AHSA – Entrevista com Denis Rodrigues Prata

AHSA – Entrevista com Denis Rodrigues Prata

Denis Rodrigues Prata

Quais as características anatômicas mais importantes a considerar em uma cirurgia de joelho?

Esse é um aspecto muito importante: a articulação do joelho, nos animais e também nos seres humanos, é a mais complexa; tem uma série de ligamentos, tendões, estruturas ósseas, meniscos, gordura, tudo extremamente importante em qualquer tipo de cirurgia. Seria inadequado destacar alguma específica. Eu diria para o cirurgião, que em geral conhece os detalhes, e mais ainda para os clínicos, que é preciso considerar o ângulo do platô tibial, que é a depressão, a queda da tíbia, que força o cão a possivelmente romper o ligamento; examinar os meniscos, duas estruturas que atuam como restritores secundários também do movimento craniocaudal, que provavelmente se lesionarão depois de uma ruptura; a patela, o tendão patelar; ou seja, o clínico precisa levar em conta o básico, porque isso é importante na semiologia e ajuda no diagnóstico. Então, muitos pacientes acabam sofrendo luxações de patela de grau 2, o que já é importante, e se forem bem tratados cedo não terão problemas quando adultos. Então, estudar a anatomia do joelho é tão importante quanto diagnosticar as doenças.

 

Em que casos devemos solicitar um raio-X, uma tomografia ou uma ressonância?

Excelente pergunta. E vou até adicionar a artroscopia, que já é uma realidade para nós no Brasil. Nossa equipe foi uma das pioneiras, mas agora a artroscopia entrou com força, com outros colegas ortopedistas, com artroscópios pet, para fazer exames, por exemplo, em felinos ou em pequenos cães. Isso é muito legal, já era feito na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, e agora temos no Brasil, com qualidade. Na realidade, o raio-X é o exame de triagem, sem dúvida; o que precisamos entender é que o exame de raio-X deve ser realizado por um especialista em imaginologia, muito bem posicionado, de preferência com o paciente anestesiado, para que tenhamos imagens boas, que nos ajudem em vez de nos deixarem com mais dúvidas. A tomografia já seria o segundo – a tomo e a ressonância seriam exames mais complementares; então, quando já tenho um diagnóstico de luxação de patela de graus mais elevados ou pacientes mais graves, peço uma tomografia, uma reconstrução, para poder planejar correções de desvio. A ressonância magnética não é um exame sem importância, mas é menos importante. Na medicina humana, é muito utilizada para o diagnóstico de insuficiência do ligamento cruzado, mas na veterinária, os aparelhos de ressonância ainda não são os melhores para esse tipo de diagnóstico, então ela é limitada. Para nós, da área de joelho, eu recomendaria uma radiografia simples com o paciente anestesiado, tomografia, ultrassom de joelho, as artrotomias, que consistem em acessar e ver o joelho – ou seja, trata-se de um diagnóstico, de um exame –, e agora, com muita força, a artroscopia, que permite a visualização por mínimos acessos.

 

Qual a terapêutica mais indicada em casos de ruptura traumática recente de ligamento cruzado?

Hoje chamamos a doença de insuficiência do ligamento cruzado cranial. Porque hoje já tratamos esse ligamento antes que se rompa por completo. Quando um paciente apresenta insuficiência nesse ligamento, planejamos o tratamento, porque desse modo diminuímos as chances de uma lesão de menisco, de ele desenvolver uma artrose. Era comum achar que para ocorrer a lesão de cruzado era preciso haver trauma, porque isso é frequente em seres humanos. Mas na medicina veterinária a ruptura é vista como um processo crônico. O paciente nasce com o ângulo do platô muito inclinado, não sabemos exatamente por quê, mas, por uma série de fatores inflamatórios e imunes, esse ligamento vai perdendo força e se rompe. Então, o trauma existe; é bem provável que o cachorro dê uma corrida e rompa o ligamento, mas eu brinco e digo que esse trauma é apenas a gota d’água, que o copo já vem se enchendo por causa de outros problemas. Assim, essa parte traumática não é tão importante; há cães que rompem o ligamento passeando, na coleira, andando. A doença é muito diferente em seres humanos e em cães.

 

Quais as vantagens do nivelamento do platô tibial?

Acabamos não traduzindo a famosa TPLO, mas é o nivelamento. Eu sou um fã da técnica, tive a oportunidade de aprender com os pioneiros no Brasil, fiz cursos, com a nossa equipe, na Ásia, em Cingapura, fiz o primeiro curso do Hovet de TPLO, fiz curso no México, aprendi os detalhes da técnica, e diria a você que sua principal vantagem é a recuperação precoce do paciente. Se o colega realizar bem qualquer técnica extra ou intracapsular ou qualquer osteotomia, depois de oito meses, um ano, sendo a técnica bem feita, o resultado é o mesmo. Mas para nós, o que muda muito na TPLO é que o paciente na primeira semana já pode e deve apoiar o membro no chão, e num intervalo de dois a três meses muitas vezes já está totalmente recuperado. Então, pergunto ao meu cliente: “Você gostaria que o seu cão voltasse a andar muito bem em um mês, em dois meses ou que demorasse oito meses?” Cem por cento dos clientes preferem a técnica. Para mim, sem sombra de dúvida, a grande vantagem da técnica é o resultado precoce.

 

Quais, na sua experiência, são as raças com maior incidência de enfermidades cirúrgicas de joelho? Quais as enfermidades mais frequentes de cada uma delas?

Excelente pergunta também. Hoje em dia, como acabei de falar na minha apresentação, sem dúvida os problemas que mais chegam a um ortopedista são os de joelho. É um tema interessante, bem amplo. Podemos falar em três grupos de cães: os toys, os cães médios e os cães gigantes. Entre os toys, que hoje são toys mesmo, ou seja, com 1 kg ou 1,5 kg, eu colocaria o spitz-alemão (lulu-da-pomerânia), o yorkshire, alguns poodles toy. Esses cães vão ter muita luxação de patela, e aumentou também a incidência de insuficiência do ligamento, com possíveis lesões de menisco, e, no traumático, as fraturas distais de fêmur, que são um problema de joelho também. Isso nos toys. Nos cães de médio porte, temos também uma incidência de luxação de patela medial e muita insuficiência do ligamento. Em cães acima de 15 quilos, é muito grande o volume desses pacientes, e há também alguns casos de fraturas. Nos cães gigantes, é engraçado: por serem muito grandes, é difícil encontrar fraturas distais de fêmur, a anatomia do osso é um pouco diferente, a luxação de patela também é mais rara – pode haver a medial, mas a mais comum é a luxação de patela lateral –, e quando isso acontece, é muito grave; por isso, já estamos diagnosticando filhotes, porque eles quase não conseguem andar, e com certeza a insuficiência do ligamento é o que mais se vê: hoje, de cada dez que entram mancando, oito vão apresentar insuficiência de ligamento.

 

Em animais jovens de raças condrodistróficas, qual é o melhor momento para indicar uma cirurgia?

Muito boa a pergunta, porque isso é algo que precisamos mudar na cabeça não só dos cirurgiões, mas dos clientes. Nossa equipe esteve nos dois últimos anos num curso só de desvio angular no berço da ortopedia mundial, a cidade de Cremona, na Itália, e vemos que mudou muito a conduta nas luxações de patela. Eu mesmo, quando me formei, aprendi que “Ah, deixa o cão crescer e depois a gente opera e resolve”.  Isso mudou completamente. Hoje em dia, quando um clínico nos manda um cachorro com dois, três meses, podemos usar técnicas menos invasivas, que evitam que essa luxação evolua para um caso muito grave. Então, quando se pergunta: “Quando intervir nesses cães?”, a resposta é: “O quanto antes”. Mas eu preciso da ajuda do cliente. Os clínicos, como todos nós, têm que se atualizar. Sei que muitos não gostam de ortopedia, mas é preciso contar com bons exames, porque um cão bem diagnosticado, com luxação de grau 2 ou grau 3,  de três ou quatro meses, eu consigo resolver com uma cirurgia simples. Mas no caso de um cão que chega com um ano e meio, já vou ter que fazer osteotomia de fêmur, de tíbia; então, a resposta é: “Quanto antes, melhor”. A cirurgia será menos invasiva, e os resultados, muito melhores.

 

Na sua experiência, qual o prognóstico mais comum após uma cirurgia de nivelação do platô tibial?

Bem, aí você de novo está perguntando para um cara que é fã da técnica. Como eu disse, aprendi com os melhores, tenho uma equipe espetacular, devo agradecer ao meu time. Hoje entramos numa cirurgia dessas com três, quatro cirurgiões, então ela é muito bem planejada, com excelentes implantes. Temos hoje os melhores implantes do mundo; vale ressaltar que o mercado de implantes instrumentais do Brasil não perde para o de nenhum lugar do mundo – Europa, Estados Unidos e Ásia –, e posso dizer que hoje sou um ortopedista feliz. Isso é importante, a nova geração; acabei de falar isso na apresentação: o que temos é um mercado pronto para ser assimilado, e o prognóstico é o melhor possível. Claro que temos que conversar com o proprietário, que existem complicações, riscos, fisioterapias, reabilitações, cuidados para não ter depois a lesão do outro lado, controle do sobrepeso, mas com certeza absoluta o prognóstico é bom, muito bom; de novo, o que vai mudar é se o diagnóstico é precoce, se foi feito nas primeiras semanas, porque aí não teremos lesão de meniscos nem doença articular degenerativa. São pacientes com um prognóstico ótimo. Já num cão que vem com uma lesão de cruzado tendo apenas um ano de idade, o resultado é muito pior. Por isso é necessária essa avaliação prévia, bons exames, para passar isso ao proprietário. Mas eu diria que conseguimos melhorar muito a qualidade de vida mesmo de cães com joelhos muito ruins. Talvez eles não voltem ao que eram antes, mas conseguem ter uma vida feliz.

 

 

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