Notícia

14 de junho - Dia Mundial do Doador Humano

Transfusão de sangue em animais - uma terapia que salva!


É muito comum e já bastante difundida a doação de sangue entre seres humanos, o que, aliás, ainda precisa de maior incentivo para que mais vidas possam ser salvas.


Bem menos sabido é que a doação entre animais também pode ser uma chance de preservar a vida de cães e gatos, e que a terapia transfusional é um modelo de tratamento de várias patologias associadas aos animais de companhia, como, por exemplo: anemias, hemorragias, deficiências de coagulação e hipoproteinemia. A propósito, essa última corresponde a uma diminuição das proteínas plasmáticas que pode ser causada por diversas enfermidades de base.


Diariamente, os clínicos e cirurgiões médicos-veterinários se deparam com situações diversas em que a única saída para tentar salvar a vida de um cão ou gato é utilizar-se da transfusão sanguínea. Essa iniciativa pode ser considerada um transplante, pois se obtém o sangue de um determinado doador que se transplanta para um receptor.


O sangue advindo do doador pré-selecionado pode ser transfundido de forma pura e íntegra (sangue total) logo após a coleta ou ser armazenado e/ou separado em seus componentes parciais por meio de centrifugação.


Para cada enfermidade em que se indica a transfusão de sangue total ou de seus hemocomponentes haverá uma melhor indicação - por exemplo, um plasma fresco congelado terá uma indicação diferente da de um sangue total fresco. Assim como em seres humanos, algumas regras precisam ser seguidas para que tanto o doador como o receptor do sangue ou de seus hemocomponentes possam ser candidatos à transfusão, sempre com o intuito de melhorar a oxigenação e de estabelecer os valores normais de proteínas e das plaquetas de coagulação para o paciente receptor.


Para que um doador canino seja considerado apto a doar, há que se respeitar alguns requisitos como:

- ser um adulto saudável com idade entre 1 e 8 anos, em boas condições de saúde;

- não apresentar pulgas e carrapatos;

- não ser portador de doença infecciosa;

- ter peso acima de 27 kg; e

- estar com o esquema vacinal completo e em dia.


Além do exame físico e da avaliação do escore corporal, o médico-veterinário solicitará alguns exames de sangue para confirmar que o doador esteja livre de doenças que possam ser disseminadas via sangue, como Ehrlichia canis, causadora da erliquiose, e Babesia canis, causadora da babesiose, ambas transmitidas por carrapatos. Além dessas doenças, deve-se investigar a Dirofilaria immitis, mais conhecida como verme do coração ou dirofilariose, a Brucella canis e a Leishmania sp. Pelos exames de sangue também será avaliada a contagem de plaquetas por meio de hemograma, o que deve ser feito a cada doação.


Cada doador, obedecendo-se aos critérios acima, pode doar até 450 mL de sangue a cada 28 dias. Em casos de cães que são doadores frequentes, deve-se sempre avaliar a suplementação de ferro.


Nos casos de felinos, a idade adequada para o doador é de 1 a 8 anos de idade, porém é preciso lembrar que o peso varia entre 4 e 8 kg. Além disso, o volume máximo a ser doado por um gato corresponde a 100 mL, e os felinos devem ser testados para doenças próprias, como o vírus da imunodeficiência felina (FIV) e a leucemia felina (FeLV), além de passarem por hemograma e testes bioquímicos para detectar possíveis doenças renais e/ou hepáticas.


Sempre que se fala em transfusão de sangue, deve-se ter em mente que os animais também têm grupos sanguíneos específicos. Diferentemente dos seres humanos, os cães têm oito grupos sanguíneos, que são identificados como antígenos eritrocitários específicos e deverão passar por testes de compatibilidade.


A tipagem sanguínea é eficiente para identificar antígenos presentes nas hemácias e que podem provocar hemólise; no entanto, não se detectam os anticorpos entre o receptor e o doador - o que não significa, em última análise, que o doador e o receptor tenham a mesma tipagem sanguínea, mas apenas que o receptor não tem anticorpos contra o sangue do doador, podendo-se dessa forma concluir que não haverá intercorrência transfusional aguda. Outras manifestações imunológicas podem ocorrer e devem ser avaliadas antes do procedimento, por meio de teste de compatibilidade e de monitoramento contínuo durante o processo de transfusão.


Para se proceder à coleta de sangue, o paciente deve ter comportamento dócil e obedecer aos critérios já mencionados; porém, em alguns casos de cães mais agitados ou indóceis, pode-se lançar mão de tranquilização ou sedação para a correta manipulação. Uma coleta de sangue é preferencialmente realizada pela veia jugular, com monitoramento contínuo do paciente doador; dura em torno de 15 minutos em bolsas sem vácuo - bolsas essas que são as mesmas usadas em bancos de sangue humano.


É digno de nota o crescente uso da terapia transfusional em cães e gatos ao longo dos anos, graças ao entendimento dos profissionais médicos-veterinários e ao avanço dos estudos sobre as indicações de uso dos hemocomponentes para casos específicos de maneira mais assertiva e qualitativa, mas, sobretudo, com a forte interação entre homem e animal e a maior conscientização dos tutores para disponibilizar seus animais a serem doadores.


A doação de sangue é um grande aliado para salvar cães e gatos. Esse ato sempre deve ser estimulado, pelo que nossos animais agradecem. Vamos comemorar, junto com o Dia Mundial do Doador Humano - 14 de junho -, também o doador pet. Viva!


Roberto Luiz Lange

Médico-veterinário - CRMV-PR: 2.806

Conselheiro Efetivo CRMV-PR