A atuação do médico-veterinário nos desastres

A atuação do médico-veterinário nos desastres

As emergências e desastres ambientais, naturais ou causados pela ação humana, trazem novos e desafiadores caminhos para a medicina veterinária, que exigem um envolvimento multidisciplinar do setor público e privado. É importante definir que perfil o médico-veterinário precisa ter para trabalhar nessas situações adversas. A primeira condição é a vocação, pois, para atuar nessa área, é preciso ter compaixão, sensibilidade e compromisso social, além da capacidade técnica e ética e do preparo físico e psicológico.

Durante um desastre, parte da população atingida poderá viver situações extremas de sofrimento físico e psicológico, provocado pela insegurança, pelo medo e pelas perdas pessoais, exigindo das equipes de médicos-veterinários apoio além da assistência aos animais. A presença de médicos-veterinários nos resgates é fundamental, pois quando os animais não são considerados no manejo do resgate, as pessoas podem se recusar a sair de casa e ir para abrigos temporários se não se garantir o resgate seguro, a assistência, a alimentação e a dessedentação dos seus animais de companhia e/ou de produção ¹.

Médica-veterinária Laiza Bonela, da Brigada Animal, conversando com membros do corpo de bombeiros de Minas Gerais sobre estratégias para resgate dos animais

Diante dessa realidade, quais são os conhecimentos e as áreas de atuação que mais preparam os profissionais para atuar em desastres? Primeiramente, temos que considerar a essência da nossa profissão, que é o cuidado primário com o animal, a cura de suas enfermidades e a diminuição de seus sofrimentos, usando os conhecimentos médico-veterinários como meio de proteger o bem-estar animal e fornecer os cuidados adequados a cada um dos pacientes. É fundamental saber realizar ações extensionistas com as pessoas, acolhendo-as, ensinando-as, cuidando delas e preservando o ambiente em que estão inseridas.

É necessário entender de etologia de forma geral, e em especial para amenizar riscos e facilitar o resgate dos animais alvos da ação. Sem esse conhecimento, uma situação de grande vulnerabilidade e risco pode se transformar em um problema maior e mais complexo, que pode prolongar o resgate, ampliando o estresse dos animais e da equipe envolvida, ou mesmo colocar a vida de todos em perigo.

O conhecimento etológico da espécie facilita o resgate, o alojamento, os cuidados terapêuticos e a recuperação dos animais. É muito importante ter uma visão ampla da situação e saber articular os diversos atores envolvidos nos desastres. Algumas áreas da medicina veterinária, tais como urgências, emergências, clínica, cirurgia, epidemiologia, planificação em saúde animal, etologia e bem-estar animal, bem como patologia, são importantes para a formação do médico-veterinário no que se refere aos desastres.

Contudo, é preciso criar um espaço acadêmico nas faculdades de medicina veterinária no qual esse assunto seja abordado de forma interdisciplinar e transdisciplinar, de maneira a enfatizar a prevenção e a atenção dedicada às emergências e aos desastres, com propostas de ações voltadas para as intervenções, a fim de melhor preparar o profissional para garantir a saúde, o bem-estar, o manejo e os cuidados necessários a cada espécie e a cada indivíduo.

Primeira reunião da Comissão de Medicina Veterinária Legal do CRMV-MG, em Brumadinho, MG, sobre a atuação profissional do médico-veterinário em situações de desastres, com a presença do presidente da Comissão Nacional de MVL, Sérvio Reis

As principais atuações do veterinário nos desastres são:

• gestão e logística;
• resgate, evacuação, transporte e triagem: atendimento clínico;
• alojamento e manejo de abrigos: protocolos sanitário e de bem-estar animal;
• epidemiologia e saúde pública veterinária: controlar a população de vetores e reservatórios de zoonoses, que, após um desastre, podem ameaçar a saúde única;
• perícia e investigação: avaliar os riscos e caracterizar os danos aos animais e ao ambiente por meio de amostras e evidências, para determinar, de maneira técnica e transparente, o impacto disso em curto, médio e longo prazo e propor a mitigação dos efeitos do evento;
• assistência aos cães farejadores: responsabilidade cívica de auxiliar os socorristas quadrúpedes, tão indispensáveis e que tanto fazem em prol das vítimas de desastre; deve-se dar atenção aos agentes potencialmente tóxicos que poderão estar presentes em diversas formas físicas e que podem afetar os cães por meio do contato e da ingestão, inalação ou exposição, podendo originar intoxicações agudas ou lesões crónicas ¹.

Em cada frente de trabalho é necessário ter equipes multidisciplinares, pois nenhum profissional consegue atuar em todas as frentes e ter conhecimento em todas as áreas. Dentro das equipes, cada um tem uma função e uma atuação, definida pelo perfil e pela formação do profissional. O simples fato de trabalhar em equipe funciona como pilar de apoio mútuo entre colegas que vivenciam a mesma experiência, ajudando a diminuir o estresse individual. Todas as operações devem ficar sob a tutela de um coordenador que deve estar a par da situação que irão encontrar no local do desastre, garantindo que todos os componentes da equipe estejam psicologicamente preparados para atuar.

Ele também deve assegurar que toda a equipe tenha alimento, água, local e tempo para descanso. Após o término das operações, deve reservar um momento para conferir o estado emocional e psicológico de cada membro da equipe. Cabe também ao coordenador – ou à equipe de gestão – aconselhar as autoridades sobre a manutenção e a destinação dos animais, assegurar recursos para alojamento temporário, logística na área do transporte e elaboração de planos de contingência que incluam os animais ¹.

Diante de tantas atuações importantes para a saúde e o bem-estar dos animais, bem como para a sociedade como um todo – pois muitas vezes o animal constitui o único vínculo que sobrou, tornando-se a única motivação de vida para muitos tutores nesses momentos –, ainda são poucos os profissionais preparados e capacitados para atuar nessa área em nosso país. Além disso, quase não existem protocolos e planos que permitam dar uma resposta mais adequada nessas situações. A articulação com a defesa civil, o corpo de bombeiros, as polícias, etc., ainda é muito limitada, restringindo o campo de atuação dos veterinários nos cenários de tragédia.

 

Reuniãode trocas de informações entre as equipes de resgate da Brigada Animal e de outras contratadas pela empresa Vale antes da sair para o campo

No Brasil não existe um serviço veterinário oficial para atuar em situações de desastres. O que temos são alguns grupos compostos por veterinários, auxiliares e protetores que atuam nas tragédias, porém de modo informal. A Brigada Animal de Minas Gerais, equipe da qual sou coordenadora-geral, vem ganhando destaque nessa área, devido a sua atuação em dois grandes desastres ambientais – o de Mariana (novembro de 2015) e o de Brumadinho (janeiro de 2019) – e na enchente de Rio Casca, localizada na Zona da Mata de Minas Gerais, em dezembro de 2017.

O Serviço Veterinário Oficial do Brasil (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa) deveria ser o principal responsável pelo combate às emergências, dispondo de programas de contingência para enfrentar as catástrofes, salvaguardando a saúde animal e, sobretudo, prevenindo as enfermidades que podem ter implicações na saúde pública ².

Reunião realizada no CRMV-MG com membros da Brigada Animal e representantes da defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Ministério Público de Minas Gerias

Há exemplos disso em outros países, como é o caso da Itália, que integrou os serviços veterinários ao Sistema Nacional de Proteção Civil e incluiu um corpo de veterinários às corporações de bombeiros do país ³. Já em Cuba se desenvolveu um programa de aperfeiçoamento da preparação veterinária para o manejo de desastres, tendo sido criada a Sociedade Cubana de Medicina Veterinária para Casos de Desastres (SCMVCD), que agrupa médicos-veterinários e outros profissionais e um “centro veterinário para a prevenção em caso de desastres”, que conta com filiais em todas as faculdades de medicina veterinária do país.

O Ministério de Agricultura e Pecuária da Costa Rica – por meio do Serviço Nacional de Saúde Animal (Senasa), em coordenação com a Comissão Nacional de Prevenção de Riscos e Atenção de Emergências (CNE), com o setor privado e a academia, e com o apoio da organização Proteção Animal Mundial (WAP) – vem implementando uma série de ações orientadas ao fortalecimento institucional, ao desenvolvimento de capacidades para a gestão do risco de desastres e à promoção da prevenção, a fim de reduzir os riscos sanitários com a atenção oportuna prestada aos animais nas áreas afetadas .

A Índia, um dos países atingidos pelo tsunâmi do Índico no ano de 2004, criou após esse desastre a Tsunami Animal Relief Task Force, que agrupou todas as organizações não governamentais de veterinária da região, com o objetivo de planejar ações em função das necessidades detectadas nas diferentes áreas afetadas . Nos Estados Unidos existe o Time Nacional de Resposta Veterinária (National Veterinary Response Team – NVRT), que é uma equipe oficial formada por um grupo de indivíduos locados no Sistema Médico Nacional de Desastres (National Disaster Medical System – NDMS). Esse sistema é constituído por profissionais experientes nas áreas de medicina veterinária, saúde pública e investigação .

Veterinários Brigada Animal. Da esquerda para direita, Ana Liz Bastos – coordenadora geral, Carla Sássi e Arthur Nascimento – coordenadores de resgate

Em relação aos planos de contingências de desastres, na sua grande maioria, seja em prefeituras ou em empresas, os animais não estão incluídos e/ou não se cogita a presença de entidades ou instituições ligadas à área veterinária, o que pode constituir um obstáculo no delineamento e na organização da resposta. Independentemente do seu âmbito de atuação, esses planos são dinâmicos – e é essa dinâmica que permite que se adaptem à realidade das comunidades onde serão aplicados e incluam nessas ações o ramo veterinário.

Hoje, diante do cenário em que estamos vivendo, principalmente em Minas Gerais, devido ao perigo iminente de rompimento de várias barragens de rejeito de mineração, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais (CRMV-MG) vem se articulando com órgãos oficiais para que nós, médicos-veterinários, possamos ser aceitos no rol de profissionais que atuam nessa área. O objetivo do conselho é formar uma equipe veterinária de emergências e desastres, composta principalmente por veterinários que atuam na Brigada Animal de Minas Gerais, juntamente com seus auxiliares, profissionais dos serviços veterinários oficiais da saúde pública, do meio ambiente e da defesa animal, com apoio dos laboratórios de diagnóstico, da indústria de medicamentos, das universidades e da proteção animal.

O papel dessa equipe será a capacitação de profissionais – com ênfase em médicos-veterinários – para atuarem em desastres e a coordenação de esforços para a inclusão dos animais em planos de contingência, protocolos e ações que visam prevenir e restabelecer a ordem em casos de desastres.
Diante desse cenário, é nítida a necessidade de preparar melhor os médicos-veterinários para atuarem nessa área, para que possamos ser reconhecidos, respeitados e inseridos de forma oficial nas operações de manejo de desastres, agindo de forma paralela às ações desenvolvidas para o resgate de vidas humanas. É fundamental reconhecer o papel dos animais no núcleo familiar e na saúde humana, e incluí-los nos planos de contingência para desastres, visando prevenir e reduzir os riscos sanitários advindos dessas catástrofes.

 

Referências

01-VIEIRA, J. F. M. Medicina veterinária de desastres e catástrofes – contributo para a extensão do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Lisboa aos Animais de Companhia. 2016. 91 f. Dissertação (Mestrado em medicina veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2016.
02-SOUZA, M. V. Medicina veterinária de catástrofes. Sinapse Múltipla, v. 6, n. 1, p. 90-92, 2017
03-LEONARDI, M. ; BORRONI, R. ; di Gennaro, M. Veterinary medicine in disasters. Annali dell’Istuto Superiore di Sanita, v. 42, n. 4, p. 417-421, 2006.
04-QUINTANA, P. R. C. Reseña histórica sobre la medicina veterinaria de desastres en Cuba. Redvet, v. 11, n. 3B, p. 1-4, 2010. ISSN: 1695-7504. Disponível em: <http://www.veterinaria.org/revistas/redvet/n030310B/0310B_CM01.pdf>. Acessado em 29 de março de 2019.
05-DÍAZ, A. ; TRELLES, S. ; MURILLO, J. C. A gestão do risco e a atenção de animais em situação de desastre: aumenta a resiliência do setor pecuário. Costa Rica, São José: Instituto Intramericano de Cooperação para a Agricultura, 2015. 92 p. ISBN: 978-92-9248-622-8.
06-COMMONWEALTH VETERINARY ASSOCIATION. Commonwealth veterinary association and the tsunami disaster. Journal of Commonwealth Veterinary Association, v. 21, n. 2, p. 44-46, 2005.
07-UNITED NATIONs OFFICE FOR DISASTER RISK REDUCTION 2009 UNISDR terminology on disaster risk reduction, UNISDR, 2009. 30 p. Disponível em: <https://www.unisdr.org/we/inform/publications/7817>. Acessado em 29 de março de 2019.

 

Autores

Ana Liz Bastos
MV, CRMV-MG
Conselheira e Presidente da Comissão de Bem-estar animal do CRMV-MG
Perita da Coordenadoria Estadual de Defesa da Fauna do MPMG
Coordenadora Geral da Brigada Animal Minas Gerais
analiz.bastos@gmail.com

 

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Natan Chaves

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