AHSA – Entrevista com Daniel Horácio Farfallini

AHSA – Entrevista com Daniel Horácio Farfallini

Daniel Horácio Farfallini

Quais as principais indicações da tomografia de tórax?

A tomografia computadorizada (TC) é o método de primeira escolha para tórax, pois os tempos de aquisição são curtos; ela minimiza os movimentos respiratórios e cardíacos e oferece recursos como o gating cardíaco, que elimina os movimentos do coração e faz cortes muito finos (o que é ideal para visualizar o parênquima pulmonar).

 

Quais as vantagens da técnica em relação à radiografia?

Em relação à radiologia convencional, a TC “expande” o conteúdo da cavidade torácica. Na radiografia convencional, visibiliza-se uma superposição de estruturas. Por exemplo, numa radiografia lateral de tórax você vê a parede torácica de um lado e o parênquima pulmonar do outro; já a TC “desenrola” esses planos, melhorando a visibilização dessas estruturas. Além disso, há uma clara diferença na sensibilidade à densidade delas. A radiologia convencional pode captar variações de densidade de 5%, enquanto a TC diferencia mudanças de densidade de 0,05%. Ou seja, a TC é 100 vezes mais sensível em termos de resolução. Na TC, é possível diagnosticar alterações de parede, da pleura, lesões mediastinais (anteriores e posteriores) e enfermidades do parênquima pulmonar, inclusive zonas de troca de gases. São muitas as vantagens da TC em relação à radiologia.

 

Tendo as técnicas de radiologia, tomografia e ressonância magnética à disposição, em relação às alterações torácicas, quando (na sua experiência) se deve indicar uma ou outra?

Os tempos de aquisição (da imagem) da ressonância magnética (baixo campo) para tórax demoram de 2 a 3 minutos, e isso faz os movimentos respiratórios diminuírem a qualidade de resolução da imagem. Tanto os movimentos respiratórios quanto os movimentos do coração comprometem a boa resolução e a qualidade da RM. Já a radiologia e a TC são bons métodos de avaliação do tórax. Na verdade, representam duas etapas diferentes da escala semiológica. O primeiro desses passos deve ser a radiologia (antes é preciso fazer um bom exame físico do paciente). Em seguida, realiza-se uma placa simples, que nos dirá se é necessária a realização de uma TC. Essa placa simples deve ter sempre as duas incidências (par radiológico): lateral e ventrodorsal. Não é correto fazer um diagnóstico a partir de uma única imagem lateral, porque há uma superposição de estruturas. É preciso fazer sempre uma incidência ventrodorsal e uma lateral, e, caso se encontre uma lesão que leve a aprofundar o tipo de alteração, então vamos para uma TC. Os dois métodos são bons. A primeira escolha é sempre o método de menor complexidade (a radiologia convencional).

 

Perante um paciente com suspeita de compressão por hérnia de disco, qual seria a técnica de imagem mais indicada?

No caso de um paciente com compressão ou hérnia discal, podemos indicar tanto uma tomografia quanto uma ressonância. Na verdade, é possível também fazer um diagnóstico por meio de uma radiografia simples, de maneira indireta. Se houver material calcificado, poderei ver isso na radiografia. Se existir uma diminuição do espaço intervertebral, posso suspeitar disso por meio da radiografia. Mas a confirmação somente virá com uma mielografia ou mielotomografia, que é um pouco mais sensível. O método de eleição para as patologias compressivas de coluna é a RM. Nela posso ver o material discal de maneira direta ou indireta, saber se está calcificado, e posso ver que tipo de lesão ocorreu na medula (inflamação medular, edema, lesão degenerativa), o que não conseguiria ver por meio de nenhum outro método (mielografia, mielotomografia ou radiografia simples). Repito: há uma escala de passos semiológicos: o primeiro é ter a suspeita da localização da lesão medular e fazer uma radiografia. A partir disso, consigo dar mais um passo: se tiver à minha disposição uma tomografia ou uma ressonância, então lanço mão desses métodos. Na verdade, o “melhor” método é aquele do qual tenho disponibilidade e que sei como interpretar. Esse é o melhor método para o paciente.

 

Qual foi a principal influência da chegada da tomografia na medicina veterinária? E da ressonância?

A chegada da TC na medicina veterinária foi revolucionária. Comecei a fazer tomografia trinta  anos atrás, e diziam que eu estava louco. Que era um método que não podia ser aplicado. Os radiologistas da Argentina não gostavam que eu utilizasse o método. Com o tempo, porém, passaram a me reconhecer, e agora somos todos grandes amigos. Mas foram épocas difíceis, e deu trabalho incorporar imaginologistas a esses grupos. Afora isso, a TC abriu uma enorme janela, não somente nos casos de patologias de coluna vertebral, mas em patologias de tórax, abdome, etc. A TC tem poder de resolução muito superior ao da radiografia. Mas não se pode “pedir” que a TC veja o que não consegue ver… Ela deve ser indicada no momento certo. Nunca deve ser a primeira escolha diagnóstica. Muitos colegas me ligam dizendo que vão encaminhar um paciente para tomografia, e eu digo que não. Primeiro o colega tem que fazer uma avaliação (exame físico) do paciente, tirar radiografias e ecografias, e depois, se ele quiser, posso recomendar uma TC ou uma RM.

Em relação à RM, ela também representou uma revolução no diagnóstico das patologias de tórax. A RM é o principal método de imagens para o diagnóstico de patologias neurológicas. Em cérebro e coluna vertebral, a RM consegue imagens que nenhum outro método possibilita. Como dizia um médico muito importante e famoso do Hospital Italiano de Buenos Aires, a chegada da RM na neurologia fez com que os médicos jovens não conseguissem mais pensar na neurologia sem ela. Antigamente, os médicos eram obrigados a fazer uma avaliação clínica mais apurada (e era muito bem feita). A RM levou a uma dependência na área de neurologia que nenhum outro método provocou. Realmente, foi uma revolução.

 

Quais, na sua opinião, são as principais contribuições da RM na área diagnóstica veterinária?

Na área de medicina veterinária deu-se a mesma situação. Temos uma quantidade de pacientes com diferentes graus de paresia e paralisia por compressão de disco. A incidência em cães é muito maior que em seres humanos, nos quais é incomum ver um paciente com paralisia por compressão ou hérnia de disco. Em medicina veterinária, essa situação é cotidiana. A RM é um método ágil, de rápida resolução, e não é invasiva, ao contrário da mielografia, que exige a injeção de um meio de contraste. Além disso, a RM tem enorme capacidade prognóstica, já que permite diagnosticar a inflamação da medula. Com isso podemos decidir se vale ou não a pena fazer a cirurgia. Há um antes e um depois da chegada da RM. Outros métodos também permitem identificar uma lesão compressiva; mas posso operar esse paciente, fazer a descompressão e constatar que ele não volta a andar. Com a RM, tenho condições de ver como está a medula: se há necrose, mielomalácia, etc. Com a RM posso saber se existe um processo de edema degenerativo, por exemplo, e optar por não fazer a cirurgia. A revolução da RM é essa.

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