos médicos-veterinários entram em contato com os coelhos durante a faculdade, nas disciplinas de produção animal, e transferem esse manejo para os coelhos de estimação. Além disso, os médicos-veterinários comumente ganham experiência em coelhos quando optam por estagiar ou trabalhar em clínicas de animais exóticos. Nessas circunstâncias, os profissionais proveem assistência a uma variedade de espécies e não somente aos coelhos, o que pode comprometer a qualidade do cuidado com eles.


A ideia de criar uma área dedicada somente aos coelhos é recente. A médica-veterinária Frances Harcourt-Brown, considerada pioneira na área, é autora do primeiro livro de medicina de coelhos, Textbook of Rabbit Medicine (Livro de Medicina de Coelhos) (Oxford: Butterworth-Heinemann, 2001). Ela foi a primeira a ser reconhecida com o título de especialista em medicina e cirurgia de coelhos pelo Royal College of Veterinary Surgeons (Faculdade Real de Cirurgiões Veterinários - RCVS).


Atualmente, é possível encontrar outros livros direcionados exclusivamente ao manejo e ao tratamento veterinário de coelhos domésticos. A inserção desta disciplina no currículo básico das faculdades de medicina veterinária pode aumentar as chances de esses animais serem tratados em termos similares aos empregados com cães e gatos.


Embora alguns coelhos sejam considerados animais de estimação, muitos ainda são mantidos em gaiolas pequenas, com uma dieta inadequada, e somente alguns têm acesso a cuidados veterinários. Para agravar ainda mais esse contexto, os tutores evitam levar os coelhos ao médico-veterinário quando seus animais vivenciaram episódios de medo e estresse relacionados ao atendimento.


Os médicos-veterinários têm um papel importante na promoção do bem-estar e dos cuidados amigáveis com os animais. O conhecimento sobre o padrão de resposta comportamental e os parâmetros associados ao bem-estar dos coelhos auxilia o médico-veterinário a executar abordagens amigáveis a esses animais, conhecidas também como livres de medo. Para isso, uma série especial de artigos foi publicada em volumes anteriores desta revista.


Neste artigo apresenta-se uma intersecção entre o padrão comportamental, os alicerces do bem-estar do coelho e as técnicas relacionadas ao manejo e ao atendimento amigáveis e livres de medo. Incluem-se ainda atualizações referentes à última reunião sobre ética e bem-estar animal promovida pela associação britânica Rabbit Welfare Association & Fund (Associação e Fundo do Bem-Estar do Coelho - RWAF), que ocorreu em junho de 2021.


A importância do manejo amigável aos coelhos e livre de medo

O manejo amigável é mais conhecido entre os médicos-veterinários que atendem felinos. A iniciativa denominada Práticas Amigáveis aos Gatos (Cat Friendly Practice®) promove informações e certificações para os médicos-veterinários e as clínicas que atendem exclusivamente gatos. O manejo amigável aos coelhos foi inspirado nessa iniciativa, e a RWAF concede o status de Rabbit Friendly (Amigável aos Coelhos) para as clínicas após uma avaliação feita pelos médicos-veterinários envolvidos nessa organização, que disponibilizam os dados da clínica a uma lista online. Porém, a RWAF ainda não disponibiliza cursos de certificação profissional, como o Programa de Certificação Amigável aos Gatos.


Já a iniciativa denominada Fear Free® (Livre de medo) promove cursos e emite certificações tanto para profissionais como médicos-veterinários, treinadores, babás de animais de estimação (em inglês, pet sitters) e tosadores quanto para as clínicas, com protocolos desenvolvidos para cães, gatos, cavalos e aves. As abordagens fornecidas pelas plataformas Fear Free® e Cat Friendly Practice® também podem ser utilizadas para outras espécies, caso o profissional tenha experiência com o seu comportamento e o seu bem-estar. Os autores deste artigo encorajam os médicos-veterinários a obterem uma ou mais certificações dos programas citados acima.


Os médicos-veterinários e outros profissionais que trabalham com animais devem ter atenção não somente com a saúde física, mas também com o bem-estar dos animais. As abordagens amigáveis têm como objetivo diminuir o estresse e promover o bem-estar dos animais. Além do mais, esse tipo de abordagem resulta em menor probabilidade de injúrias, tanto para o animal quanto para a equipe, aumenta a satisfação dos profissionais no ambiente de trabalho, previne o estresse que afeta vários sistemas fisiológicos do paciente e reduz o tempo de atendimento nas visitas subsequentes.


Efeito do medo e estresse em coelhos

O estresse é um termo utilizado para descrever uma série de respostas fisiológicas e emocionais complexas desencadeadas por um desafio ou um estímulo estressor. Pode ser resultado do medo de ser ameaçado e da ansiedade, que é a antecipação de uma ameaça.


Sabe-se que o estresse em coelhos pode afetar vários sistemas e causar problemas gastrintestinais (estase intestinal, disbiose cecal e úlcera gástrica), alteração do fluxo sanguíneo renal, imunossupressão, quadros de hiperglicemia, lipidose hepática e cardiomiopatias. Além disso, eventos estressantes podem propiciar o desenvolvimento de sinais clínicos associados a infecções por Encephalitozoon cuniculi. Sabe-se que a prevalência dessa doença varia em várias partes do mundo, e algumas análises demonstraram que ela atinge aproximadamente 81,9% dos coelhos de estimação no Brasil.


Em casos extremos, as catecolaminas liberadas como resposta ao estresse podem causar insuficiência cardíaca e morte de coelhos. Dessa forma, é crucial que os médicos-veterinários reconheçam os estressores, identifiquem os sinais de estresse em coelhos e saibam como minimizá-los e tratá-los.


Um recurso importante para o reconhecimento do medo, da ansiedade e do estresse é o sistema de pontuação dos animais fundamentado em parâmetros fisiológicos, na linguagem corporal e na vocalização, conhecido como escala de MAE (medo, ansiedade e  estresse). A figura 1 foi adaptada pelos autores e mostra a escala de medo, ansiedade e estresse com base no diagrama sobre a escala de estresse em coelhos e também os modelos das escalas produzidas pela iniciativa Fear Free® para cães, gatos e cavalos.


Como identificar os elementos estressores e minimizar seus efeitos

É essencial que os profissionais que trabalham com coelhos tenham conhecimento de como a espécie se comunica e percebe o ambiente, além de identificar quais os estímulos causadores de estresse nesses animais. Essas informações estão detalhadas no artigo sobre bem-estar publicado no volume 154 desta revista.


O medo pode ser inato - por exemplo, quando um coelho apresenta medo ao presenciar um furão sem nunca ter visto um animal dessa espécie antes; ou pode ser aprendido - por exemplo, quando um animal tem medo de sapatos pelo fato de associar esses objetos a uma experiência negativa e com dor.


De modo geral, os coelhos têm sentidos aguçados de visão, olfato e audição, que transmitem informações sobre seus estados físicos e emocionais, constantemente, por meio de sinais posturais visuais, auditivos e olfativos. No entanto, eles não conseguem enxergar na escuridão total, e seus olhos estão localizados lateralmente, com um ponto cego na região frontal entre eles. Os coelhos são animais silenciosos, que raramente vocalizam. Geralmente, as vocalizações estão associadas a experiências negativas. Os coelhos são muito vigilantes e propensos a estabelecer associações de algum evento com o medo. Também reagem a luzes brilhantes, movimentos rápidos e ruídos altos, que podem ser tanto sônicos quanto ultrassônicos. Como se orientam também pela percepção de odores, é importante que os profissionais estejam atentos aos odores associados ao ambiente, aos equipamentos e às vestimentas usadas por eles.


As causas de estresse em coelhos podem estar associadas à presença de dor e/ou de doença, a ambientes não familiares, transporte, superlotação, manuseio impróprio, proximidade de predadores, presença de coelhos incompatíveis e baixa qualidade de um ou mais pilares do seu bem-estar.


Os profissionais devem estar atentos para detectar os sinais de dor e aplicar medidas para aliviá-la. Identificar a dor é muito importante, tanto por questões éticas como para auxiliar na resolução de comportamentos indesejáveis. Os coelhos mascaram os sinais de dor, tornando a sua identificação ainda mais difícil. Os autores deste artigo aconselham que os profissionais utilizem escalas de avaliação da dor. Uma escala de dor quantitativa publicada em 2020 auxilia os profissionais que trabalham com coelhos na clínica médica a avaliar a dor de seus pacientes. É importante que essas informações sejam padronizadas e que estejam facilmente acessíveis a toda a equipe.


Os coelhos são presas e se estressam quando estão em cenários não familiares ou na presença de predadores, como cães, gatos, furões, serpentes e aves de rapina, dentre outros. É importante minimizar os estímulos visuais, auditivos e olfativos provenientes de predadores para os coelhos. Dessa forma, eles devem ser examinados em áreas livres desses estímulos. Além disso, os profissionais que examinam os coelhos devem lavar as mãos para remover os odores de espécies predadoras. Caso o profissional tenha manipulado um animal predador, aconselha-se que a sua vestimenta seja trocada antes de ele examinar um coelho. Outro ponto relevante é que muitos animais associam o avental branco a uma experiência negativa. Dessa forma, o uso de aventais brancos não é aconselhado.


Os autores deste artigo utilizam as recomendações da plataforma Fear Free® para o manejo de coelhos. Ela consiste em quatro elementos principais: abordagem atenciosa, controle gentil, gradiente de toque e uma boa comunicação.


A abordagem atenciosa respeita a percepção e os sentidos dos animais, minimizando os estímulos que podem gerar uma resposta de estresse. O controle gentil é o modo como a equipe estabiliza o animal de maneira confortável e segura para realização dos procedimentos. Muitas vezes, a contenção é o que mais assusta o animal. Gradiente de toque é o termo utilizado para descrever como tocar o animal no momento de um procedimento, que pode ser feito de dois modos. O primeiro é manter o contato físico com o animal durante todo o procedimento ou exame. O segundo ponto é habituar o animal a um nível de toque crescente, enquanto se avalia a aceitação e o conforto. Por último e não menos importante, uma comunicação empática por parte dos profissionais fortalece a confiança dos animais e dos tutores.


Além dos pilares citados acima, os autores deste artigo utilizam petiscos para estabelecer uma associação positiva com a clínica e com os profissionais envolvidos no atendimento. Uma variedade de verduras e ervas podem ser oferecidas como petiscos. Os vegetais frescos são mais palatáveis que os secos e demoram mais para serem ingeridos, uma vez que apresentam maior volume, por conterem água. Podem-se também oferecer ervas secas e pequenas quantidades de frutas. No mercado existem opções que contêm um alto teor de fibras, mais adequadas para os coelhos. A figura 2 mostra uma abordagem amigável por meio do fornecimento de petiscos à base de feno e ervas, e também pequenos pedaços de frutas desidratadas e flores. Os profissionais devem estar atentos ao fato de que muitos dos petiscos disponíveis comercialmente são ricos em carboidratos e/ou gordura, que não são apropriados para os coelhos.


Toda a equipe de atendimento deve ser treinada e atualizada sobre o manuseio e os cuidados seguros e amigáveis. Os movimentos dos profissionais devem ser calmos; deve-se evitar a produção de ruídos altos e movimentos bruscos. O manuseio visa uma contenção mínima possível que também garanta a segurança. Em todas as circunstâncias em que o animal seja suspenso do chão, a coluna e a parte traseira devem ser devidamente apoiadas.


O uso de materiais antiderrapantes no ambiente permite que o coelho se mova com confiança e não deslize. O animal deve ser então gentilmente transferido para uma mesa, onde será examinado. A pessoa responsável por manusear o coelho e retirá-lo do chão deve colocar uma das mãos sob o tórax e com a outra dar suporte ao ventre, sustentando o abdômen e toda a parte traseira do animal.


Os coelhos devem ser examinados em superfícies cobertas por materiais antiderrapantes, como toalhas, mantas, fleece ou tapetes emborrachados, uma vez que esses tipos de apoio evitam escorregões. Caso estejam exibindo altos níveis de estresse e resistindo a ser pegos do chão, aconselha-se envolvê-los em uma toalha, cobrindo o campo visual com ela ou com uma das mãos. Os coelhos que resistem podem pular e sofrer traumas na coluna ou em outros ossos. A técnica do "rolo de coelho" ou "burrito de coelho" (Bunny burrito, em inglês) consiste em colocar o animal sobre uma toalha e envolvê-lo pelos dois lados, como se estivesse montando um burrito. Mais informações sobre a técnica estão a seguir, na seção "Atendimento: manuseio, contenção e exame clínico". Apesar de serem adequadamente contidos com essa técnica, os coelhos podem contrair os músculos e se traumatizar.


Os medicamentos que promovem sedação devem ser considerados desde o início, quando os níveis de estresse estiverem muito elevados. Eles também podem ser utilizados durante o exame, conforme a evolução dos níveis de MAE e a invasividade e a dor dos procedimentos a serem realizados. Além disso, diminuir a intensidade das luzes pode auxiliar a minimizar os níveis de estresse. Um último ponto importante é manter a temperatura do ambiente entre 18 e 21 °C.


Como minimizar o medo, a ansiedade e o estresse (MAE) antes do atendimento

Uma abordagem livre de medo começa antes do atendimento. A consulta que envolve uma abordagem livre de medo é iniciada antes da ida do tutor e do paciente à clínica ou antes da consulta em domicílio. No momento do agendamento, os profissionais devem coletar informações importantes sobre os pacientes, que incluem: a experiência do animal e do tutor em visitas prévias; preferências por petiscos, verduras e brinquedos; tipos de interação com os quais o animal se sente confortável; e se o animal tem um vínculo estreito com algum outro coelho.


Durante todo o processo, a comunicação deve ser realizada com perguntas abertas, que não intimidem ou induzam respostas prontas, para que se obtenha o máximo de detalhes sobre o animal. A equipe deve estar pronta a aconselhar os tutores sobre como minimizar o estresse dos animais antes da visita.


No caso de admissão para internação, a equipe deve pedir que o tutor traga alimentos e itens com os quais o paciente esteja familiarizado, como sua cama, brinquedos e caixa de feno. Caso a dieta do coelho seja constituída de alimentos frescos incomuns, é muito importante solicitar que o tutor traga esses produtos.


Caso o coelho a ser examinado ou internado tenha um vínculo estreito com outro coelho (bonded pair, em inglês), aconselha-se trazer os dois animais para a clínica, uma vez que a separação de coelhos com vínculo estreito acarreta aumento dos níveis de estresse. Já em casos de cirurgia, os profissionais devem esclarecer aos tutores que os coelhos não podem ficar em jejum antes do procedimento.


A equipe deve recomendar que o tutor adquira caixas de transporte funcionais, que facilitem a execução do manejo amigável. Os autores recomendam caixas de materiais duros, com espaço suficiente para o animal conseguir se virar e cuja parte superior facilmente se desacople, e também com aberturas frontais e na parte superior. Aconselha-se que as caixas de transporte sejam usadas como esconderijos no interior da casa dos tutores (Figura 3). Sugere-se também colocar pedaços de petisco como recompensa no interior da caixa de transporte, para estimular o coelho a entrar nela. Dessa forma, o animal já fica familiarizado com a caixa e a associa a estímulos positivos, o que facilita direcioná-lo para seu interior quando há necessidade de transportá-lo.


As viagens de carro são estressantes para os coelhos. Por isso, é importante minimizar o tempo de permanência no veículo. Como os coelhos são extremamente sensíveis ao estresse térmico, é imperativo não os deixar em veículos fechados.


Eles devem sempre ser transportados em uma caixa contendo feno, que provê alimento e esconderijo, além de objetos com odores que lhes sejam familiares. Caso o tempo de viagem seja longo, um bebedouro contendo água deve ser acoplado à caixa (Figura 4). Se o animal tem um vínculo com outro coelho, os dois devem ser colocados na mesma caixa de transporte, para reduzir o estresse, e ela deve ter espaço suficiente para acomodá-los. Os coelhos de grande porte, as duplas ou trios de coelhos podem ser transportados em carrinhos de animais de estimação (Figura 5).


Recomenda-se cobrir a caixa de transporte com uma toalha ou manta, para prover segurança sem comprometer a ventilação. A caixa deve estar todo o tempo apoiada nas duas mãos, promovendo estabilidade, em vez de ser carregada pela alça, o que faz com que o animal escorregue dentro dela. Para manter uma boa temperatura e ventilação, sugere-se abrir as janelas do carro ou utilizar o ar-condicionado. É importante manter o ambiente do carro de preferência em 21 ºC, para evitar o estresse térmico. Como dito anteriormente, os coelhos são muito sensíveis ao estresse térmico, e sob nenhuma circunstância podem ser deixados em um ambiente quente e fechado.


Parte da abordagem livre de medo e estresse consiste em orientar os tutores a transportar o coelho para a clínica de forma confortável. Outros cuidados que podem minimizar o estresse durante a viagem incluem retirar do veículo o odor de animais não familiares ao coelho, manter a caixa de transporte fixa no interior do carro, prevenindo deslizamentos, e evitar movimentos bruscos do veículo. Podem-se usar músicas calmantes para mascarar os ruídos causados pelo trânsito. Os tutores também podem ser aconselhados a planejar a ida à clínica com antecedência, evitando o estresse de possíveis atrasos.


Os protocolos farmacêuticos pré-visita usados para cães e gatos que visam reduzir o estresse geralmente utilizam medicamentos como trazodona, gabapentina e benzodiazepínicos. No entanto, até o presente momento, não há evidências de que essas substâncias sejam capazes de aliviar o estresse em coelhos.


Com o objetivo de reduzir o estresse desses animais, pode-se utilizar Pet Remedy® (Figura 6), um produto à base de raízes da planta valeriana (Valeriana officinalis) que pode ser borrifado em toalhas usadas para o manuseio. Porém, são necessários mais estudos para melhor avaliar o efeito desse produto na redução do estresse nesses animais.


Recepção, sala de espera e comunicação 

A recepção é o primeiro local em que o animal e o tutor entram em contato com o ambiente da clínica. Portanto, é essencial diminuir o estresse nesse momento. Desde o início, toda a equipe da clínica deve estar comprometida com o conforto do coelho, com a redução do estresse e com o estabelecimento de uma interação positiva.


A recepção deve ser confortável para os sentidos dos animais, com odores agradáveis e um repertório de músicas que visem acalmá-los, como música clássica e outras produzidas para essa finalidade, tocadas em volume baixo. Os barulhos devem ser minimizados, e as pessoas devem se comunicar em tom de voz suave e baixo. Além disso, aconselha-se usar ruído branco para mascarar sons emitidos por predadores e outros ruídos potencialmente estressantes. O ambiente deve ser amigável e aconchegante tanto para os animais quanto para os tutores.


Existem várias maneiras de diminuir o estresse na recepção. A movimentação excessiva deve ser evitada. Sempre que possível, o agendamento e o planejamento das consultas minimizam a agitação do local, possibilitando um processo menos estressante e mais amigável. Uma recepção para coelhos separada dos predadores de forma estratégica e eficiente deve ser um lugar tranquilo para os tutores e seus animais. Também é importante prover barreiras visuais, que podem ser feitas com toalhas colocadas sobre a caixa de transporte.


Aconselha-se ter uma área de espera exclusiva para os coelhos e outros pequenos mamíferos que também são presas. Na sala de espera, é importante disponibilizar produtos específicos e de boa qualidade para promover o bem-estar dos coelhos, como também informações relevantes para os tutores sobre a importância desses produtos (Figura 7). Além disso, é crucial ter panfletos e pequenos manuais que expliquem os cinco pilares do bem-estar dos coelhos, que podem ser produzidos pela própria equipe (Figura 8). Os autores deste artigo recomendam utilizar as diretrizes das organizações mais renomadas na promoção do bem-estar dos coelhos: a House Rabbit Society (Sociedade do Coelho Domiciliado - HRS) e a RWAF.


Outra ação importante para tornar o processo mais amigável para os animais é oferecer petiscos assim que eles cheguem à área de recepção. Dispor de uma ampla variedade desses alimentos é uma excelente estratégia. A falta de interesse em petiscos pode indicar altos níveis de medo, ansiedade e estresse, e a equipe deve avaliar estratégias para minimizá-los. Além disso, é importante dispor de toalhas e cobertores. O uso de materiais antiderrapantes, como esteiras de borracha e tapetes de ioga, promove maior conforto e estabilidade, facilita a locomoção e estimula o tato.


O tutor deve sentir que a equipe compreende a sua queixa e está disposta a ajudá-lo e a ouvir suas preocupações e dúvidas. Deve-se presumir que a pessoa está fazendo o que pode e que ela não é inferior ou superior aos outros. O benefício da dúvida e o diálogo promovem melhores resultados. As percepções diferentes devem ser reconhecidas e respeitadas, mas isso não significa que a equipe deva concordar com tudo. As posturas reativas ou defensivas são uma tempestade perfeita para uma situação de conflito.


A prática de uma escuta reflexiva é altamente encorajada para estabelecer uma conduta amigável. Esse tipo de abordagem empática faz com que o indivíduo revele detalhes importantes. As pessoas precisam sentir que estão sendo ouvidas e que a informação está sendo absorvida e processada. Uma conversa atenta e anotações ajudam a manter uma boa conexão. Diante de uma situação difícil, é melhor ouvir mais e falar menos. Reagir com uma postura desrespeitosa é combustível para um problema maior. Os profissionais devem manter a mente aberta antes de desistir da conversa e prosseguir com o atendimento.


A equipe não deve fazer comentários negativos sobre uma pessoa que tenha acabado de sair para as outras presentes no mesmo local. Isso torna o ambiente mais estressante. Não se deve promover calúnias sobre as pessoas. Na maioria das situações, não se tem conhecimento profundo sobre o interlocutor. Os indivíduos psicologicamente estáveis tornam as conversas e o ambiente de trabalho mais leves.


Os profissionais também devem se preocupar com a sua comunicação não verbal. Aconselha-se manter uma postura corporal aberta e tranquila, estabelecendo contato visual com a pessoa que está acompanhando o animal. Acenar afirmativamente com a cabeça para as respostas também encoraja as pessoas a falarem sem medo de julgamento 4.


As palavras de cunho pejorativo sobre o animal, como dizer que ele é idiota, bravo ou maldoso, devem ser evitadas. É aconselhável que a equipe utilize termos mais adequados, que refletem o comportamento animal, como: amedrontado, frustrado, ansioso, estressado ou com dor.


As informações sobre a postura e a linguagem corporal quando a equipe se aproxima do animal e interage pela primeira vez com ele serão as primeiras que constarão no prontuário médico emocional do caso. A criação de um prontuário médico emocional baseado no histórico e na escala de medo, ansiedade e estresse (MAE) é importante para avaliar e monitorar os níveis de MAE durante o atendimento e a internação. O prontuário médico emocional e a escala de MAE serão discutidos em detalhes na próxima publicação.


Os profissionais devem ter conhecimento, treinamento e experiência sobre manejo, manuseio, doenças, procedimentos e tratamentos relacionados à medicina de coelhos. É necessário que os membros da equipe adquiram conhecimento em cursos, conferências, webinários, livros e jornais científicos de fontes renomadas. Os profissionais da recepção devem reconhecer prontamente os sinais clínicos associados à consulta de rotina e à emergência.


Atendimento: manuseio, contenção e exame clínico

O panorama ideal é ter uma sala de exame dedicada aos coelhos. Caso isso não seja possível, a equipe deve determinar um período do dia para o seu atendimento. Após cada exame, a sala deve ser limpa, e os odores devem ser removidos. A equipe deve lavar bem as mãos e limpar todos os instrumentos, como o estetoscópio (veja subtítulo "Limpeza"), e também dispor de formulários de anamnese e exame físico específicos para os coelhos.


Na sala de atendimento, é aconselhável manter a caixa de transporte no chão, uma vez que os coelhos se sentem mais confortáveis nesse nível. Alguns profissionais recomendam que o coelho permaneça alguns minutos na caixa de transporte para se aclimatar ao novo ambiente. Sugerem também que é importante deixá-lo sair e explorar o ambiente, permitindo que o veterinário avalie a mobilidade, a marcha e a atitude do animal, e fazer o exame clínico de coelhos mais estressados no chão, para evitar que eles saltem da mesa e se machuquem.


Caso o coelho esteja muito hesitante, é improvável que ele saia da caixa. Os autores deste artigo recomendam o uso de petiscos para estimulá-lo a sair. Uma abertura na parte superior pode permitir o exame do animal dentro da caixa de transporte. A utilização de uma toalha sobre o coelho é importante para bloquear os estímulos visuais quando a parte superior da caixa for retirada, reduzindo o estresse do animal.


Alguns autores sugerem que a caixa de transporte pode ser colocada na mesa de exame, para que o coelho seja removido com auxílio de um ou ambos os braços, deslizados ao longo dos dois lados do corpo do animal. Uma das mãos pode realizar uma leve pressão sobre a região sacral, para encorajar o coelho a sair da caixa. Além disso, pode-se colocar uma das mãos sob o tórax, enquanto a outra mão apoia os membros traseiros. Uma segunda pessoa deve ajudar, segurando firmemente a caixa, mas essa técnica é muito estressante e deve ser evitada. 


Infelizmente, muitas caixas não dispõem de aberturas no topo e não permitem que a parte superior seja retirada.


Como os coelhos são presas, eles devem ser manuseados em ambientes calmos e seguros. Caso o animal esteja estressado, é importante colocá-lo no chão em um lugar tranquilo ou de volta na caixa de transporte assim que o exame terminar. É fundamental certificar-se sempre de que os membros posteriores, a coluna e o tórax estejam bem apoiados quando o coelho for suspenso do chão e carregado. Os profissionais da RWAF recomendam elevá-lo do chão somente quando for necessário.


Como a caixa de transporte já tem odores familiares ao paciente, os médicos-veterinários da RWAF e os autores deste artigo aconselham que parte do exame físico seja realizada com o animal dentro dela. Dessa forma, o paciente será retirado para pesagem, para a avaliação da área perianal, dos genitais, dos dentes e para a realização de outros procedimentos. Em nenhuma circunstância os coelhos devem ser elevados pelas orelhas ou pela pele ao redor da região cervical dorsal (método conhecido como scruffing, em inglês). Alguns autores sugerem que segurálos perto do chão faz com que eles se sintam mais seguros.


A imobilidade tônica é um método controverso (conhecido como trancing, em inglês), no qual o animal é colocado em decúbito dorsal. Quando um coelho é colocado nessa posição, instintivamente permanece imóvel. Acredita-se que essa reação esteja associada a um último recurso do animal perante um predador. Portanto, imobilizado em decúbito dorsal, o coelho fica extremamente estressado. Apesar de exibir um comportamento não responsivo, o animal é capaz de sentir dor e está consciente. Assim sendo, essa posição só deve ser considerada quando extremamente necessária, sendo aceitável apenas para a realização de alguns procedimentos clínicos e por um período muito curto. Quando necessário, o profissional deve considerar a sedação do animal.


O exame para avaliação da presença de pododermatite nos membros pélvicos e da região genital e perianal pode ser feito com o coelho mantido na posição sentada.


Os coelhos devem ser manuseados com cuidado, para o bem da segurança de todos, já que suas unhas podem causar arranhões extensos e profundos, e os seus dentes incisivos podem causar lesões por mordedura, caso estejam estressados ou amedrontados.


Os pacientes devem ser manuseados com segurança no interior da clínica e, mesmo para deslocamentos de pequenas distâncias entre as diferentes áreas, aconselha-se colocá-los em uma caixa de transporte. É um método mais seguro do que carregar os animais no colo, já que eles podem se agitar facilmente, ficar amedrontados ou fugir. Dessa forma, utilizar a caixa de transporte previne ferimentos e fugas. Os autores deste artigo também sugerem o uso de uma toalha para pegar o animal do chão e transportá-lo para distâncias menores que 4 a 5 metros. Essa mesma toalha pode auxiliar no manuseio do coelho durante o exame físico.


O animal deve ser colocado em uma mesa coberta com uma toalha para ser examinado. O uso de mantas e outros materiais antiderrapantes previne que ele deslize sobre a superfície lisa (Figura 9). O coelho não deve ser deixado sozinho quando colocado na mesa. É importante que os profissionais disponham de um estoque de toalhas e cobertores limpos, e que esses materiais sejam de um material facilmente lavável pela equipe.


Os movimentos bruscos e os ruídos altos devem ser evitados. Durante o exame, aconselha-se a realização de uma contenção mínima que forneça segurança e evite o estresse por manuseio excessivo. Caso o procedimento a ser realizado cause desconforto, estresse ou dor, devem-se considerar os protocolos de sedação, analgesia e anestesia.


A maneira mais fácil e rápida é usar as mãos para realizar a contenção na qual o animal é levemente imobilizado. Esse método é aconselhável para um procedimento rápido e confortável. O segundo método é feito com o auxílio de uma toalha na qual o animal é enrolado, deixando-se exposta somente a cabeça ou a área relevante para a realização do procedimento (Figura 10), conhecido como bunny burrito. Ele é mais vantajoso para a segurança do animal e do examinador, e é um dos procedimentos aconselhados para a colheita de sangue. A desvantagem é que esse método requer habilidade e treinamento para envolver o animal de forma adequada e segura, expondo as partes do corpo necessárias durante os procedimentos.


Assim que o coelho é transferido para a mesa de exame, é importante permitir que ele relaxe, mas sempre mantendo o apoio com a mão, para evitar que ele caia da mesa. Alguns autores aconselham que os olhos dos coelhos sejam cobertos suavemente com as mãos para ajudá-los a se acalmar. Também se podem usar toalhas para cobrir a cabeça do animal, avaliando se a respiração não está comprometida. Em todas as circunstâncias nas quais ocorra a suspensão do animal do chão e seu transporte, a coluna e a parte traseira devem ser devidamente apoiadas.


O profissional deve estar atento às mudanças de comportamento e à presença de sinais clínicos associados a enfermidades. É importante ser eficiente quando o coelho está muito estressado e ter todo o equipamento e os acessórios disponíveis para o exame físico.

Para prover um exame completo e confortável para o animal, é necessário dispor dos itens e dos equipamentos listados abaixo:

 toalhas, mantas, fleece, tapete emborrachado;

 otoscópio com cones apropriados para exame oral e otológico;

 estetoscópio;

 balança;

 tesoura para cortar unhas;

 termômetro;

 petiscos saudáveis: ervas, verduras, flores, pedaços pequenos de frutas e petiscos feitos com feno e ervas.


Existem várias maneiras de realizar o exame físico de um coelho. A abordagem descrita abaixo, usada pelos autores deste artigo, que usam a metodologia Fear Free® (livre de medo e estresse), baseia-se no comportamento atencioso, no controle gentil e no gradiente de toque. Esses conceitos foram descritos acima e estão detalhados em outros materiais escritos pelos mesmos autores. Os médicos-veterinários podem realizar outras formas de abordagem sistemática, desde que sejam adequadas para a espécie. Além disso, os autores deste artigo recomendam que sejam utilizadas vestimentas exclusivas para o atendimento de coelhos e livres de odores de predadores.


Antes de iniciar o exame físico, faz-se uma inspeção do animal à distância. Dessa forma se observarão a frequência e o padrão respiratórios. Também é possível avaliar a postura, a marcha e como o animal interage com o ambiente, além da presença de lesões, assimetrias, aumentos de volume e secreções corporais. Caso o coelho esteja em seu recinto, o examinador pode avaliar suas fezes e urina. Para que ele se aproxime, os autores oferecem petiscos e também mantêm alguns no bolso para atrair o seu interesse.


Após o coelho ser colocado na mesa de exame e ser contido de maneira adequada, conforme já descrito acima, medem-se os seus sinais vitais, como a frequência cardíaca, a frequência respiratória (caso isso não tenha sido feito durante a inspeção visual) e a temperatura retal. Esses parâmetros são obtidos no início do exame, para evitar que o estresse interfira nos valores, por conta da manipulação do animal. Os autores deste artigo recomendam termômetro de ponta flexível e de leitura rápida, e também o uso de lubrificantes (Figura 11). O peso pode ser obtido ao final da consulta, e a balança deve ser forrada com material macio, como toalhas ou mantas (Figura 12).


Após a avaliação dos sinais vitais, aconselha-se realizar o exame físico por partes: cabeça, corpo, abdômen e cavidade bucal. O exame oral deve ser realizado por último. A avaliação da cavidade oral é um processo desafiador e estressante. O exame dos dentes incisivos pode ser feito com o coelho contido em uma toalha (bunny burrito). Para a realização de um exame mais detalhado e amigável, os autores recomendam sedar ou anestesiar o paciente.


Caso o animal apresente altos níveis de estresse em qualquer parte do exame, o profissional deve interrompê-lo, reavaliar que estratégias seriam mais apropriadas para a ocasião e considerar somente a realização das partes do exame clínico absolutamente necessárias para o atendimento adequado do paciente no momento. Podem-se encontrar mais detalhes a respeito do exame clínico na literatura.


Os médicos-veterinários devem registrar por escrito e certificar-se de que o tutor compreendeu as instruções sobre o diagnóstico, o prognóstico, as opções de tratamento, as medicações prescritas (doses, via e frequência) e seus possíveis efeitos colaterais. Além disso, é preciso explicar ou demonstrar como medicar corretamente o animal, como, por exemplo, a alimentação via seringa. Também é importante indicar quais são os sinais associados a uma emergência e os locais aonde o animal deve ser levado nessa situação.


Internação: recintos, comida, água, enriquecimento e exercícios

Aconselha-se ter áreas de internação separadas para coelhos e predadores. Além disso, é importante também manter áreas de armazenamento de comida destinadas a essa espécie, como armários e geladeiras separadas de produtos armazenados para predadores, como cães, gatos, furões, serpentes ou aves de rapina.

Uma vez que os coelhos são suscetíveis a estresse térmico, recomenda-se manter a temperatura ambiente entre 18 e 21 °C. As temperaturas superiores a 22 °C resultam na redução de ingestão de comida. Sinais de estresse térmico são observados em ambientes com temperaturas acima de 27 °C.


Os mesmos tipos de recintos destinados a alojar gatos podem ser utilizados para os coelhos. Os pacientes devem ser alojados em áreas bem ventiladas, em recintos contendo grades divisórias. No entanto, materiais que promovam uma barreira sólida, como vidro ou acrílico, não são recomendados.


Os recintos devem conter ração e todos os itens trazidos pelo tutor, como a caixa de transporte, a cama do animal e seus brinquedos. Mesmo que a dieta não seja a mais apropriada para o caso, não se aconselham mudanças na alimentação de pacientes hospitalizados, para evitar problemas gastrintestinais. Além disso, é importante providenciar esconderijos para reduzir o estresse. A caixa de transporte ou uma caixa de papelão podem ser usadas como esconderijo.


A comida pode ser oferecida em potes de cerâmica, ser espalhada pelo recinto ou colocada em tubos de papelão. Os vegetais frescos e microverdes (plantas jovens, com 7 a 15 dias após a germinação) são ótimos para estimular o apetite dos coelhos. Assim, é importante que as clínicas disponham de vegetais e grama fresca ou tenham um espaço destinado para o plantio de verduras, gramíneas e outras plantas, como o dente-de-leão, e ainda para a produção de microverdes de girassol, centeio, cevada, trigo, aveia, trevo-branco, trevo-vermelho, cenoura, repolho e capuchinha, entre outros (Figura 13).


Aconselha-se verificar com o tutor se o coelho está habituado a consumir água em potes ou em bebedouros. Em caso de dúvida, as duas formas devem ser oferecidas. Para mimetizar o comportamento normal dos coelhos, recomenda-se oferecer água à vontade, em potes.


Devido à ausência de coxins palmares e plantares, os coelhos devem ser mantidos em pisos sólidos. Os pisos aramados ou fenestrados são desaconselhados, pois não permitem que o animal se locomova normalmente e predispõem ao desenvolvimento de pododermatites por pressão de sustentação e atrito, aumentando também o risco de quebrarem as unhas . Os pisos podem ser revestidos com jornais ou mantas e toalhas, porém os profissionais devem avaliar se o coelho não está ingerindo materiais não digestíveis.


Os parâmetros clínicos devem ser avaliados regularmente, assim como os níveis de MAE. Os coelhos com vínculos estreitos devem ser colocados no mesmo recinto. Porém, uma grade pode ser mantida entre eles para monitorar a ingestão individual de água e comida e a quantidade de fezes e urina de cada animal. Recomenda-se tocar no animal o mínimo necessário; para isso, é necessário planejar cuidadosamente o tratamento e a manipulação realizados pela equipe.

A clínica deve ter uma área destinada a exercícios dos pacientes, uma vez que eles estimulam a motilidade intestinal. Essa atividade deve ser supervisionada por membros da equipe.


Limpeza

A higienização dos equipamentos e do ambiente deve ser feita para prevenir a transmissão de infecções zoonóticas como Pasteurella multocida, Campylobacter spp. e Encephalitozoon cuniculi em indivíduos imunocomprometidos.


A plataforma Fear Free® recomenda que a limpeza e a desinfecção sejam realizadas com desinfetantes à base de peróxido de hidrogênio acelerado. Há muitas vantagens em utilizar esses produtos, uma vez que não há necessidade de etapas de enxágue, além de eles serem considerados não irritantes e não tóxicos para os animais e as pessoas. Aconselha-se que os profissionais usem peróxido de hidrogênio acelerado nos seus instrumentos e no estetoscópio, tanto para desinfecção quanto para a eliminação de odores. A água sanitária pode ser usada na diluição de 0,1 a 10%. Porém, o ambiente deve ser enxaguado e seco para que um animal seja introduzido nele. Outra opção é utilizar produtos à base de amônia quaternária. As aplicações devem seguir as instruções do fabricante.


Os coelhos territorialistas podem ficar extremamente estressados com a equipe durante a limpeza de seus recintos, e alguns deles podem golpear e morder. Por isso, recomenda-se retirá-los durante a limpeza, para reduzir o estresse. Os autores deste artigo geralmente direcionam ou atraem o coelho para uma caixa de transporte forrada com uma toalha colocada no interior do recinto. A caixa de transporte então é removida para permitir a limpeza. Assim que o coelho retorna, a porta da caixa é aberta, e o alimento pode ser espalhado no recinto para incentivar a saída do coelho e também como recompensa.


Eutanásia

A eutanásia é um procedimento que visa induzir o óbito do paciente sem dor e sem sofrimento. Porém, o procedimento está associado a vários dilemas éticos e decisões difíceis para os médicos-veterinários. A decisão de proceder à eutanásia de um coelho é tão árdua como para outros animais de estimação. Para promover um procedimento menos estressante, os médicos-veterinários devem estar conscientes das causas de estresse em coelhos, respeitar o vínculo da pessoa com o animal, usar uma comunicação empática e clara e considerar o luto.


Os autores deste artigo sugerem que os médicos-veterinários façam os cursos disponíveis na plataforma Fear Free® que abordam com detalhes como aliviar o estresse do animal, do tutor e da equipe nessas circunstâncias.


Idealmente, é preciso ter uma área especial e que disponha de sofás destinada ao procedimento. Caso isso não seja possível, aconselha-se que o procedimento seja feito em uma sala de consulta, que deve ser adaptada para prover conforto e tranquilidade para o animal e para o tutor. Como mencionado anteriormente, é importante bloquear estímulos provenientes de predadores. O agendamento da eutanásia deve ser feito em horários de menor movimento, provendo tempo suficiente para o tutor lidar com o momento. O médico-veterinário também pode realizar a eutanásia em domicílio. É uma opção para reduzir o estresse do animal e do tutor.


As abordagens que reduzem os níveis de estresse citadas nas seções acima podem ser aplicadas durante o processo de eutanásia. O médico-veterinário e a equipe devem planejar cuidadosamente o que é necessário para a realização do procedimento e ainda saber lidar com as possíveis eventualidades. Os profissionais devem explicar cada etapa do procedimento para o tutor e também relatar quais são os resultados esperados. É importante que a equipe tenha conhecimento sobre o que o tutor planeja fazer com o corpo do coelho após a eutanásia.


Em casos de coelhos com vínculo estreito com aquele que recebeu eutanásia, sugere-se que se deixe o animal vivo investigar o corpo do falecido. Dessa forma, ele terá oportunidade de saber o que aconteceu com seu parceiro. Porém, não é aconselhável fazer com que o coelho presencie a eutanásia do parceiro.


Os autores deste artigo sugerem que a equipe tenha contato com serviços que ofereçam apoio ao tutor, como psicólogos que trabalham com pessoas que vivenciam o luto pela perda de animais. Além disso, a clínica pode mandar flores ou um cartão para o tutor como forma de reconhecimento, agradecimento pela confiança e apoio ao processo de luto.


Promoção do bem-estar dos coelhos

Os profissionais devem aconselhar os tutores sobre as ações relacionadas à promoção do bem-estar dos coelhos. Para isso, os médicos-veterinários devem conhecer os cinco pilares do bem-estar animal e avaliar a qualidade de cada um deles. Caso haja comprometimento de um ou mais pilares, o médico-veterinário deve discutir com o tutor sobre como implementar estratégias que resultem em melhoras. Por exemplo: caso o tutor forneça ração tipo Muesli (mistura de ração, milho, aveia, trigo e pedaços ricos em amido), que não é recomendada, o médico-veterinário deve indicar a troca da ração, aumentando a qualidade do pilar associado à dieta.


A clínica deve informar sobre a importância da escovação do pelame, do corte de unhas, do vínculo estreito entre os coelhos (em inglês, bonding), do treinamento da caixa de feno e da castração. Caso o local não disponibilize esses serviços, é necessário fazer parceria com outros profissionais que os executem. Outro tipo de parceria importante pode ser feito com empresas que constroem recintos para coelhos.


A castração de coelhos provê uma variedade de benefícios para o animal e para os tutores, pois é essencial para promover o vínculo estreito entre os coelhos e reduz a possibilidade de gravidez psicológica, de ninhadas indesejáveis, de transmissão de doenças venéreas e de comportamentos associados aos hormônios sexuais, como agressividade e demarcação com urina, entre outros.


Considerações finais

O conhecimento dos alicerces do bem-estar, assim como da linguagem corporal e do comportamento dos coelhos, é crucial para que o médico-veterinário consiga identificar, prevenir e tratar problemas comportamentais desses animais, assim como para estabelecer com eles abordagens amigáveis e confortáveis. O atendimento amigável e livre de medo e de estresse é uma ferramenta de suma importância na promoção de um vínculo saudável entre o paciente e os profissionais, e também entre o tutor e a equipe da clínica.


Parte integrante do artigo publicado na revista Clínica Veterinária, Ano XXVI, n. 155, novembro/dezembro, 2021.



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