A medicina veterinária de desastres em Mariana e Brumadinho

A medicina veterinária de desastres em Mariana e Brumadinho


Entrada da cidade e as homenagens às vítimas. Créditos: Vania de Fátima Plaza Nunes
Revista Clínica Veterinária. Edição 139 – março/abril XXIV, 2019

A medicina veterinária de desastres e catástrofes carrega consigo novos e importantes desafios que exigem um envolvimento multidisciplinar do setor público e privado. Dentre as funções tradicionais de maior destaque, em protocolos consagrados em diferentes países, estão a necessidade de instaurar e manter planos de controle da salubridade alimentar e de prevenção das populações de pragas e vetores. Entretanto, é necessário que os animais das diferentes espécies e classificações sanitárias componentes da comunidade atingida sejam também resgatados, para que se realize a avaliação individual e a triagem, e possam receber tratamento ou eutanásia. Nesse caso, é necessária a implantação de medidas sanitárias e humanitárias relativas à destinação desses animais.

Por outro lado, se após a triagem não forem detectados maiores problemas, eles deverão ser alojados temporariamente em estruturas de apoio previamente montadas, que tenham profissionais e condições para garantir o seu bem-estar enquanto estiverem abrigados 1. Segundo dissertação defendida na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa em 2016, os desastres podem acometer vários ecossistemas, provocando distúrbios na fauna e na flora, e atingem populações que, pela própria definição de desastre, não são capazes de responder de forma adequada 1.

Quando os desastres acontecem, há mobilização de equipes para procurar restabelecer condições minimamente aceitáveis de sobrevivência. No entanto, os animais não humanos acabam ficando fora desses planos e ações, deixando a cargo das Organizações Não Governamentais (ONGs) e de voluntários o ônus de suprir as lacunas deixadas. Isso ocorre pelo despreparo tanto dos serviços estatais (nos casos de desastres naturais) como das empresas responsáveis (nos casos de desastres que poderiam ter sido evitados).

O estudo português ainda revela que o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Lisboa não chegou a incluir os animais de companhia na sua estrutura – o que foi proposto pela dissertação defendida na Universidade de Lisboa.

Desastres naturais e não naturais.

Nos anos 1980, foram elaborados estudos considerando o tipo e a duração dos desastres, o grau de impacto na vida humana, o potencial de ocorrência e a capacidade de controle numa próxima ocorrência. Uma nova classificação tipificou os desastres a partir de: agente causal, duração, extensão, número de vítimas, tempo decorrido até início dos tratamentos primários pelas organizações de resgate, organização dos transportes e da evacuação de feridos, e gravidade das enfermidades.

Estas últimas ainda se dividiam em lesões mecânicas, de radiação, choque emocional e outras doenças 1. Os desastres não naturais se dão em consequência do aumento do número de substâncias e materiais perigosos inerentes ao desenvolvimento humano, tendo sido definido o termo “antropogênico” para o fenômeno artificial causado pelo homem – por sua ação ou falta dela, fruto de sua negligência ou erro.

A Organização das Nações Unidas (ONU) tipificou em 1997 alguns perigos que poderiam originar desastres tecnológicos, como a liberação de agentes químicos para a atmosfera por fogos e/ou explosões, o derramamento de produtos químicos, marés negras, acidentes aéreos, contaminação de origem militar e liberação de material biológico em atividade industrial, entre outros 2.

Experiência de Mariana, MG

O desastre de Mariana, MG, aconteceu no dia 5 de novembro de 2015. À época, um grupo de ONGs e voluntários dos direitos dos animais resgatou mais de 300 animais no momento seguinte à tragédia. Muitos desafios foram enfrentados naquele episódio, tanto pelos médicos-veterinários quanto pelos voluntários ligados à proteção e à defesa animal. Esses desafios perduraram tanto no período imediato após o desastre – devido à aglomeração dos animais, ao estresse enfrentado pelo acidente e ao longo período de manutenção em ambiente coletivo – como pela necessidade de se destinarem os animais não reclamados pelos antigos tutores, o que exigia novas medidas, como programas de adoção ou tutelamento monitorado de equídeos, pela empresa responsável pelo desastre da barragem até o final da vida dos animais.Entidades como o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNPDA) se mobilizaram tanto para arrecadar recursos nos instantes iniciais como para monitorar o Ministério Público no sentido de organizar melhor o atendimento crucial para a saúde dos animais, em curto, médio ou longo prazo.

Esse atendimento é fundamental para as famílias atingidas – que muitas vezes dependiam de uma vaca ou algumas galinhas para seu sustento, ou tinham com um animal de estimação um vínculo fundamental num momento de vulnerabilidade e perda de sua relação sociocultural com a área atingida –, além de visar também o restabelecimento da saúde e do bem-estar de cada animal envolvido. Além dos animais domésticos, também os animais silvestres sofreram e morreram em Mariana.

Segundo o Ibama, baseado na análise de toda a área atingida pelos rejeitos de minério da barragem, esse impacto pode ter atingido até 400 espécies na bacia do rio Doce, incluindo espécies de plantas, de 64 a 80 espécies de peixes, 28 espécies de anfíbios, 4 espécies de répteis, de 112 a 248 espécies de aves e ainda 35 espécies de mamíferos 3.O texto publicado na edição n° 120 da revista Clínica Veterinária, de janeiro/fevereiro de 2016, conclui que: “A ação que envolve o resgate e o manejo dos animais atingidos pelo desastre em Mariana possui vários pontos positivos e negativos, sendo fundamental que se faça uma reflexão profunda sobre as ações possíveis, as necessárias e o cenário ideal nesse desastre em particular.

Dessa forma, em situações futuras, a atuação do médico-veterinário e dos voluntários envolvidos no salvamento dos animais poderá se inserir no plano de ação de maneira mais explícita, inclusive nas medidas preventivas, fazendo jus ao conceito de Saúde Única” 4. O rompimento da barragem em Mariana, MG, foi o maior desastre ambiental do Brasil. Apesar de a Samarco (subsidiária da Vale) à época ter assumido a gestão dos serviços e suprimentos necessários à qualidade de vida dos animais impactados pelo acidente da barragem a partir de 10/12/2015, estes não foram incluídos no plano de emergência criado para o caso de novos desastres.

Experiência de Brumadinho, MG

O rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão em Brumadinho, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, MG, ocorreu às 12h28, no dia 25 de janeiro de 2019. Segundo o Departamento de Redução do Risco de Desastres das Nações Unidas 5, previamente à tragédia, o perfil de perigo de Brumadinho incluía os fatores físicos e ambientais de vulnerabilidade, como a ocorrência de inundação, solapamento, deslizamento de terra e incêndio florestal. O plano de redução apresentado pela prefeitura da cidade incluía o treinamento básico de defesa civil aos agentes de saúde, assistentes sociais e voluntários relativo a: noções básicas de como agir em momentos de risco; mapeamento das áreas de risco; formação de um conselho municipal de proteção e defesa civil; implementação do plano municipal de redução de risco; e elaboração de um plano de contingência. Como em Lisboa e em Mariana, os animais ficaram de fora do plano de contingência em Brumadinho, que dependeu de voluntários e organizações de classe (Conselho Regional de Medicina Veterinária) para ajudar nas buscas e no resgate de animais atingidos pelo rompimento da barragem.

A rápida e certeira ação de profissionais de medicina veterinária de Minas Gerais que se mobilizaram juntamente com voluntários já participantes de ações no rompimento da Barragem da Samarco em Mariana e na enchente de 2018 da região do rio Casca foi fundamental para o resgate dos animais diretamente envolvidos nas áreas atingidas e no auxílio àqueles que ficaram para trás na desocupação dos habitantes das áreas atingidas ou sob risco. O CRMV MG, cuja Comissão de Bem-Estar Animal é coordenada pela dra. Ana Liz Bastos, estabeleceu uma força-tarefa denominada Bri-gada Animal, que, poucas horas após a ruptura da barragem da Vale em Brumadinho, já estava no local atuando de forma rápida e segura nos resgates – sempre sob a supervisão e autorização da Defesa Civil local e do Corpo de Bombeiros, que coordenou e liderou a ação.

Em todo o processo de resgate dos animais existiram múltiplos grupos de colaboradores, voluntários e até mesmo organizadores que se somaram, cada um fazendo alguma parte da ação, e nem todos ficaram o tempo todo nem acompanharam todas as etapas, sendo que as últimas foram (e ainda estão sendo) realizadas por equipes locais e de longo termo. Desse modo, optamos por descrever o montante de um desses grupos, sediado na fazenda disponibilizada pela própria Vale.

Os resultados da tabela descrevem apenas um período de tempo e espaço dentro deste universo de ações, mais bem coordenadas graças à acumulada (e trágica) experiência de Mariana. ”Grandes desafios se apresentaram e requereram medidas complexas para o resgate de animais de grande porte, como bovinos e equinos, e de pequeno porte, como aves, cães e gatos. Foi fundamental estabelecer um eficiente programa de análise de risco, pois, nessas situações, pessoas se comportam de forma inadequada, oferecendo riscos aos voluntários e resgatistas treinados e a outros animais em áreas do entorno. Assim sendo, foi necessário que se adotassem medidas eficientes para garantir resgates seguros. A pesquisa de enfermidades infecciosas de caráter zoonótico, doenças espécie-específicas e controle parasitário, além de um completo exame e assistência clínica e nutricional acompanhada de manejo humanitário e etológico, são fatores centrais na condução das ações que deverão ser leva-das a efeito no médio e no longo prazo.

Considerações finais

A iniciativa proposta por médicos-veterinários em Minas Gerais, que conta com o apoio do Mi-nistério Público na área ambiental do estado, tem sido fundamental no resgate e no encaminhamento dos animais afetados. O modelo de ação imediata e emergencial criado pela Brigada Animal deveria ser cada vez mais estruturado e compartilhado nacionalmente com os demais colegas médicos-veterinários e voluntá-rios incorporados nessas iniciativas – para que se possam estabelecer objetivos e diretrizes no sentido definir ações e de angariar os recursos necessários para o treinamento das equipes e o fornecimento de apoio técnico e psicológico correto indispensáveis em situações idênticas ou semelhantes que possam ocorrer no futuro.

Escaneie o QRCode acima para ver as referências desta matéria

Autores:

Vania de Fátima Plaza Nunes. MV, CRMV-SP 4.119, Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. Coordenadora de Projetos do ITEC. vania.vet@gmail.com
Alexander Welker Biondo. MV, CRMV-PR 6.203, MSc, PhD., prof.Depto. Medicina Veterinária – UFPR. abiondo@ufpr.br


Nota de apoio à atuação dos médicos-veterinários em Brumadinho/MG

http://portal.cfmv.gov.br/noticia/index/id/5985/secao/6

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) informa que os médicos-veterinários da Comissão de Bem-Estar Animal, do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), estão acompanhando os trabalhos de resgate de animais em Brumadinho/MG, em função do rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Sob a supervisão de equipe veterinária, na segunda-feira (28/1/19), dois animais (um equino e um bovino), que estavam atolados havia quatro dias em local de difícil acesso, tiveram de ser abatidos por meio de rifle sanitário. Os animais encontravam-se em local sem condições de segurança para serem içados, presos em área que oferecia riscos aos socorristas e sem possibilidade de acesso para intervenção de outra técnica de eutanásia. Com base na Resolução CFMV nº 1.000/2012, a decisão da equipe envolvida foi estritamente técnica, uma vez que os animais já estavam debilitados, desidratados e em sofrimento. De acordo com artigo 3º da Resolução nº 1.000, a eutanásia pode ser indicada quando “o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, de sedativos ou de outros tratamentos”. E a norma ainda deixa claro, em seu artigo 10, que a escolha do método dependerá da espécie animal envolvida, da idade e do estado fisiológico dos animais, bem como dos meios disponíveis para a contenção. Adicionalmente, a Resolução CFMV nº 1.236/2018 (art. 5º, XXIX, parágrafo 1º) não considera maus-tratos “a eutanásia e o abate […], desde que seguidas as normas e recomendações técnicas vigentes para as referidas práticas”. O CFMV entende que o momento é delicado, requer deliberação profissional complexa, envolve preceitos técnicos e éticos, não sendo uma decisão trivial, mesmo para médicos-veterinários experientes. No entanto, reconhece e apoia o trabalho que vem sendo feito pela equipe do CRMV-MG, que segue comprometida com os protocolos e práticas de bem-estar animal. Os profissionais envolvidos possuem experiência em ocasiões de desastres ambientais e já atuaram, inclusive, no rompimento das barragens em Mariana e nas inundações do município de Rio Casca. O conselho alerta que os peritos oficiais estão coletando vestígios para apurar as causas do rompimento da barragem, e, por isso, o acesso ao local está restrito às equipes previamente autorizadas. Para não interferir nas investigações, nem prejudicar a produção de provas, as autoridades pedem calma e paciência, pois as equipes de salvamento já estão empenhadas no resgate dos animais da melhor maneira possível e garantindo a segurança de todos.

Nota técnica da Comissão Nacional de Bem-Es-tar Animal do CFMV

Por convicção, inspiração cívica e comprometimento com o bem-estar dos animais envolvidos na catástrofe de Brumadinho (MG), os médicos-veterinários brasileiros em atividade no local, voluntários ou não, estão buscando minimizar os danos à saúde física e mental dos animais presentes na área do acidente. Cabe frisar que todo médico-veterinário possui formação técnica para realizar o diagnóstico das condições de saúde dos animais e, em casos extremos, de acordo com as resoluções técnicas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), proceder ao sacrifício humanitário ou à eutanásia. Ressalta-se que o método de escolha do sacrifício passa também pelas condições em que o animal se encontra. Zonas de guerra, de acidentes de grandes magnitudes ou de catástrofes naturais muitas vezes são áreas cujas variáveis do ambiente não estão sob o controle do médico-veterinário. Assim sendo, e não havendo condições de segurança ou de acesso ao animal para remoção ou contenção química por anestésicos, o sacrifício com o uso de rifle é aceito. Quando corretamente aplicado por profissional apto e habilitado, o projétil produz dano cerebral grave e irreversível, induzindo o animal à imediata inconsciência e insensibilidade, eventos que antecedem e garantem morte rápida e indolor. Por ser uma técnica humanitária e por permitir mitigar de maneira rápida o sofrimento dos animais em zonas de catástrofes, esse método é amplamente difundido e recomendado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), bem como pelo CFMV. A decisão de sacrificar um animal não é algo fácil para nenhum profissional. Certamente é o momento mais difícil na vida de qualquer médico-veterinário. Possivelmente, os traumas produzidos em circunstâncias de sacrifício em massa e em áreas de catástrofes sejam similares aos traumas de guerra. Sendo assim, neste momento em que cente-nas de animais precisam de socorro e em que dezenas de veterinários estão assumindo essa responsabilidade, o que se espera da sociedade brasileira é o mais sincero apoio a cada um dos profissionais presentes hoje em Brumadinho (MG).

Sistema CFMV/CRMVs se mobilizou para pres-tar apoio à comunidade de Brumadinho/MG

O Sistema Conselhos Federal e Regionais de Medicina Veterinária (CFMV/CRMVs) lamenta o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ocorrido em 25/1/2019. O CRMV-MG está mobilizado para prestar apoio com força tarefa de médicos-veterinários experientes em situações de desastres ambientais.

Resgate

A área ainda está instável e há risco de rompimento de outra barragem. Por isso, a orientação do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, para o momento, é que nenhum médico-veterinário ou zootecnista voluntário vá até o local, em virtude da complexidade das operações.O CRMV-MG ressalta que sua equipe de profissionais enviada ao local aguardou a liberação para iniciar os trabalhos de socorro aos animais. Os profissionais estão preparados para atender aos animais atingidos, sobretudo os de grande porte, uma vez que a região possui propriedades que exercem atividade pecuária. O CRMV-MG dispõe de uma equipe de médicos-veterinários experientes em situações de desastre, que atuou, inclusive, no rompimento das barragens em Mariana e nas inundações do município de Rio Casca. O Conselho conta, inclusive, com o apoio da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais de Minas Gerais (Anclivepa-MG), que esteve reunida com a equipe do CRMV-MG, na manhã de domingo (27), para avaliar ações de complementação ao trabalho desenvolvido pelos profissionais que atuam no desastre de Brumadinho, além de planejar as estratégias para o resgate dos animais atingidos pelo rompimento da barragem.

Voluntariado e doações

O CRMV-MG agradece a todos os que se solidarizam com a causa animal neste desastre. A mobilização da classe profissional foi tamanha que o CRMV-MG recebeu cerca de mil contatos de médicos-veterinários e zootecnistas de todo o país disponibilizando-se para realizar trabalho voluntário, além de doações de inúmeros insumos veterinários e outros materiais. Para esse primeiro momento, as doações são suficientes e estão temporariamente suspensas. Caso haja necessidade de mais profissionais ou de doações para os trabalhos, o CRMV-MG divulgará por meio de seu portal e de suas redes sociais.

CFMV

Presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal do CFMV, o médico-veterinário Sérvio Reis, perito criminal oficial, foi convocado pela Polícia Federal para compor a equipe deslocada até Brumadinho em 26/1/19, com o objetivo de promover as perícias e demais diligências necessárias para a apuração do caso. O Sistema CFMV/CRMVs se solidariza com as famílias que sofrem com a perda de amigos e parentes e está à disposição para apoiar os órgãos que trabalham na busca por sobreviventes.


 

Natan Chaves

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor aguarde...

Inscreva-se na nossa Newsletter!

Você gostaria de manter-se atualizado com os eventos veterinários nacionais e internacionais mais importantes? Digite o seu endereço de e-mail e nome abaixo e receba updates que deveriam estar no calendário de qualquer veterinário!
0

Your Cart